segunda-feira, 26 de julho de 2021
terça-feira, 29 de junho de 2021
Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei*
*Mediante termos e condições.
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Foi num mês de junho (de 2019) que eu escrevi pela primeira vez sobre o relato do meu Gênesis - sendo comicamente trágico que tenha sido justo em junho, esse mês de dias pesados que amar vira um ato desafiador. Esse junho de posts coloridos, de Senado e Câmara Federal refletindo holofotes em arco-íris, de propagandas de publicidade abraçando uma visibilidade que não existe em janeiro, outubro, dezembro. Foi num mês de junho de 2019, esse mês do orgulho - a quem quer que pertença esse orgulho -, que eu escrevi sobre meu retorno à instituição cristã de I maiúsculo, que em junho de 2019 parecia me envolver no abraço da tão esperada compreensão. Mas abraços escondem faces, e faces denunciam intenções. Em junho de 2021, 2 anos depois, esse abraço me apertou, me sufocou - e a mesma mão que me abraçou, arrancou meu coração fora.
E então eu morri. Não morri fisicamente, apesar de ter tentado.
Para eles, morri em espírito.
Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. (Gálatas 3:28)
Não é mais do meu interesse aparecer aqui pra escrever páginas e páginas sobre minha experiência, minha fé, e as formas que isso é covardemente utilizado pra me atingir, pra me fazer virar alguém que eu não sou. Não quero mais. Eu não tenho competência pra dizer quem Deus deveria ser, não tenho necessidade de tentar demonstrar quem Ele é pra mim - se é que sobrou algo a ser. Nem quero dizer sobre o quanto a Igreja mata até hoje, perpetuando o mesmo enredo à época de Jesus Cristo, que condenava aqueles que oprimiam em nome da Lei de Moisés. Cansei de tentar me expressar em tudo isso.
E ainda assim, sou constantemente forçada a continuar.
Nunca foi me dada uma escolha às consequências que atribuem a mim. Eu sequer pedi por um salvador? Eu pedi por uma vida em que tenho de me mutilar e me rasgar pra caber dentro de uma caixa que simplesmente não sou eu, só pra que isso me dê a vida eterna? Sangrando como eu sangro, você acha que eu tenho interesse de viver eternamente? Tu me fizestes como bem entendeu, e não me ofereces Sua misericórdia ao só me deixar morrer em paz?
É difícil o suficiente ser informada e relembrada, constantemente, sobre a obrigatoriedade de louvar e adorar um Deus que, pra você, só é apresentado como alguém que não lhe recebe da maneira como estás.
Um cartaz escrito "venha até mim TODOS", com as condições em letras minúsculas, uma série de restrições ao significado de todos.
Um outro cartaz mais gentil, logo ao lado, escrito "venha a mim TODOS", sem as letras minúsculas de condições, que te chama a atenção por não estarem segurando, na mão contrária, tochas e espadas. E aquilo te faz bem, porque finalmente parece que algo está mudando, até ficar claro que tudo não passa de uma falsa sensação de "sou tão galera, amo sem ver a quem", só pra te moldar aos mesmos pré-requisitos porque "podem VIR todos, mas para ser continuar aqui como Certo, negue-se a si mesmo".
Que Deus é esse que vocês pregam? O Deus abraâmico, o justiceiro, uma entidade obcecada por glória, que teve de criar toda a humanidade só pra ser louvado. Ele se parece com o Javier Bardem? Você faz, faz, faz - se recorta tantas e tantas vezes pra tentar ser o que letras estáticas da Bíblia te dizem pra ser - mas nunca é o suficiente? Você vive uma vida robótica incapaz de responder questionamentos, lutando e matando por uma palavra que você sequer entendeu, tamanha sua falta de compreensão literária?
Eu temo esse Deus. Não o temor divino, o temor de medo. Eu tenho medo do que vocês falam. Eu me recuso a seguir em algo por medo, por achar que se não feito exatamente assim, eu serei jogada em um lago de fogo.
Que me jogue em um lago de fogo. Estou certa que não arde tanto quanto meu coração arde em junho de 2021.
