Casais hétero construídos na narrativa LGBTQ+


Can we get back to posts leves e conteúdo irrelevante? Please? Yo-

Quando fiquei obcecada pelo casal Jo e Alex de Grey's Anatomy - uma série já conhecida como um símbolo dolorosamente hétero da cultura pop - percebi uma coisa: nós, os telespectadores*, não temos mais interesse pelo já ultrapassado clichê de relacionamentos heterorromânticos do qual foi formado os anos 2000. 

*Com base no meu algorítmo de seguidores do Twitter.

Explico: 

Jo e Alex foram a excelência enemies to lovers que uma série como Grey's Anatomy conseguira oferecer. Não era ótimo, mas também não era péssimo, e obviamente eu precisava espalhar pro mundo, muito embora ninguém mais assistisse drama médico em 2020 - exceto minha própria namorada, que também é dolorosamente "hétero". Lembro que cheguei pra uma amiga e muito seriamente disse que precisava apresentar esse novo casal a ela, que eram o epítome da comédia romântica dentro de uma série dramática que 20 anos atrás costumava ser boa. Disse que tinha tudo que as boas comédias românticas devem ter: começavam se odiando, ambos traumatizados, tinham o momento mais importante de conexão num casamento!, em que foram de encontro dublo sem saber que seriam acompanhantes um do outro!, e que a partir de então viravam amigos, e ele obviamente se apaixonava por ela, mas não podia falar de cara, pois é claro que ela era uma interna e ele chefe de pediatria. Uma delícia de drama romântico. 

A resposta que eu tive foi: "é casal hétero? Tô sem paciência pra casal hétero."

E aí eu comecei a pensar no quão ultrapassado, de fato, é o padrão de qualidade romântica na cultura pop centralizada em casais héteros. Finalmente - e de repente - a gente começou a ter diversos conteúdos com ênfase LGBTQ+, bons conteúdos, em uma velocidade que não nos obriga mais a engolir qualquer romance ordinário. Temos opções agora, opções mais próximas da nossa realidade, opções que não existiam antes, ao ponto que nem precisamos mais assistir todos os filmes adolescentes que a Netflix lança, a fim de preencher um buraco que só uma comédia romântica preencheria. Não! Temos outras coisas, outras leituras, outros casais disponíveis que não são um personagem meia boca do Noah Centineo.

No entanto, mesmo sabendo de tudo isso, Jo e Alex ainda representavam um casal fictício importante pra mim - daqueles que você realmente se interessa, se importa, e pesquisa gifs no Tumblr como se ainda fosse 2012. Parecia simples demais rebaixar um enredo tão rico a um simples casal hétero normal, como todos os outros. Eles tiveram noivado de mentira! Um casamento que deu tudo errado e eles nem estavam por perto pra ver, porque fugiram pra transar! Eles nem se deram o trabalho de planejar o casamento, contrataram uma amiga pra fazer isso e riram juntos de tudo que ela escolhia! Problemas com abandono parental e confiança! Festas de Halloween, festas de ano novo, uma lua de mel em que ela não parava de trabalhar por inspiração repentina, e ele apoiava isso! ROMANCE!


E aí uma luz acendeu na minha mente, um pensamento iluminado pela expansão cerebral que é notar algo que estava na sua frente e você só não percebia ainda:

Oh. [leia na entonação da sua fanfic favorita]

Todos os casais héteros que eu ainda gosto, eu gosto porque eles tem a essência que casais LGBTQ+ teriam. 

Me escuta, faz sentido: 

Existem alguns pré-requisitos pra que um casal LGBTQ+ exista na cultura pop. São requisitos silenciosos, mas ainda assim seguidos até hoje em salas de produção, atributos que sempre são inseridos no cenário homorromântico, conscientemente ou não. 

O RELACIONAMENTO (SAUDÁVEL) PROIBIDO

Convenhamos: o que grita mais GAY do que relacionamentos escondidos dos olhos públicos? Por qual outro motivo um casal teria de se esconder, de manter-se trancado à 7 chaves, se não por um grande motivo social e cultural de depreciação da realidade queer? Vez ou outra um casal hétero entrega esse mesmo atributo, por motivos bem mais irrelevantes e pedantes do que a manutenção da própria sobrevivência e integridade, e é  que surge a linha tênue entre o drama desnecessário do casal hétero fingindo ter os mesmos problemas de um casal queer e o drama DELICIOSO que é um casal hétero entregar tão bem essa problemática que, uma vez tirados os nomes e a identidade de gênero, poderiam oferecer o melhor dos romances gays já vistos.

Grey's Anatomy, muito embora conte com sua cota preenchida de personagens LGBTQ+ ao longo dos anos, ainda é o símbolo da cultura pop que mais nos entregou casais héteros icônicos. Vez ou outra um desses casais, muito embora ainda obedecendo o padrão, vai cair nas graças do público LGBTQ+, por um motivo que nem eles compreendem. Com tanta nova e boa opção de conteúdo queer, qual é o detalhe desses padrões que ainda nos atrai, que nos faz adotar casais heterossexuais como nossos pais, como parte da nossa personalidade? Eu tenho muito tempo livre (mentalmente falando), então eu descobri o motivo.

Quando eu digo que Grey's é uma série dolorosamente hétero, não é porque o conteúdo é integralmente hétero. Pelo contrário, a agenda gay de certos enredos foi, por muita vezes, bem explorado e extremamente necessário. Pra mim, o que significa ser um produto configurado como Produto Hétero é o público que o consome com afinco, e levando em conta que minhas tias crentes são obcecadas pela série, não custa descobrir que tipo de público sustenta Grey's Anatomy no ar até hoje. Sabe coisas gays que são feitas para pessoas héteros, e coisas héteros feitas pra pessoas gays? É isso.

Algumas coisas ultrapassam o público para o qual o conteúdo foi feito, assim não é preciso ter visto a série pra conhecer o discurso inteiro da cena "I'm infected by Mark Sloan". Curiosamente, se você digitar "i'm infected by" no Google, a primeira resposta é "by Mark Sloan", e a segunda "by coronavirus", comprovando que a popularidade do casal Mark Sloan e Lexie Grey consegue ser maior do que uma pandemia mundial. 


Foi só esse ano, em 2021, que eu vislumbrei a magnitude de Mark e Lexie, quando a nova temporada de Grey's retornou com Covid-19 e mortos (gringos imitando Amor de Mãe, que retornou com Covid e lésbicas). No novo plot, Meredith (irmã mais velha de Lexie e protagonista da série) encontra-se num universo paralelo entre a vida e a morte, onde constantemente reencontra vários dos personagens posteriormente mortos pela assassina Shonda Rhimes. Quando Mark e Lexie (re)apareceram em cena depois da trágica saída de ambos, a Internet virou aquele lugar mágico e assustador que todo mundo está falando da mesma coisa, ao mesmo tempo, na mesma intensidade.

Mark e Lexie não entregaram um romance proibido capaz de gerar prisão na Rússia, mas tiveram todos os altos e baixos dramáticos que um relacionamento com diferença de idade conseguiria ter, incluindo uma filha de Mark com sua melhor amiga bissexual, Callie. Aliás, o que grita mais "welllll to be honest I'm a hetero guy but I really try to be a good ally" do que ter uma filha com uma mulher bissexual latina? No fundo do nosso subconsciente ficou registrada aquela imagem de Mark Sloan como um grande defensor dos direitos LGBTQ+, o que é o mais perto de justificar tanto carinho que recebe da comunidade - porque, convenhamos, caso interpretado com um pouco menos de carisma e gostosura, Mark Sloan tinha de tudo para ser um homem-puta desprezível (LEMBRAR que existe um episódio inteiro dedicado à greve das enfermeiras se recusando a trabalhar com ele, formando um clube chamado Enfermeiras Unidas Contra Mark Sloan, ameaçando abrir processo sindical sustentado em assédio sexual. Ehrem).