Quanto a estes pequeninos que creem em mim, se alguém for culpado de um deles me abandonar, seria melhor para essa pessoa que ela fosse jogada no lugar mais fundo do mar, com uma pedra grande amarrada no pescoço. (Mateus 18:6)
A esta altura eu não me importo se você diz saber que eu não entrarei no céu. Já tiraram tanto de mim, de quem eu sou, do que eu acredito, que honestamente nem sei se há um céu - e, caso exista, não sei se pertenço lá. Sei que não pertenço aqui com vocês em terra. Não consigo. Já tentei. Meu coração não é assim.
Se o céu eterno é uma extensão da Igreja na terra, o que eu faria lá? Confraternizaria com meus irmãos que me perseguem, com os que me abandonaram, com os que me espancaram, que me expulsaram de ambientes que eram meus? Se você espera isso de mim, estás esperando na pessoa errada. Esse é Jesus, não eu. Não sou Jesus, o filho de Deus, pra ser perseguido e morto em prol da causa maior, em amor à humanidade. Sou só uma pessoa.
E ainda assim me mata diariamente, de pouquinho em pouquinho, que os que se entendem como escolhidos são meus perseguidores, perseguidores dos que são iguais a mim. Me mata que meus similares tenham de se esconder junto comigo, temer pela própria vida, temer um leve e simples segurar de mãos com um igual. Não percebem a dor que propositalmente nos provocam - seus irmãos, seus iguais?
Jesus teria a arrogância que sai da sua língua ao se colocar como superior a todos os outros pecadores imorais que são tão diferentes de você? Teria tamanha agressividade ao colocar o próprio filho na rua? Seu Jesus faria isso? Pare de tentar camuflar seu próprio coração apodrecido em fundamentos de um cristianismo que não te ensinou o que você perpetua. Pessoas tendenciosas te ensinaram isso. Jesus nunca ensinou intolerância - quem o matou, sim.
e lhes disse: "Vocês sabem muito bem que é contra a nossa lei um judeu associar-se a um gentio ou mesmo visitá-lo. Mas Deus me mostrou que eu não deveria chamar impuro ou imundo a homem nenhum. (Atos 10:28)
Em junhos, eu não sangro só por mim. Sangro pelos meus iguais. Os perseguidos, os destituídos de receber amor da própria mãe, os incompreendidos, os que tiveram portas fechadas e sessões de exorcismo justificadas no amor alheio. Eu não dou mais duas fodas pra crente colhendo o que planta, a justiça não é minha a ser feita. Com o coração que eu lutei para manter, eu antes ainda conseguiria oferecer simpatia aos meus opressores. Hoje, depois de tanto e tudo, só consigo olhar com indiferença. Não é do meu perdão que você precisa.
Eu me posiciono com os meus. Com os que acordam diariamente colocando a cara à tapa, emocional e fisicamente, onde todo dia é uma batalha só pra manter-se vivo. Em junho, neste bem mais que nos outros, eu sinto o que vocês sentem, o que nós sentimos. Eu divido meu coração com vocês, e ofereço o meu afeto e consolo. Não é o divino - eu jamais conseguiria me assemelhar ao Divino -, não é o que é idolatrado pelas massas, mas é um verdadeiro afeto, um honesto consolo.
Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.
Mesmo que devessem saber. O nosso choro e nosso desespero deveria ser sinal suficiente.
Às Igrejas e seus preletores, avisem que eu morri. Deixem acharem que eu morri. É melhor assim.
Feliz junho, feliz mês do orgulho LGBTQI+, feliz, feliz, feliz... Sou feliz de amar como amo, sou feliz de ser amada de volta. Tenho orgulho da minha sobrevivência, da nossa resistência. Mesmo sem teto pra morar, sem afeto, sem fraternidade, sem compreensão, sem acolhimento, sem pele, sem vida. Mesmo que nos tirem tudo, mesmo que nos tirem a vida, como tiraram de tantos de nós justamente neste mês... mesmo assim, teremos vivido. De cabeça erguida, sempre.
Ninguém mais deve ter o poder de nos dizer o que ser.
Se o preço a ser pago por essa coragem às cegas, mesmo na fraqueza, for queimar no fogo... que assim seja. Estamos queimando no fogo dessas fogueiras mundanas há tempo o suficiente pra saber que se cairmos, caímos lutando.
— Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês fecham a porta do Reino do Céu para os outros, mas vocês mesmos não entram, nem deixam que entrem os que estão querendo entrar. Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês atravessam os mares e viajam por todas as terras a fim de procurar converter uma pessoa para a sua religião. E, quando conseguem, tornam essa pessoa duas vezes mais merecedora do inferno do que vocês mesmos. (Mateus 23:13, 15)
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quinta-feira, 24 de junho de 2021
4 álbuns para ouvir e fingir que Daisy Jones & The Six é real
Esqueçam tweets virais e tiktoks sobre geração y e millennials, nós encontramos o Messias dessa divisão. Não importa se você nasceu em 1989 e parte o cabelo de lado, se nasceu em 1998 e não se encaixa em lugar nenhum, ou se nasceu em 2001 e não usa calça jeans - essas diferenças geracionais não importam mais, agora que achamos nosso elo em comum: o TJRU.
Taylor Jenkins Reid Universe.
Quando li Daisy Jones & The Six pela primeira vez, o mundo não era um cenário apocalíptico ainda. Era a última semana de dezembro de 2019, num sítio isolado onde o único sinal com o mundo externo era por um telefone na parede da sala, minha única preocupação era deixar a massa de cuscuz no ponto certo pra comer no café da manhã na varanda, só pra logo depois colher mangas no parquinho, passar protetor solar, e ficar pra sempre na espreguiçadeira na beira da piscina, com toda uma floresta atrás de mim.
Nessa época eu também estava apaixonada por alguém que eu achava não poder ter. Saí para o meu retiro espiritual certa de que aquilo seria bom, que eu não só precisava como merecia passar dias sem contato externo, sem ansiar a próxima mensagem que o objeto do meu amor não correspondido poderia me mandar. Toda manhã eu fazia meu cuscuz, colhia minhas mangas, colocava um biquini e saía pra piscina, procurando uma sombra em que eu pudesse sentar com o livro de minha escolha, e finalmente, depois de muito tempo, relaxar.
Exceto que o livro que eu levei foi Daisy Jones & The Six. E a piscina era ótima, a floresta com trilha atrás de mim era ótima, a completa falta de barulho humano dando lugar ao barulho da natureza era ótimo - mas, ainda assim, eu era uma menina com um amor não correspondido que estava lendo Daisy Jones & The Six.
Seguro dizer que ali, mesmo na beira da piscina usando um chapéu azul, eu estava em completo estresse por ser uma Daisy Jones perdidamente apaixonada por um Billy Dunne.
Mas isso é história pra outro tipo de texto.
(sim, nós namoramos hoje).
Depois de alguns livros completamente normais, nada muito diferente do conteúdo de qualquer outro livro young adult de livraria de shopping, Taylor Jenkins Reid descobriu, numa revelação que só pode ter sido Divina, que seu nicho era um bem específico: escrever histórias sobre pessoas famosas que não existem. Tenho essa teoria de que os livros da Taylor que tratam sobre fama fizeram tão mais sucesso que seus romances básicos anteriores porque esses famosos parecem mais reais do que os anônimos dos livros de sessão da tarde.
É improvável que você termine Evelyn Hugo sem pensar quem seria a Evelyn Hugo da vida real. É improvável que você termine Daisy Jones & The Six sem pesquisar se essa é uma banda que existiu de verdade. "Eu acabei de ler um memoir de uma banda real que eu nunca ouvi falar?"
Todo mundo quer saber quem é, quem foi, ou quem teria sido Evelyn Hugo, Daisy Jones, Mick e Nina Riva. Absolutamente ninguém vai ligar se Emma Blair é uma pessoa que existiu ou não, em quem ela é inspirada, quem ela poderia ser. Quem diabos é Emma Blair?*
Pra mim, essa é a magia do universo da Taylor Jenkins Reid, onde a menção de novas personalidades públicas em cada livro pode virar um nova história, um novo enredo, uma nova fama. E se você lê esse blog, é certo que você gosta de fofoca de Hollywood. Então não interessa se de cabelo de lado ou no meio, todo mundo tem Taylor Jenkins ao seu favor.
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Minha paixão por bandas de rock vai beeeem mais atrás, em tardes na casa do meu pai, grandes caixas de som e pendrives no som do carro. Meu pai se denominava uma "enciclopédia do rock", nas palavras dele, e tudo do mais clássico ao mais underground eu ouvia. Tinha de ouvir. "Rock não foi feito pra se escutar em volume baixo", meu pai também dizia.