O que, então, cativou tantos telespectadores gays em um hiper-sexualizado, cínico, maior vetor de doenças sexuais dentro de um hospital - além de, é claro, todos esses fatores? A interpretação do Eric Dane a entregar o personagem e, é claro, seu relacionamento com a única personagem capaz de ser seu completo oposto, Lexie Grey. 

Acompanhar um casal que não pode ou não consegue ficar junto com a tranquilidade e normalidade de casais "convencionais" é um ponto de pressão extremamente delicado pra comunidade gay. É nessa teoria que eu centralizo todo esse texto: nessa figura silenciosa que é amar certo casais comuns e tradicionais que oferecem atributos de amor proibido e ameaçado, enredos que batem perto demais da casinha. 

Lexie e Mark se perderam um do outro tantas vezes - e tão frequentemente - que morreram sem saber se estavam juntos ou separados, jurando amor eterno um ao outro antes de terem seus corpos comidos por animais (vdd, essa série é doida). O motivo de tantos desencontros nunca foi referente aos sentimentos de ambos, a única coisa contínua entre os dois do começo ao fim, mas sim pelos empecilhos da "vida real", pelo que significaria pra ambos continuarem juntos, constantemente se afastando, tudo justificado na tentativa de fazer "o que é melhor pro outro". Soa familiar?

Um clássico já conhecido por todos os entusiastas de romance é o abrir mão achando que o melhor para o objeto do seu afeto não é você mesmo. A humanidade por si só é complexa demais pra reduzir esse sentimento à uma característica gay, qualquer pessoa podendo ser vítima de auto-aversão nessa economia, mas já estive em alguns relacionamentos sáficos (dois) pra dizer com propriedade que, pra gente, isso é uma tarde normal de quarta-feira. 

Um outro casal da ficção que entregou esse sentimento com maestria, tão deliciosamente bem feito, foi Sutton e Richard, de The Bold Type. Esse é um casal hétero sem ressalvas, que é o que acontece quando um homem é escrito por uma mulher millennial que ainda fala de feminismo com a mesma força que todo mundo falava em 2015. Aqui o mercado de trabalho (gosto como essa é a desculpa universal pra que um casal hétero tenha um romance proibido) é, de novo, o antagonista: ele trabalha como advogado da editora em que ela é uma simples assistente, é claro. No entanto, a ~~ambientação desses dois é tão mágica e gostosa, que todos os clichês parecem de muito bom gosto, e dá até pra chorar emocionada com cenas em que eles se pegam escondidos dentro do elevador nos intervalos, um privilégio que só cenas que entregam tensão sexual palpável a ponto de cortar com uma faca conseguem ter. 


Sutton e Richard entregam gloriosamente a raridade que é acertar um casal hétero cis branco numa cesta recheada de subtexto gay, e é tão sutil que você, como telespectador, não nota que isso sequer está acontecendo - até se pegar torcendo pra que este casal completamente NORMAL possa ter um encontro no parque e andar de mãos dadas!! Por um segundo você pode se sentir ridículo de se prestar ao papel de quem chora pra um homem rico e uma mulher branca se beijarem em público, mas, ei, tudo em nome do Bom Romance, certo? 

Acredito que o Bom Romance de Sutton e Richard seja tão bem construído porque, muito além dos Detalhes que já eram direitos de nascença do público LGBTQ+, o padrão de masculinidade e feminilidade é propositalmente quebrado nesse casal, uma vez que a própria premissa da série é celebrar pautas pro-feministas. É por isso que [SPOILER QUARTA TEMPORADA] quando eles se casam, por exemplo, bate num pedaço bem mais especial do coração quando é o Richard a andar até o altar para encontrar a noiva, e que é sempre ele a abdicar das próprias vontades pra satisfazer as dela - muito embora eles reforcem constantemente que ele é um cara de 40 anos e ela uma mulher inconstante de 25. 

É claro que, assim como qualquer outro ordinário casal hétero, esse aqui também chegaria num ponto do enredo que o único drama restante seria, bom, enredos dolorosamente héteros, é claro [quinta temporada]. Mas mesmo assim, mesmo com essa quebra de expectativa do plot perfeito, Richard continua se encaixando naquela categoria do nosso Homem Branco Feminista Favorito, que recebe nosso biscoito de vez em quando, e que na vida real seria aquele namorado legal da nossa melhor amiga, que dá carona no pós-festa e tira brincadeira na mesa do churrasco pra se enturmar. 

Às vezes acontece de o namorado legal da melhor amiga já ser do grupo de amigos, e, na ficção, esse foi o único casal de excelência com namoro escondido que eu encontrei que não envolvia a proibição do relacionamento em cima do diferente cargo de trabalho, e sim na já preexistente relação de amizade dentro de um grupo só. Pra começar, Monica e Chandler recebem selo de excelência Casais Héteros Para Pessoas Gays porque ambos, juntos e separados, exalam energia bissexual. Dividir apartamento com melhor amigo gostoso é coisa de gente gay - gente hétero ou mora sozinho ou mora com os pais. Não surpreendentemente, ambos viveram anos como os locatários de Joey e Rachel, e isso por si só é gay, mas ache o que quiser. 

Chandler e Monica são exemplo de excelência independente do tema que estivermos abordando, é claro, porque é da natureza deles já nascerem Aclamados. Aqui, o trope friends to lovers ainda oferece a cereja do bolo que é o namoro proibido/escondido, inicialmente privado aos olhos dos amigos e familiares, mesmo sem nenhum motivo aparente - me mande um e-mail agora QUEM que nunca ficou com um amigo? 

Ainda assim, mesmo sendo desnecessário, é algo que funciona bem demais, tanto pro enredo quanto pro desenvolvimento de ambos os personagens. Com Monica e Chandler, assim como na relação de Sutton e Richard, também existe a quebra de expectativa do que seria o "esperado" de um casal padrão como os dois, o maior exemplo sendo o pedido de casamento feito e organizado por Monica, e não por Chandler - o que, *CHEF'S KISS*, é um grande momento de roteiristas que entendem e conhecem seus personagens, de tão on character que é a decisão de ser feito dessa forma: Chandler, que não acreditava em relacionamentos e vivia assustado com a ideia de assumir compromissos; e Monica, que compreendia as limitações do companheiro e, obedecendo seu maior traço de personalidade de controlar e planejar tudo, deu o grande passo de cuidadosamente pedir para que Chandler abrisse mão de seus bloqueios pra que ela pudesse ajudar a carregá-los. 


*Sighs* Como é bom amar o amor...

Infelizmente nem tudo são flores e velas, e definitivamente nem tudo é interessante como Slexie, bem feito como Sutton e Richard, ou clássico como Mondler. Às vezes os já citados requisitos, quando não são bem executados, vira uma grande desesperada bagunça hétero. O que nos leva ao

RELACIONAMENTO (NÃO-SAUDÁVEL) PROIBIDO

Tem uma diferença - uma linha que nem é tão tênue -, entre um relacionamento que é proibido por questões profissionais, abstratas e pessoais... e um relacionamento que é proibido por ser ilegal, por exemplo. [risos nervosos]

Não tem um exemplo mais no ponto do que Aria e Ezra, de Pretty Little Liars. Muita gente vai tentar colocar os mas. Ele era o professor dela, mas. Ela era menor de idade, mas. Sim, hoje em dia parece estranho, mas. Estou ciente dos mas, afinal eu também amo boas cenas românticas de casais tirando foto com sacola na cabeça, ou tendo que ir sair da cidade para se encontrar. No entanto, a essa altura do campeonato, eu vou bater palma pra homem adulto levando adolescente pra Filadélfia escondido porque, caso a beije na rua da própria cidade, pode ir preso? Parou, né. Soa até de mal gosto que eu apoie uma coisa dessas. 