Que Deus o tenha.
Ele não morreu, ele só parou de falar comigo.
Eu e meu pai sempre tivemos uma realidade e vivência conturbada - ele conseguia ser a parte mais normal e mais tóxica da minha vida, ao mesmo tempo. Ao sair dela, meu pai não me deixou muitas coisas. Mas uma herança cultural ele deixou. Não tenho pra quem ligar quando brigo com minha mãe ou quando furo o pneu do carro, mas ainda tenho histórias sobre discos do Raul Seixas, rankings dos melhores bateristas de rock da década rereretrasada, intrigas de colegas de banda e uma curadoria das melhores lojas da Galeria do Rock pra achar camisetas de heavy metal - inútil pra muitos, mas da qual me orgulho muito.
Ler Daisy Jones & The Six na beira da piscina, além de me trazer de volta os sentimentos que eu estava tentando evitar, também era como ter meu pai nos finais de tarde, me levando pra tomar sorvete na farmácia da esquina, só porque ele podia, só porque tínhamos a chance. Era retornar ao banco do passageiro e falar pra ele, orgulhosa, que eu tinha achado uma banda de rock boa o suficiente pra ter criado coragem de mencionar pra ele em primeiro lugar - justo ele, que passou 40 anos da vida fazendo uma curadoria das melhores. Se ele curtisse, se ele pedisse pra ouvir de novo ou perguntasse quem era - se ele se interessasse de alguma forma, eu teria ganhado meu dia.
Esses são os álbuns que eu mostraria pro meu pai no carro, no caminho da escola pra casa, torcendo pra que ele gostasse tanto quanto eu. Se Daisy Jones & The Six fosse uma banda que de fato existisse, nós tocaríamos no carro assim:
01. Teatro d'ira: Vol. I - Måneskin
02. The Civil Wars - The Civil Wars
03. Plastic Hearts - Miley Cyrus
Se Måneskin é os The Six sem a Daisy Jones, Miley Cyrus em Plastic Hearts seria a Daisy Jones sem os The Six.
Se Demi Lovato teve suas 24 personalidades destrinchadas nos últimos dois posts, Miley Cyrus possivelmente teve o dobro. Mas sabe aquela sua persona que, por mais que seja falsa, é a mais legal de todas? A da Miley é essa.
Tem uma certa nostalgia nessa nova onda do ressurgimento de mais músicas rock e punk voltando à indústria, seja lembrando-se do gosto musical dos senhores nossos pais ou só mesmo recordando de icônicas trilhas sonoras de filmes adolescentes dos anos 2000. Não importa quem somos hoje, todos nós já compartilhamos um sonho: fazer parte de uma banda de garagem, uma tão boa quanto a banda da Lindsay Lohan em Sexta-Feira Muito Louca. Tem algo que grita em celebração à nossa primeira juventude, à nossa rebeldia de adolescência, quando ninguém nos compreendia e tudo estava começando a mudar, mas solos de guitarra ainda podiam nos abraçar.
Pra todos que tiveram seus lápis de olho e franjas lambidas pro lado, esse é um álbum pra você.
Daisy Jones não precisava ser adolescente pra ser a maior das rebeldes, a menos incompreendida da turma. Acredito muito que Plastic Hearts poderia ser uma obra dela, só dela, em que ela usaria suas composições autorais pra propagar que prefere sua liberdade à prisão de uma banda (um amor) que nem sequer queria sua presença (I was born to run, I don't belong to anyone, I don't need to be loved by you em Midnight Sky), pra falar mal do Billy Dunne nas entrelinhas e ao mesmo tempo confessar seu amor na faixa seguinte. Sozinha, Daisy teria sido uma honestidade bruta e agressiva, assim como Miley foi nesse disco - mas sem nunca perder sua vulnerabilidade, que, mesmo escondida por trás de várias camadas de desilusão, ainda continua lá, intocável (High e Never Be Me, que falam sobre nada ser o suficiente, e sobre você mesma não ser suficiente pra ninguém).
WTF Do I Know, a faixa que abre o álbum, seria perfeita pra uma Daisy recém afastada dos The Six, sem remorsos, sem explicações pra dar, continuamente sustentando o discurso de que ela não precisa deles - não pode ser de fato o que ela acredita, mas sim pra irritar os que ficaram. A vingança favorita de um incompreendido é aparentar ter saído superior àqueles que não te levantaram, e eu acredito que um rompimento da Daisy (sem a carga emocional de seu envolvimento com Billy), poderia ter se dado assim. Mas como a história é outra, como temos nosso romance proibido de bastidores entre integrantes da mesma banda, a que melhor cabe na nossa narrativa mesmo é Angels Like You.
Angels Like You é uma daquelas músicas que se encaixa com muitas coisas, diferentes coisas. Mas é definitivamente uma música que Daisy Jones escreveria sozinha, gravaria sozinha, só pra ter o Billy a acompanhando na guitarra no final. Mesmo que ele soubesse que grande parte do que está sendo cantado em sua frente é sobre ele mesmo.
É um álbum sobre exaltar a si mesmo, sobre pontuar o quão superior e mais legal que todo mundo você pode ser - só pra depois quebrar essa expectativa confessando que você nunca vai ser a certa pra alguém, por estar constantemente se destruindo, por não querer mudar por ninguém. Nada mais rock 'n' roll do que pontuar seus defeitos e agarrar-se a eles, por não saber quem é de verdade debaixo de toda a persona rebelde que construiu depois de muitos traumas. Nada mais rock 'n' roll do que celebrar a liberdade com uma discografia quase que inteira compartilhando que sente-se preso em si mesmo.
Daisy Jones é complexa o suficiente pra entender exatamente o que isso quer dizer.
Para ouvir também: Gimme What I Want, Hate Me, Golden G String
04. Rumours - Fleetwood Mac
Vocês sabiam que esse tava vindo.
quarta-feira, 9 de junho de 2021
Ninguém quer ouvir a sua voz (e outras reflexões)
Durante algum momento da mudança de comportamento social juvenil, a consolidação do entendimento da geração Millennials como um estilo de vida e o fim de Gossip Girl, uma verdade foi compreendida e propagada pela humanidade: você tem uma voz, e deveria usá-la. Musicais inteiros foram escritos, séries de tv foram planejadas, contas de Instagram comparecem em todos os extremos, Youtube virou uma carreira consolidada, e opinar - na Internet ou na vida real - nunca foi tão, tão fácil. "É a minha voz!", você deve ter pensado alguma vez, "e eu tenho algo a falar".
O script de A Star is Born (roteiro de Bradley Cooper & co), disponível online, é surpreendentemente um compilado perfeito de metáforas e reflexões sobre usar sua própria voz. Em minha rápida e leiga análise, conscientemente ou não, o filme inteiro acaba sendo sobre a incessante busca de falar e ser ouvido. Em uma das minhas falas favoritas, por exemplo, Jack diz a Ally que talento tem em toda esquina, que provavelmente todo mundo que você conhece é talentoso em alguma coisa - mas que ter algo a dizer e ter pessoas te ouvindo era algo bem diferente. Posteriormente, ao ser abordada por um produtor musical, Ally também o escuta dizer que "há pessoas que precisam ouvir o que você tem a dizer musicalmente" - que é um orgasmo pra qualquer artista.
Não somente, quando Ally tem seu debut no mundo pop - agora escondendo-se atrás de uma persona robotizada pela indústria que já engoliu sua voz original -, Jack volta ao centro de todos os seus discursos durante o filme ao dizer que "tudo o que você tem é você mesma, e eles te escutam agora, mas não vão escutar pra sempre".
"Então diga o que você tem a dizer... porque a forma como você diz é coisa de anjo".
Romance. <3
Cresci e me criei romantizando a ideia de entregar pro mundo o que eu sentia e acreditava - porque era importante que eu fosse ouvida. Na vida adulta, reforçar essa ideia era inevitável, uma vez que fui uma criança silenciosa, amedrontada com a simples menção de ser obrigada a falar meu nome em público. Quando crescendo, as pessoas nunca me ouviram - mas eu tinha algo a falar. E ao adentrar na juventude eu só... descubro que posso? Com mídias e músicas e solos do Ben Platt não somente me validando como me incentivando a falar tudo que eu quisesse? A distribuir todos os meus pensamentos? Parecia mágico.