Ao contrário de Richard e Sutton, duas pessoas adultas, Ezra, no começo do relacionamento dos dois, já tinha seus 22 anos - ao passo que Aria, sua aluna, tinha 15, abaixo até mesmo da idade legal de consentimento nos Estados Unidos. 

(foda que é muito boa essa cena aí)

Irei, clandestinamente, rever uma cena ou outra dos dois que marcou minha adolescência? É claro. Vou sempre lembrar que esse casal foi literalmente responsável por enfiar na minha cabeça que minha paixão por um garoto de 21 anos que flertava comigo quando eu tinha T R E Z E era de bom tom e totalmente aceitável? Vou também. 

Perigo isso, gente. Perigo. 
Mas se uma diferença de 7 anos de idade assusta, imagina uma diferença de 87 (oitenta e sete)?

Olha, eu não estou dizendo que Bella e Edward representam um casal a ser questionado na cultura pop aos nossos padrões sociais, porque lançar algo assim na Internet é o mesmo que me amarrar na fogueira e atear fogo - mas se eu ESTIVESSE falando algo assim, eu teria meus motivos.

Quando o relacionamento entre um homem e uma mulher cis não é proibido por cargos diferentes no trabalho, por (visível) diferença de idade, ou por dividirem o mesmo grupo de amigos, o que resta pra proibir? Um deles ser um vampiro de 101 anos, é claro. E não somente: sua vontade constante de matá-la. Ou a vontade constante de seus familiares de matá-la. Ou a vontade constante que os chefões da máfia vampírica na Itália tem de matá-la. Ou a vontade constante que todos os vampiros da região tem de matá-la. Basicamente eu acho que, se tudo no relacionamento resulta no risco de sua própria vida, já tem no mínimo umas 39 bandeiras vermelhas levantadas e rodopiando no ar. 

Bella e Edward ficam naquele limbo de coisas maravilhosamente terríveis, ou terrivelmente maravilhosas. Não dá pra saber muito bem o que a Stephanie Meyer, uma crente, ao escrever uma personagem inspirada nela mesma (kk) que só pensa em foder um vampiro, quis dizer com toda a história... Mas também sei que, resumir a saga Crepúsculo nessas poucas e vagas opiniões, é tratar de maneira relevante todo um enredo sobre vontade de poder, vontade de abdicar poder, falta de livre arbítrio e vida eterna. 

É nesse sentido que Bella e Edward tornaram-se absurdamente BÍBLICOS pra mim, e a essa altura vocês já devem saber que se tem uma temática que me interessa é subtom cristão em pautas LGBTQ+. A presença de tamanha culpa cristã e preocupação sobre o que resultará para a alma da pessoa amada o fato de Estar Com Você é algo que só aparece uma vez a cada duas luas, e só tem duas causas: ou você é um vampiro que viveu lá por, sei lá, 1900 - OU você é gay que cresceu em lar cristão. Pra resumir em miúdos: o Edward representa o gay que cresceu na Igreja, e a Bella representa a companheira que não dá a mínima se vai pro inferno ou não, desde que ela transe. 

Apenas casais com uma tonalidade bíblica seriam capazes de entregar tanta tensão, sacrifício, proibição, sacrilégio, pecados, inferno e vida eterna num contexto só - e isso só vem, de verdade, em enredos gays ou enredos de qualquer um dos filmes da saga Crepúsculo. Mais do que o relacionamento proibido dos dois, o envolvimento por si só significa o peso da condenação eterna, pelo menos aos olhos do nosso protagonista Edward Cullen - e Bella Swan o ama tanto que está disposta a abrir mão da própria alma pra estar com ele. Se isso não grita PROBLEMAS DE CASAIS LGBTQ+ pra você, não sei mais o que pode gritar.  


[Hoje o meu desafio é que vocês assistam Lua Nova como se fosse um filme gospel de romance LGBTQ+ alto orçamento.]

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Prometo que não estou com minha agenda gay transformando todos esses casais héteros em casais gays. Isso eu faço com músicas da Taylor Swift e o triângulo amoroso Betty x James x Augustine em Folklore. Mas se a vida é só assistir e ouvir música, por que eu Não interpretaria grandes casais da ficção do modo como eu bem entendo na minha própria vivência pessoal? 

Delicioso é procurar teor gay em todo lugar.
Diz a mulher que denunciou diversos graves casos de queerbaiting ao longo dos anos. 
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Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei*


*Mediante termos e condições.

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Foi num mês de junho (de 2019) que eu escrevi pela primeira vez sobre o relato do meu Gênesis - sendo comicamente trágico que tenha sido justo em junho, esse mês de dias pesados que amar vira um ato desafiador. Esse junho de posts coloridos, de Senado e Câmara Federal refletindo holofotes em arco-íris, de propagandas de publicidade abraçando uma visibilidade que não existe em janeiro, outubro, dezembro. Foi num mês de junho de 2019, esse mês do orgulho - a quem quer que pertença esse orgulho -,  que eu escrevi sobre meu retorno à instituição cristã de I maiúsculo, que em junho de 2019 parecia me envolver no abraço da tão esperada compreensão. Mas abraços escondem faces, e faces denunciam intenções. Em junho de 2021, 2 anos depois, esse abraço me apertou, me sufocou - e a mesma mão que me abraçou, arrancou meu coração fora. 

E então eu morri. Não morri fisicamente, apesar de ter tentado. 

Para eles, morri em espírito. 

Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus.  (Gálatas 3:28)

Não é mais do meu interesse aparecer aqui pra escrever páginas e páginas sobre minha experiência, minha fé, e as formas que isso é covardemente utilizado pra me atingir, pra me fazer virar alguém que eu não sou. Não quero mais. Eu não tenho competência pra dizer quem Deus deveria ser, não tenho necessidade de tentar demonstrar quem Ele é pra mim - se é que sobrou algo a ser. Nem quero dizer sobre o quanto a Igreja mata até hoje, perpetuando o mesmo enredo à época de Jesus Cristo, que condenava aqueles que oprimiam em nome da Lei de Moisés. Cansei de tentar me expressar em tudo isso. 

E ainda assim, sou constantemente forçada a continuar. 

Nunca foi me dada uma escolha às consequências que atribuem a mim. Eu sequer pedi por um salvador? Eu pedi por uma vida em que tenho de me mutilar e me rasgar pra caber dentro de uma caixa que simplesmente não sou eu, só pra que isso me dê a vida eterna? Sangrando como eu sangro, você acha que eu tenho interesse de viver eternamente? Tu me fizestes como bem entendeu, e não me ofereces Sua misericórdia ao só me deixar morrer em paz? 

É difícil o suficiente ser informada e relembrada, constantemente, sobre a obrigatoriedade de louvar e adorar um Deus que, pra você, só é apresentado como alguém que não lhe recebe da maneira como estás. 

Um cartaz escrito "venha até mim TODOS", com as condições em letras minúsculas, uma série de restrições ao significado de todos. 

Um outro cartaz mais gentil, logo ao lado, escrito "venha a mim TODOS", sem as letras minúsculas de condições, que te chama a atenção por não estarem segurando, na mão contrária, tochas e espadas. E aquilo te faz bem, porque finalmente parece que algo está mudando, até ficar claro que tudo não passa de uma falsa sensação de "sou tão galera, amo sem ver a quem", só pra te moldar aos mesmos pré-requisitos porque "podem VIR todos, mas para ser continuar aqui como Certo, negue-se a si mesmo".