Mas todo mundo tem algo a falar. Todo mundo. Aprendi isso depois de anos me sentindo especial, achando que só eu tinha monólogos internos bons o suficiente pra entregar ao mundo, que só o meu ponto de vista era iluminado. Só foi depois de muitos embates via stories do Instagram sobre política e amizades vítimas de opinião disfarçada de "eu sei mais do que você" que eu percebi que - É.
Ninguém quer, na verdade, ouvir a sua voz.
Depois de anos e anos me criando na Internet, concluí que o que todo mundo quer, na verdade, é um amaciante de ego. Sabe lavar a roupa e ficar com cheirinho de lavanda? Esse tipo de amaciante. Se a sua voz está de acordo com o que eu já acredito, com uma opinião minha que já está formada, então eu escuto, pois vale à pena. De todos os textos que já escrevi, de todas as colocações que já fiz, nas diversas vezes que me responderam em agradecimento às minhas palavras... não era exatamente um agradecimento pela minha voz. Era um agradecimento por minha voz ser exatamente o que você queria ler. Ou o que você estava pensando e não soube como dizer. "Minha voz", essa voz que me coloca gritando por tantos lugares, não estaria sendo apreciada e louvada se não fosse só... um compilado de opiniões que já eram suas.
Dias atrás fiz um formulário com questionamentos sobre política, com perguntas básicas sobre entendimentos pessoais sobre interpretação de direita e esquerda, o que entendiam por fascismo e comunismo, se o PT tinha sido um partido de extrema esquerda. Vocês sabem, esse tipo de coisa que a gente já sabe a resposta. O intuito era analisar os resultados e escrever sobre como o falatório político (aqui, claro, tendenciosamente me referindo à extrema direita) usa de termos e ideias que o orador sequer sabe o que significa. Eu não pude, no entanto, publicar essa enquete no Twitter. Porque a resposta seria a mesma. Uma pesquisa em que 100% do resultado são pessoas entre 16-29 anos com tendências pendendo pro lado esquerdo e concordando que o governo atual flerta com o fascismo - o que é verdade, é um fato, mas concordância total de dados? Numa pesquisa? Não seria uma pesquisa, seria uma conversa de bar com meu círculo de amigos.
Será que a gente viveu o suficiente na Internet não pra virar herói, mas pra virar... exatamente o que Eles dizem que nós somos? Eles - uma corporação de homens dos anos 80, mãe e tias fofoqueiras -, que nos repreenderam nos almoços em família com "lá vem a doutrinada", que prometeram que todo e qualquer discurso jovem fundamentado em posts de Internet era "genérico"... Vivemos por aqui o suficiente pra dar razão à Eles?
Nossa série favorita do momento, The Bold Type, é tão explicitamente criada e pautada em dar voz a todas as questões sociais e midiáticas possíveis de caber num espaço de tempo de 40 minutos que, por vezes, dei uma encolhida quando me serviram o tabu bem quebrado. Me pergunto quando nós passamos dos adolescentes com a necessidade de gritar sobre feminismo e suas subdivisões pro nosso desconforto físico ao esbarrar com algo que é woke demais para 2021. A problematização da problematização, não é assim?
Internet, a gente entrou num paradoxo.
Nosso buraco de minhoca nos levou de um extremo a outro. O que antes era um distanciamento necessário e orgulhosamente bem feito dos preceitos e entendimentos dos nossos pais, hoje é só... exatamente o mesmo, só que no mundo invertido.
Descobri então que a filosofia tem um rolê pra explicar isso - porque é claro que tem, filósofos sendo filósofos. Aconteceu de Hegel um dia espalhar por aí algo conhecido como "Teoria da Dialética", dialética essa que era a raiz pela qual nós tínhamos a capacidade de produzir conhecimento. Aconteceria assim: primeiro você tem uma tese (uma idéia, um pensamento). Depois, você desenvolve uma antítese, que é um pensamento contrário à sua tese original. No fim, acontece a síntese: pegue um pouco dos dois mundos, filtra a tese, filtra a antítese, forme sua própria opinião e seja feliz.
A gente ainda filtra, será?
Sei que tem um compartimento obscuro da comunidade online que ficou preso na antítese sem chegar em conclusão alguma. Sei também de muita gente da vida real que sequer passou da tese.
Deve ter outro raciocínio filosófico de algum alemão por aí que diga exatamente isso, muito embora eu fique devendo essa pesquisa, mas não é o estancamento da humanidade quando a gente só para de formar novas sínteses? Um processo de análise que é feito só uma vez e nunca mais revisto ou reavaliado só sugere que nossa tendência é emperrar no espaço tempo da humanidade, que nunca para de andar e andar e andar e oferecer novas ideias e novas conclusões e novos entendimentos e novos desenvolvimentos, pra sempre e sempre e sempre - como deve ser qualquer linha temporal.
Foi um susto perceber que a minha voz, essa que eu tanto me orgulhava ao dizer que tinha, era só um amontoado de outras vozes, que eu li por ali, ouvi daqui, acreditei como sendo certo e fatídico por vir de pessoas que corroboravam para um pensamento que estava em mim, mas que também veio de outros lugares, e assim vai. A essa altura, eu nem faço ideia do que o lado oposto ao lado das minhas ideias prega por aí - porque eu nunca vejo. Esse conteúdo não chega até mim.
Já que estamos aqui discutindo sobre Internet e afins, um fato engraçado é que esses posts não chegam até mim ou até você porque, num trabalho minucioso de sistema e controle humano, esses algoritmos não foram selecionados pra você. Vocês nunca se perguntaram COMO as pessoas ao seu redor não viam as mesmas notícias e as mesmas críticas ao Bolsonaro que você via? Literalmente por isso: porque elas não veem. Não é um conteúdo que chega até alguém que tem o algoritmo milimetricamente calculado pra mostrar foto de arma e vídeo de pastor pregando. Percebe? A gente empacou na rede das teses.
E, de novo, o negócio da voz: como eu posso esperar que meus gritos de indignação contra o governo sejam compreendidos por seguidores alienados, se são seguidores! alienados!? O que eu espero que aconteça ao publicar um story atrevido escrevendo meus sentimentos sobre a administração da prefeitura? Que eleitores do prefeito cheguem até mim e respondam "é verdade mesmo, o que você disse faz sentido, mudei de opinião"? Quando que isso já aconteceu, tipo, na história? O que vai acontecer quando eu publicar um texto chamando eleitores do Bolsonaro de burros genocidas? Essa minha voz que sente tremores de raiva e vontade de cuspir fogo pelos dedos ao escrever sobre política, vai chegar até quem?
Vai chegar só até aqueles que pensam igual a mim.
E sendo assim, a gente tá conversando, de fato? Na nossa pesquisa social, com nossos resultados 100% em igualdade, a conclusão é qual?
Mesmo assim, acho ótimo jovens com didática o suficiente pra destrinchar pautas sociais num auditório. Acho genial produtores de conteúdo, escritores, [insira aqui qualquer cargo na internet] que tiram do seu tempo pra compartilhar seus entendimentos (suas sínteses!), a fim de que novas pessoas formem suas próprias sínteses. Mas fico me perguntando se sou uma delas. Do que adianta gritar, gritar, e gritar - se meu auditório está vazio?
E um conflito desses não tem como solucionar - não cabe a mim, não está em meu poder. Não posso cobrar que todo mundo entenda e exerça minhas sínteses se nem todo mundo passou por minhas teses e antíteses. Sabe? É aquilo de sempre: não dá pra esperar que todo mundo esteja pronto pra algo que só você está pronto. E é ótimo sentir que, sim, existem pessoas prontas junto comigo, e no nosso vórtex temporal estamos todos no mesmo tempo e timbre - mas a gente sempre quer um coral inteiro, né?
Se nada do que eu falei faz sentido, a culpa é do Hegel.
E ainda assim cá estou eu, escrevendo tudo isso num blog pra vocês lerem.
Desconsiderem tudo que eu falei, então.
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Para Vogue, Selena Gomez dia desses que declarou que cantar ao vivo é difícil, mas que ela absolutamente vai aceitar qualquer oportunidade que a coloque em cima de um palco se isso resulta na propagação do que ela tem a falar. "Não me importo em como minha voz vai soar, só em passar minha mensagem", em tradução livre. Tal declaração me soou curiosa por diversas motivos, de "se você é cantora e seu trabalho está sendo cantar, COMO você não liga para como sua voz irá soar? É tão fácil pra alguns..." até "uau, jovens são intensos, mas jovens artistas...".
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