Que Deus é esse que vocês pregam? O Deus abraâmico, o justiceiro, uma entidade obcecada por glória, que teve de criar toda a humanidade só pra ser louvado. Ele se parece com o Javier Bardem? Você faz, faz, faz - se recorta tantas e tantas vezes pra tentar ser o que letras estáticas da Bíblia te dizem pra ser - mas nunca é o suficiente? Você vive uma vida robótica incapaz de responder questionamentos, lutando e matando por uma palavra que você sequer entendeu, tamanha sua falta de compreensão literária? 

Eu temo esse Deus. Não o temor divino, o temor de medo. Eu tenho medo do que vocês falam. Eu me recuso a seguir em algo por medo, por achar que se não feito exatamente assim, eu serei jogada em um lago de fogo.

Que me jogue em um lago de fogo. Estou certa que não arde tanto quanto meu coração arde em junho de 2021. 

Quanto a estes pequeninos que creem em mim, se alguém for culpado de um deles me abandonar, seria melhor para essa pessoa que ela fosse jogada no lugar mais fundo do mar, com uma pedra grande amarrada no pescoço. (Mateus 18:6)

A esta altura eu não me importo se você diz saber que eu não entrarei no céu. Já tiraram tanto de mim, de quem eu sou, do que eu acredito, que honestamente nem sei se há um céu - e, caso exista, não sei se pertenço lá. Sei que não pertenço aqui com vocês em terra. Não consigo. Já tentei. Meu coração não é assim. 

Se o céu eterno é uma extensão da Igreja na terra, o que eu faria lá? Confraternizaria com meus irmãos que me perseguem, com os que me abandonaram, com os que me espancaram, que me expulsaram de ambientes que eram meus? Se você espera isso de mim, estás esperando na pessoa errada. Esse é Jesus, não eu. Não sou Jesus, o filho de Deus, pra ser perseguido e morto em prol da causa maior, em amor à humanidade. Sou só uma pessoa. 

E ainda assim me mata diariamente, de pouquinho em pouquinho, que os que se entendem como escolhidos são meus perseguidores, perseguidores dos que são iguais a mim. Me mata que meus similares tenham de se esconder junto comigo, temer pela própria vida, temer um leve e simples segurar de mãos com um igual. Não percebem a dor que propositalmente nos provocam - seus irmãos, seus iguais? 

Jesus teria a arrogância que sai da sua língua ao se colocar como superior a todos os outros pecadores imorais que são tão diferentes de você? Teria tamanha agressividade ao colocar o próprio filho na rua? Seu Jesus faria isso? Pare de tentar camuflar seu próprio coração apodrecido em fundamentos de um cristianismo que não te ensinou o que você perpetua. Pessoas tendenciosas te ensinaram isso. Jesus nunca ensinou intolerância - quem o matou, sim. 

e lhes disse: "Vocês sabem muito bem que é contra a nossa lei um judeu associar-se a um gentio ou mesmo visitá-lo. Mas Deus me mostrou que eu não deveria chamar impuro ou imundo a homem nenhum. (Atos 10:28)

Em junhos, eu não sangro só por mim. Sangro pelos meus iguais. Os perseguidos, os destituídos de receber amor da própria mãe, os incompreendidos, os que tiveram portas fechadas e sessões de exorcismo justificadas no amor alheio. Eu não dou mais duas fodas pra crente colhendo o que planta, a justiça não é minha a ser feita. Com o coração que eu lutei para manter, eu antes ainda conseguiria oferecer simpatia aos meus opressores. Hoje, depois de tanto e tudo, só consigo olhar com indiferença. Não é do meu perdão que você precisa.

Eu me posiciono com os meus. Com os que acordam diariamente colocando a cara à tapa, emocional e fisicamente, onde todo dia é uma batalha só pra manter-se vivo. Em junho, neste bem mais que nos outros, eu sinto o que vocês sentem, o que nós sentimos. Eu divido meu coração com vocês, e ofereço o meu afeto e consolo. Não é o divino - eu jamais conseguiria me assemelhar ao Divino -, não é o que é idolatrado pelas massas, mas é um verdadeiro afeto, um honesto consolo. 

Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. 

Mesmo que devessem saber. O nosso choro e nosso desespero deveria ser sinal suficiente. 

Às Igrejas e seus preletores, avisem que eu morri. Deixem acharem que eu morri. É melhor assim. 

Feliz junho, feliz mês do orgulho LGBTQI+, feliz, feliz, feliz... Sou feliz de amar como amo, sou feliz de ser amada de volta. Tenho orgulho da minha sobrevivência, da nossa resistência. Mesmo sem teto pra morar, sem afeto, sem fraternidade, sem compreensão, sem acolhimento, sem pele, sem vida. Mesmo que nos tirem tudo, mesmo que nos tirem a vida, como tiraram de tantos de nós justamente neste mês... mesmo assim, teremos vivido. De cabeça erguida, sempre. 

Ninguém mais deve ter o poder de nos dizer o que ser. 

Se o preço a ser pago por essa coragem às cegas, mesmo na fraqueza, for queimar no fogo... que assim seja. Estamos queimando no fogo dessas fogueiras mundanas há tempo o suficiente pra saber que se cairmos, caímos lutando. 

— Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês fecham a porta do Reino do Céu para os outros, mas vocês mesmos não entram, nem deixam que entrem os que estão querendo entrar. Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês atravessam os mares e viajam por todas as terras a fim de procurar converter uma pessoa para a sua religião. E, quando conseguem, tornam essa pessoa duas vezes mais merecedora do inferno do que vocês mesmos. (Mateus 23:13, 15)

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Esse texto é dedicado a todos que já foram oprimidos por discursos intolerantes e intolerantemente religiosos. Aos que sofreram e sofrem qualquer tipo de violência física, psicológica ou moral por serem quem são. Sinto por e com vocês. Obrigada por sentirem por mim de volta. Estamos juntos.

4 álbuns para ouvir e fingir que Daisy Jones & The Six é real

 

Esqueçam tweets virais e tiktoks sobre geração y e millennials, nós encontramos o Messias dessa divisão. Não importa se você nasceu em 1989 e parte o cabelo de lado, se nasceu em 1998 e não se encaixa em lugar nenhum, ou se nasceu em 2001 e não usa calça jeans - essas diferenças geracionais não importam mais, agora que achamos nosso elo em comum: o TJRU.

Taylor Jenkins Reid Universe. 

Quando li Daisy Jones & The Six pela primeira vez, o mundo não era um cenário apocalíptico ainda. Era a última semana de dezembro de 2019, num sítio isolado onde o único sinal com o mundo externo era por um telefone na parede da sala, minha única preocupação era deixar a massa de cuscuz no ponto certo pra comer no café da manhã na varanda, só pra logo depois colher mangas no parquinho, passar protetor solar, e ficar pra sempre na espreguiçadeira na beira da piscina, com toda uma floresta atrás de mim. 

Nessa época eu também estava apaixonada por alguém que eu achava não poder ter. Saí para o meu retiro espiritual certa de que aquilo seria bom, que eu não só precisava como merecia passar dias sem contato externo, sem ansiar a próxima mensagem que o objeto do meu amor não correspondido poderia me mandar. Toda manhã eu fazia meu cuscuz, colhia minhas mangas, colocava um biquini e saía pra piscina, procurando uma sombra em que eu pudesse sentar com o livro de minha escolha, e finalmente, depois de muito tempo, relaxar. 

Exceto que o livro que eu levei foi Daisy Jones & The Six. E a piscina era ótima, a floresta com trilha atrás de mim era ótima, a completa falta de barulho humano dando lugar ao barulho da natureza era ótimo - mas, ainda assim, eu era uma menina com um amor não correspondido que estava lendo Daisy Jones & The Six. 

Seguro dizer que ali, mesmo na beira da piscina usando um chapéu azul, eu estava em completo estresse por ser uma Daisy Jones perdidamente apaixonada por um Billy Dunne. 

Mas isso é história pra outro tipo de texto.

(sim, nós namoramos hoje).

Depois de alguns livros completamente normais, nada muito diferente do conteúdo de qualquer outro livro young adult de livraria de shopping, Taylor Jenkins Reid descobriu, numa revelação que só pode ter sido Divina, que seu nicho era um bem específico: escrever histórias sobre pessoas famosas que não existem. Tenho essa teoria de que os livros da Taylor que tratam sobre fama fizeram tão mais sucesso que seus romances básicos anteriores porque esses famosos parecem mais reais do que os anônimos dos livros de sessão da tarde. 

É improvável que você termine Evelyn Hugo sem pensar quem seria a Evelyn Hugo da vida real. É improvável que você termine Daisy Jones & The Six sem pesquisar se essa é uma banda que existiu de verdade. "Eu acabei de ler um memoir de uma banda real que eu nunca ouvi falar?"

Todo mundo quer saber quem é, quem foi, ou quem teria sido Evelyn Hugo, Daisy Jones, Mick e Nina Riva. Absolutamente ninguém vai ligar se Emma Blair é uma pessoa que existiu ou não, em quem ela é inspirada, quem ela poderia ser. Quem diabos é Emma Blair?*

Pra mim, essa é a magia do universo da Taylor Jenkins Reid, onde a menção de novas personalidades públicas em cada livro pode virar um nova história, um novo enredo, uma nova fama. E se você lê esse blog, é certo que você gosta de fofoca de Hollywood. Então não interessa se de cabelo de lado ou no meio, todo mundo tem Taylor Jenkins ao seu favor. 

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Minha paixão por bandas de rock vai beeeem mais atrás, em tardes na casa do meu pai, grandes caixas de som e pendrives no som do carro. Meu pai se denominava uma "enciclopédia do rock", nas palavras dele, e tudo do mais clássico ao mais underground eu ouvia. Tinha de ouvir. "Rock não foi feito pra se escutar em volume baixo", meu pai também dizia. 

Que Deus o tenha.

Ele não morreu, ele só parou de falar comigo.

Eu e meu pai sempre tivemos uma realidade e vivência conturbada - ele conseguia ser a parte mais normal e mais tóxica da minha vida, ao mesmo tempo. Ao sair dela, meu pai não me deixou muitas coisas. Mas uma herança cultural ele deixou. Não tenho pra quem ligar quando brigo com minha mãe ou quando furo o pneu do carro, mas ainda tenho histórias sobre discos do Raul Seixas, rankings dos melhores bateristas de rock da década rereretrasada, intrigas de colegas de banda e uma curadoria das melhores lojas da Galeria do Rock pra achar camisetas de heavy metal - inútil pra muitos, mas da qual me orgulho muito.

Ler Daisy Jones & The Six na beira da piscina, além de me trazer de volta os sentimentos que eu estava tentando evitar, também era como ter meu pai nos finais de tarde, me levando pra tomar sorvete na farmácia da esquina, só porque ele podia, só porque tínhamos a chance. Era retornar ao banco do passageiro e falar pra ele, orgulhosa, que eu tinha achado uma banda de rock boa o suficiente pra ter criado coragem de mencionar pra ele em primeiro lugar - justo ele, que passou 40 anos da vida fazendo uma curadoria das melhores. Se ele curtisse, se ele pedisse pra ouvir de novo ou perguntasse quem era - se ele se interessasse de alguma forma, eu teria ganhado meu dia. 

Esses são os álbuns que eu mostraria pro meu pai no carro, no caminho da escola pra casa, torcendo pra que ele gostasse tanto quanto eu. Se Daisy Jones & The Six fosse uma banda que de fato existisse, nós tocaríamos no carro assim:

01. Teatro d'ira: Vol. I - Måneskin


Sabe quando você esbarra em uma nova manifestação de arte, que antes você não conhecia, e pensa "isso foi feito pra mim"? Måneskin foi feito pra mim. É mágico ter match artístico, que te faz ser grato por estar vivo e ter a oportunidade de conhecer algo que fala à sua alma - algo que não acontece com muita frequência no capitalismo, onde ninguém fica feliz por estar vivo. Mas tem aqueles momentos, raros momentos, que você esbarra no trabalho artístico de alguém que preenche todos seus requisitos: Uma baixista gostosa? Tem. Um vocalista que poderia ter sua foto estampada na bandeira bissexual? Tem. Rock com muitos solos de guitarra? Tem. Músicas em italiano, pra facilitar que você finalmente aprenda a língua que mais admira? Tem também. 

É uma banda de rock italiana com um monte de gente gostosa, o que mais vocês querem de mim?

Teatro d'ira: Vol. I é o segundo álbum de estúdio da banda, e o mais recente. Totalizando apenas oito músicas, esse álbum foi escrito em sua totalidade pelos quatro integrantes, da primeira até a última nota, sem interrupção de compositores e letristas externos. É um trabalho que é pra ser deles, feito apenas por eles, contando sobre eles. E funciona. Meu Deus (Dios mio), como funciona. 

Se Måneskin fosse Daisy Jones & The Six, na verdade eles seriam só os The Six. Måneskin é definitivamente o que os irmãos Dunne achavam que eram quando começaram, quando só queria expressar a frustração de ser jovem na década do rock, e a eterna condenação de não se encaixar. Esse seria um álbum feito pelos The Six sem a presença de uma Daisy, sem a presença dos dramas e brigas e greves de gravação por não se suportarem. Quando tudo era arte e fraternidade, The Six teria feito esse álbum. 

Billy e Graham Dunne, ao se reconhecerem como futuros artistas, ao desejar a fama e a oportunidade de fazer música de garagem em garagem, provavelmente tinham o ar insolente e autoconfiante que Zitti E Buoni traz, com não só o sentimento de ser melhor que as mentes pequenas ao redor, mas o conhecimento de que isso é verdade. Coraline, que poderia muito bem chamar-se Camila, é uma música sobre essa personagem que sente tudo mais do que todo mundo, que é bondosa ao ponto de colocar suas necessidades atrás das que qualquer outra pessoa ("Coraline chora, Coraline tem ansiedade, Coraline quer o mar mas tem medo da água, e talvez o mar esteja dentro dela"). Essa música é um poema de amor de 5 minutos para Coraline, nossa Camila Dunne. É sobre reconhecer a pureza do seu amor, reconhecer que não é merecedor de tanta gentileza, mas oferecer o pouco que tens para dar ("Em troca não peço nada, só um sorriso, dada pequena lágrima sua é um oceano sobre meu rosto"). Coraline é definitivamente uma música que Billy Dunne, pré-fama, escreveria sobre Camila, o lugar onde ele achou o amor pela primeira vez.

Vent'anni, uma balada que vai crescendo conforme o desejo do narrador de se libertar das algemas dos vinte anos, demostra o maior medo de qualquer artista do rock: morrer e ser esquecido sem deixar nada significativo em terra. É uma homenagem ao quão deprimente os 20 anos podem ser, com a mistura de sentimentos diferentes vindo de todos os lados. É o sentimento pré-fama de qualquer artista que promete se manter verdadeiro ao lugar de onde veio, mas que mal pode esperar pra tudo mudar, e logo as lanchonetes de estrada dão lugar aos restaurantes que servem cocaína na bandeja. 

Teatro d'ira se traduz livremente para Teatro da Ira. Não acho que os The Six tinham essa ira enraizada ao se unirem - mas sei que cada um tinha a sua, individualmente. É a sina de qualquer juventude, de qualquer geração. Não é a ira dos affairs entre integrantes de banda, ou do Eddie querendo socar a cara do Billy no chão. Essa é a ira de qualquer jovem no século da depressão, onde sua raiva é só por estar vivo, por ser obrigado ao ser uma existência pensante. 

(Eu mencionei que todos os integrantes dessa banda são Geração Z? Isso é uma epidemia).

Para ouvir também: Lividi Sui Gomiti, I Wanna Be Your Slave, La Paura Del Buio

02. The Civil Wars - The Civil Wars


Quem é Daisy Jones e Billy Dunne na vida real? São eles. 

Os motivos pra isso dão conteúdo pra uma dissertação sozinha, e é tanta coisa e tantos detalhes que eu tive que ir atrás de fontes diretas** que soubessem me contar a história melhor do que qualquer pesquisa superficial no Google.

O que eu entendi lendo por cima e recebendo fofocas desses dois, é que ninguém sabe exatamente o que deu errado. O que te leva a abruptamente romper projeto e qualquer tipo de relacionamento com seu parceiro musical? O que acontecia nos bastidores, nos ensaios das harmonias de vozes de ambos, que casavam tão bem? Qual era de fato a inspiração nas composições que ambos compartilhavam? Como eram tão musicalmente íntimos e despidos, tão parte do próprio mundo, sendo casados com outras pessoas? 

Se Daisy Jones & The Six tivesse tido tempo o suficiente para ter mais de um álbum, algum dos não lançados seria qualquer um dos álbuns de The Civil Wars. Pedi que algumas amigas mestres no assunto me indicassem um, um que representasse um álbum não lançado de DJ&TS, perdido em fitas demos. A resposta foi a mesma: The Civil Wars, homônimo da banda. 

Conta a história que o álbum terminou de ser gravado em meados de 2013, e a esta altura a dupla já nem conseguia se olhar diretamente, como mostram filmagens tremidas de shows na época. Já tinham todas as bandeiras vermelhas levantadas: falta de contato visual, esquecimento proposital de agradecimentos em palco, a escolha por ignorar que ambos trabalhavam juntos. Antes mesmo desse álbum ver a luz do mundo, Joy e John Paul tiveram uma turnê interrompida, devido a "brigas internas e diferenças irreconciliáveis". Lembra alguém? 

Mesmo depois de largar uma turnê pela metade, o duo voltou com o álbum The Civil Wars, em um compilado de músicas que em sua grande maioria falam de devoção humana em contradição à devoção divina, relacionamentos fadados ao fracasso, traição e pessoas que vão embora levando consigo seus sentimentos. É de se pensar...

Meu primeiro contato com The Civil Wars, o duo, foi quando descobri a música Poison & Wine, tantos anos atrás, do primeiro álbum deles, o Barton Hollow. Essa música sempre foi minha música referência ao imaginar como soaria Honeycomb, o primeiro e famoso dueto de Daisy e Billy no livro. Se Honeycomb fosse uma música real - e vai ser, em breve, mas se fosse uma música que já existe -, seria Poison & Wine. O álbum The Civil Wars seria algo posterior, algo pelo final, algo que representa o conhecimento de sentimentos de ambas as partes, um sentimento que nem deveria existir, e que envolve mais de duas pessoas. 

A música que abre o álbum The One That Got Away, significativo logo no título, e o primeiro verso cantada é "I never meant to get us in this deep / I never meant for this to mean a thing". Se eu tivesse uma dupla em que canto músicas de amor com meu companheiro platônico, eu simplesmente escolheria não abrir um álbum com essas palavras, não depois de largar uma turnê por tensão mútua. É curioso que durante toda a extensão do álbum seja possível achar pistas de infidelidade, e cabe a você decidir se isso vem do eu-lírico ou do próprio compositor da música. Em Eavesdrop eles me entregaram minha letra favorita do álbum inteiro quando cantaram "let’s let the stars watch, let them stare / let the wind eavesdrop, I don’t care", o que te faz questionar o que exatamente os narradores tem de esconder.

The Civil Wars (o duo) por si só é uma experiência completamente Daisy Jones & The Six das ideias - mesmo que as músicas não se relacionassem à história, mesmo que as teorias não fossem semelhantes. Assim assim ficaria a pergunta: o que diabos aconteceu?

É a síndrome da Aurora de novo e de novo e de novo. 

Para ouvir também: I Had Me a Girl, Same Old Same Old, Oh Henry

03. Plastic Hearts - Miley Cyrus

Se Måneskin é os The Six sem a Daisy Jones, Miley Cyrus em Plastic Hearts seria a Daisy Jones sem os The Six. 

Se Demi Lovato teve suas 24 personalidades destrinchadas nos últimos dois posts, Miley Cyrus possivelmente teve o dobro. Mas sabe aquela sua persona que, por mais que seja falsa, é a mais legal de todas? A da Miley é essa. 

Tem uma certa nostalgia nessa nova onda do ressurgimento de mais músicas rock e punk voltando à indústria, seja lembrando-se do gosto musical dos senhores nossos pais ou só mesmo recordando de icônicas trilhas sonoras de filmes adolescentes dos anos 2000. Não importa quem somos hoje, todos nós já compartilhamos um sonho: fazer parte de uma banda de garagem, uma tão boa quanto a banda da Lindsay Lohan em Sexta-Feira Muito Louca. Tem algo que grita em celebração à nossa primeira juventude, à nossa rebeldia de adolescência, quando ninguém nos compreendia e tudo estava começando a mudar, mas solos de guitarra ainda podiam nos abraçar. 

Pra todos que tiveram seus lápis de olho e franjas lambidas pro lado, esse é um álbum pra você. 

Daisy Jones não precisava ser adolescente pra ser a maior das rebeldes, a menos incompreendida da turma. Acredito muito que Plastic Hearts poderia ser uma obra dela, só dela, em que ela usaria suas composições autorais pra propagar que prefere sua liberdade à prisão de uma banda (um amor) que nem sequer queria sua presença (I was born to run, I don't belong to anyone, I don't need to be loved by you em Midnight Sky), pra falar mal do Billy Dunne nas entrelinhas e ao mesmo tempo confessar seu amor na faixa seguinte. Sozinha, Daisy teria sido uma honestidade bruta e agressiva, assim como Miley foi nesse disco - mas sem nunca perder sua vulnerabilidade, que, mesmo escondida por trás de várias camadas de desilusão, ainda continua lá, intocável (High e Never Be Me, que falam sobre nada ser o suficiente, e sobre você mesma não ser suficiente pra ninguém).

WTF Do I Know, a faixa que abre o álbum, seria perfeita pra uma Daisy recém afastada dos The Six, sem remorsos, sem explicações pra dar, continuamente sustentando o discurso de que ela não precisa deles - não pode ser de fato o que ela acredita, mas sim pra irritar os que ficaram. A vingança favorita de um incompreendido é aparentar ter saído superior àqueles que não te levantaram, e eu acredito que um rompimento da Daisy (sem a carga emocional de seu envolvimento com Billy), poderia ter se dado assim. Mas como a história é outra, como temos nosso romance proibido de bastidores entre integrantes da mesma banda, a que melhor cabe na nossa narrativa mesmo é Angels Like You. 

Angels Like You é uma daquelas músicas que se encaixa com muitas coisas, diferentes coisas. Mas é definitivamente uma música que Daisy Jones escreveria sozinha, gravaria sozinha, só pra ter o Billy a acompanhando na guitarra no final. Mesmo que ele soubesse que grande parte do que está sendo cantado em sua frente é sobre ele mesmo. 

É um álbum sobre exaltar a si mesmo, sobre pontuar o quão superior e mais legal que todo mundo você pode ser - só pra depois quebrar essa expectativa confessando que você nunca vai ser a certa pra alguém, por estar constantemente se destruindo, por não querer mudar por ninguém. Nada mais rock 'n' roll do que pontuar seus defeitos e agarrar-se a eles, por não saber quem é de verdade debaixo de toda a persona rebelde que construiu depois de muitos traumas. Nada mais rock 'n' roll do que celebrar a liberdade com uma discografia quase que inteira compartilhando que sente-se preso em si mesmo. 

Daisy Jones é complexa o suficiente pra entender exatamente o que isso quer dizer.

Para ouvir também: Gimme What I Want, Hate Me, Golden G String

 04. Rumours - Fleetwood Mac


Vocês sabiam que esse tava vindo. 

Esse álbum é uma montanha-russa emocional de fofocas e intrigas - e o melhor é que não eram fofocas e intrigas externas. Era entre eles. Eles falando sobre eles, eles brigando via música, eles se obrigando a cantar e performar tais músicas. Que outro álbum te dá a oportunidade de experimentar uma música sobre amar seu atual namorado (You Make Loving Fun), o diretor de iluminação da banda, e ter seu ex marido não apenas sabendo disso, mas também tocando baixo na mesma banda? É bom demais.

Christine McVie e John McVie não eram os únicos que estavam separados e escrevendo sobre no mesmo ambiente de trabalho. Um só casal em conflito não era o suficiente. Entra Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, sempre correndo juntos no precipício do amor e ódio, sempre em discordâncias, mas bons demais no que faziam pra saber que, pelo menos musicalmente, se completavam. Até contando a mesma história duas vezes, cada um em seu ponto de vista, nos ofereceu músicas individualmente muito boas: sobre a separação, Stevie fez Dreams, que já começa com a memorável abertura "Here you go again, you say you want your freedom / It's only right that you should play the way you feel it / But listen carefully to the sound of your loneliness", endereçado à Lindsey; Lindsey, por sua vez, a responde em Go Your Own Way com "how can I ever change things that I feel? / You can go your own way / You can call it another lonely day". 

Foi só em The Chain que todos os integrantes da banda colaboraram juntos, a única do disco em que eles cederam a fazer isso. A responsável por isso é a própria música: é sobre eles. É sobre eles já se odiarem em níveis inimagináveis, mas sobre não querer romper o vínculo, essa corrente que os unia segurando a única coisa que ainda tinham em comum: seu amor pela música que faziam. Tá tudo na própria música. Eles estavam ali, apesar do ambiente, por causa dessa corrente invisível que ainda os unia. If you don't love me now... definitivamente nunca mais amará.  

Os bastidores do processo da gravação do Rumours era caótico, problemático, doloroso e agressivo - eles não se suportavam mais, e ainda assim tinham de produzir dentro de um cubículo por dias e dias. Os sentimentos rompidos e a pressão de fazer-se vulnerável justamente na frente de quem te machucou foi algo que futuramente a Christine McVie caracterizaria como um "processo traumático". Stevie Nicks chegou a falar, também, que aquilo que eles estavam vivendo, naquele ambiente, não era normal: muita cocaína, muito dinheiro, e muita, muita angústia. Não precisa ser um grande entendedor de rock pra saber que essa é a fórmula mais antiga e mais bem sucedida de sucesso musical dos anos 70. Eles estavam no pior momento entre si, e é claro que isso resultou em um dos álbuns mais icônicos da história musical. 

Obviamente, o Rumours é nosso Aurora. 

Me limito a dizer só isso, sem apontar quem seria quem, que música seria o que. Se tem um resultado musical capaz de separar uma banda, esse seria o Rumours, como foi com o Aurora pra Daisy Jones & The Six. 

A essa altura eles já devem ter aprendido que quanto mais controverso e problemático, mais obcecados ficaremos. 

Isso é rock 'n' roll, baby. 

Para ouvir também: Never Going Back Again, Don't Stop, Songbird

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* Emma Blair é uma personagem da Taylor Jenkins Reid, do livro "Amor(es) Verdadeiro(s)", não tão memorável quanto suas irmãs;

** Mari e Babi, obrigada por contribuírem com seus conhecimentos de The Civil Wars!

Ninguém quer ouvir a sua voz (e outras reflexões)


Durante algum momento da mudança de comportamento social juvenil, a consolidação do entendimento da geração Millennials como um estilo de vida e o fim de Gossip Girl, uma verdade foi compreendida e propagada pela humanidade: você tem uma voz, e deveria usá-la. Musicais inteiros foram escritos, séries de tv foram planejadas, contas de Instagram comparecem em todos os extremos, Youtube virou uma carreira consolidada, e opinar - na Internet ou na vida real - nunca foi tão, tão fácil. "É a minha voz!", você deve ter pensado alguma vez, "e eu tenho algo a falar". 

O script de A Star is Born (roteiro de Bradley Cooper & co), disponível online, é surpreendentemente um compilado perfeito de metáforas e reflexões sobre usar sua própria voz. Em minha rápida e leiga análise, conscientemente ou não, o filme inteiro acaba sendo sobre a incessante busca de falar e ser ouvido. Em uma das minhas falas favoritas, por exemplo, Jack diz a Ally que talento tem em toda esquina, que provavelmente todo mundo que você conhece é talentoso em alguma coisa - mas que ter algo a dizer e ter pessoas te ouvindo era algo bem diferente. Posteriormente, ao ser abordada por um produtor musical, Ally também o escuta dizer que "há pessoas que precisam ouvir o que você tem a dizer musicalmente" - que é um orgasmo pra qualquer artista.

Não somente, quando Ally tem seu debut no mundo pop - agora escondendo-se atrás de uma persona robotizada pela indústria que já engoliu sua voz original -, Jack volta ao centro de todos os seus discursos durante o filme ao dizer que "tudo o que você tem é você mesma, e eles te escutam agora, mas não vão escutar pra sempre".  

"Então diga o que você tem a dizer... porque a forma como você diz é coisa de anjo". 

Romance. <3

Cresci e me criei romantizando a ideia de entregar pro mundo o que eu sentia e acreditava - porque era importante que eu fosse ouvida. Na vida adulta, reforçar essa ideia era inevitável, uma vez que fui uma criança silenciosa, amedrontada com a simples menção de ser obrigada a falar meu nome em público. Quando crescendo, as pessoas nunca me ouviram - mas eu tinha algo a falar. E ao adentrar na juventude eu só... descubro que posso? Com mídias e músicas e solos do Ben Platt não somente me validando como me incentivando a falar tudo que eu quisesse? A distribuir todos os meus pensamentos? Parecia mágico.

Mas todo mundo tem algo a falar. Todo mundo. Aprendi isso depois de anos me sentindo especial, achando que só eu tinha monólogos internos bons o suficiente pra entregar ao mundo, que só o meu ponto de vista era iluminado. Só foi depois de muitos embates via stories do Instagram sobre política e amizades vítimas de opinião disfarçada de "eu sei mais do que você" que eu percebi que - É. 

Ninguém quer, na verdade, ouvir a sua voz. 

Depois de anos e anos me criando na Internet, concluí que o que todo mundo quer, na verdade, é um amaciante de ego. Sabe lavar a roupa e ficar com cheirinho de lavanda? Esse tipo de amaciante. Se a sua voz está de acordo com o que eu acredito, com uma opinião minha que já está formada, então eu escuto, pois vale à pena. De todos os textos que já escrevi, de todas as colocações que já fiz, nas diversas vezes que me responderam em agradecimento às minhas palavras... não era exatamente um agradecimento pela minha voz. Era um agradecimento por minha voz ser exatamente o que você queria ler. Ou o que você estava pensando e não soube como dizer. "Minha voz", essa voz que me coloca gritando por tantos lugares, não estaria sendo apreciada e louvada se não fosse só... um compilado de opiniões que já eram suas.

Dias atrás fiz um formulário com questionamentos sobre política, com perguntas básicas sobre entendimentos pessoais sobre interpretação de direita e esquerda, o que entendiam por fascismo e comunismo, se o PT tinha sido um partido de extrema esquerda. Vocês sabem, esse tipo de coisa que a gente já sabe a resposta. O intuito era analisar os resultados e escrever sobre como o falatório político (aqui, claro, tendenciosamente me referindo à extrema direita) usa de termos e ideias que o orador sequer sabe o que significa. Eu não pude, no entanto, publicar essa enquete no Twitter. Porque a resposta seria a mesma. Uma pesquisa em que 100% do resultado são pessoas entre 16-29 anos com tendências pendendo pro lado esquerdo e concordando que o governo atual flerta com o fascismo - o que é verdade, é um fato, mas concordância total de dados? Numa pesquisa? Não seria uma pesquisa, seria uma conversa de bar com meu círculo de amigos.

Será que a gente viveu o suficiente na Internet não pra virar herói, mas pra virar... exatamente o que Eles dizem que nós somos? Eles - uma corporação de homens dos anos 80, mãe e tias fofoqueiras -, que nos repreenderam nos almoços em família com "lá vem a doutrinada", que prometeram que todo e qualquer discurso jovem fundamentado em posts de Internet era "genérico"... Vivemos por aqui o suficiente pra dar razão à Eles?

Nossa série favorita do momento, The Bold Type, é tão explicitamente criada e pautada em dar voz a todas as questões sociais e midiáticas possíveis de caber num espaço de tempo de 40 minutos que, por vezes, dei uma encolhida quando me serviram o tabu bem quebrado. Me pergunto quando nós passamos dos adolescentes com a necessidade de gritar sobre feminismo e suas subdivisões pro nosso desconforto físico ao esbarrar com algo que é woke demais para 2021. A problematização da problematização, não é assim? 

Internet, a gente entrou num paradoxo. 

Nosso buraco de minhoca nos levou de um extremo a outro. O que antes era um distanciamento necessário e orgulhosamente bem feito dos preceitos e entendimentos dos nossos pais, hoje é só... exatamente o mesmo, só que no mundo invertido.

Descobri então que a filosofia tem um rolê pra explicar isso - porque é claro que tem, filósofos sendo filósofos. Aconteceu de Hegel um dia espalhar por aí algo conhecido como "Teoria da Dialética", dialética essa que era a raiz pela qual nós tínhamos a capacidade de produzir conhecimento. Aconteceria assim: primeiro você tem uma tese (uma idéia, um pensamento). Depois, você desenvolve uma antítese, que é um pensamento contrário à sua tese original. No fim, acontece a síntese: pegue um pouco dos dois mundos, filtra a tese, filtra a antítese, forme sua própria opinião e seja feliz. 

A gente ainda filtra, será? 

Sei que tem um compartimento obscuro da comunidade online que ficou preso na antítese sem chegar em conclusão alguma. Sei também de muita gente da vida real que sequer passou da tese. 

Deve ter outro raciocínio filosófico de algum alemão por aí que diga exatamente isso, muito embora eu fique devendo essa pesquisa, mas não é o estancamento da humanidade quando a gente só para de formar novas sínteses? Um processo de análise que é feito só uma vez e nunca mais revisto ou reavaliado só sugere que nossa tendência é emperrar no espaço tempo da humanidade, que nunca para de andar e andar e andar e oferecer novas ideias e novas conclusões e novos entendimentos e novos desenvolvimentos, pra sempre e sempre e sempre - como deve ser qualquer linha temporal.

Foi um susto perceber que a minha voz, essa que eu tanto me orgulhava ao dizer que tinha, era só um amontoado de outras vozes, que eu li por ali, ouvi daqui, acreditei como sendo certo e fatídico por vir de pessoas que corroboravam para um pensamento que estava em mim, mas que também veio de outros lugares, e assim vai. A essa altura, eu nem faço ideia do que o lado oposto ao lado das minhas ideias prega por aí - porque eu nunca vejo. Esse conteúdo não chega até mim.

Já que estamos aqui discutindo sobre Internet e afins, um fato engraçado é que esses posts não chegam até mim ou até você porque, num trabalho minucioso de sistema e controle humano, esses algoritmos não foram selecionados pra você. Vocês nunca se perguntaram COMO as pessoas ao seu redor não viam as mesmas notícias e as mesmas críticas ao Bolsonaro que você via? Literalmente por isso: porque elas não veem. Não é um conteúdo que chega até alguém que tem o algoritmo milimetricamente calculado pra mostrar foto de arma e vídeo de pastor pregando. Percebe? A gente empacou na rede das teses.

E, de novo, o negócio da voz: como eu posso esperar que meus gritos de indignação contra o governo sejam compreendidos por seguidores alienados, se são seguidores! alienados!? O que eu espero que aconteça ao publicar um story atrevido escrevendo meus sentimentos sobre a administração da prefeitura? Que eleitores do prefeito cheguem até mim e respondam "é verdade mesmo, o que você disse faz sentido, mudei de opinião"? Quando que isso aconteceu, tipo, na história? O que vai acontecer quando eu publicar um texto chamando eleitores do Bolsonaro de burros genocidas? Essa minha voz que sente tremores de raiva e vontade de cuspir fogo pelos dedos ao escrever sobre política, vai chegar até quem? 

Vai chegar só até aqueles que pensam igual a mim. 

E sendo assim, a gente tá conversando, de fato? Na nossa pesquisa social, com nossos resultados 100% em igualdade, a conclusão é qual?

Mesmo assim, acho ótimo jovens com didática o suficiente pra destrinchar pautas sociais num auditório. Acho genial produtores de conteúdo, escritores, [insira aqui qualquer cargo na internet] que tiram do seu tempo pra compartilhar seus entendimentos (suas sínteses!), a fim de que novas pessoas formem suas próprias sínteses. Mas fico me perguntando se sou uma delas. Do que adianta gritar, gritar, e gritar - se meu auditório está vazio? 

E um conflito desses não tem como solucionar - não cabe a mim, não está em meu poder. Não posso cobrar que todo mundo entenda e exerça minhas sínteses se nem todo mundo passou por minhas teses e antíteses. Sabe? É aquilo de sempre: não dá pra esperar que todo mundo esteja pronto pra algo que só você está pronto. E é ótimo sentir que, sim, existem pessoas prontas junto comigo, e no nosso vórtex temporal estamos todos no mesmo tempo e timbre - mas a gente sempre quer um coral inteiro, né?

Se nada do que eu falei faz sentido, a culpa é do Hegel. 

E ainda assim cá estou eu, escrevendo tudo isso num blog pra vocês lerem. 

Desconsiderem tudo que eu falei, então.

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Para Vogue, Selena Gomez dia desses que declarou que cantar ao vivo é difícil, mas que ela absolutamente vai aceitar qualquer oportunidade que a coloque em cima de um palco se isso resulta na propagação do que ela tem a falar. "Não me importo em como minha voz vai soar, só em passar minha mensagem", em tradução livre. Tal declaração me soou curiosa por diversas motivos, de "se você é cantora e seu trabalho está sendo cantar, COMO você não liga para como sua voz irá soar? É tão fácil pra alguns..." até "uau, jovens são intensos, mas jovens artistas...". 

Esse texto não tem uma conclusão. Mas eu vou mesmo pegar uma observação sobre extensão vocal e aplicar como uma reflexão pessoal e interna?

Você sabe que sim. 

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(A Star Is Born, 2018)