As 24 personalidades de Demi Lovato, parte II


PARTE UM

Assim como seu segundo álbum, here we go again. 

Então foi isso que você perdeu em Glee: 

Demi Lovato começou na máquina Disney Channel aos 15 anos, moldada pra ser exatamente o produto que uma continuação dos Jonas Brothers deveria ser. Vulnerável e com demônios próprios, Demi cansa de ser a sombra de seus colegas e rompe com sua versão boa garota do pop rock - mas termina na reabilitação após seus problemas virem a público depois de socar uma garota na cara. :o Demi volta pra indústria na sua versão mais plastificada até então, com todos os antigos hábitos ruins ainda por perto, mas escondidos. Com sua nova grande notoriedade na mídia, Demi passa a trabalhar seu lado profissional: jurada do The X Factor com Britney Spears, músicas pop nas mais tocadas das rádios, voltando a trabalhar pra Disney ao gravar Let It Go de Frozen e até fazendo uma ponta em Glee como Dani, namorada de Santana e guitarrista da banda de Kurt. Demi descobre, depois de tanto mudar sua estética pessoal, que não somente se cansa rápido de estabilidade - mas também tem a capacidade de cansar de mudanças. 

E foi isso que você perdeu em Glee!

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Onde estávamos? Ah, sim.

Desbloqueando mais uma fase, Demi entendeu que podia se cansar de qualquer coisa, inclusive das suas mudanças. Foi assim que ela deu início à sua fase mais constante e equilibrada:

Fase Seis: Gênesis e a Verdadeira Estabilidade
Causas: Wilmer Valderrama, sobriedade, reconciliação com os Jonas


Eu não falei pra vocês das falsas sensações de estabilidade? 

Essa não é uma delas. 

Quando você é obrigado a pensar em Demi (pré-2020), em qual Demi você pensa? É muito possível que seja nessa. Em algum lugar do seu cérebro encontra-se uma imagem de uma Demi de cabelo preto curtinho, provavelmente cantando Cool For The Summer (quantas vezes uma pessoa pode sair do armário?) ou Stone Cold. O álbum Confident foi até indicado ao Grammy de 2017, algo que ninguém tava esperando. 

Não tem nada de peculiar nessa personalidade, exceto o que eu vou te dizer agora: 

Essa foi a Demi mais autêntica de todas. 

Obviamente isto é uma opinião, eu não conheço nenhuma dessas Demis intimamente, muito embora tenha acompanhado todas bem de perto. Mas essa aqui... tem algo diferente nessa. Era confortável acompanhar essa, porque ela própria parecia estar confortável na própria pele. Muito embora tivesse sido uma advogada de auto aceitação desde que meteu o pé pra fora da rehab, Demi nunca pareceu verdadeira o suficiente sobre gostar de si mesma... até esta versão. Parecia um amadurecimento natural (agora sim) de todas suas inconstâncias: sua música, muito embora ainda pop de rádio, soava mais madura; sua equipe, agora mais rígida e após dar-lhe um ultimato, a mantinha sob vigilância quanto aos problemas com drogas e transtorno alimentar; sua imagem tava boa, sua atmosfera tava boa. Essa era uma Demi que celebrava aniversários de sobriedade, uma Demi que tinha orgulho de sua história mas não se limitava a ela. 

Uma Demi que até reatou com os irmãos Nick e Joe - saiu em turnê com Nick Jonas, abriram uma gravadora juntos, e ainda recebia Joe Jonas no palco pra cantarem This Is Me. E não somente! A amizade com Selena Gomez (sua amiga desde a infância) até deu um rápido retorno do mundo dos mortos

Uma Demi que parecia de verdade - um "de volta aos clássicos", o seu gênesis pessoal.

E talvez fosse, sim. Demi parecia feliz e satisfeita com seu retorno ao que conhecia, seu relacionamento (agora público e sempre exaltado por ela) com Wilmer, em ser uma defensora de tratamentos psicológicos e de fato estar trabalhando nos seus. Aqui eu abro um parênteses pro trabalho incontestável de Demi em apoiar, financiar e propagar causas e programas de ajuda e acompanhamento psicológico. Essa era uma Demi que levava profissionais pra discursar sobre transtorno alimentar pros fãs que iam aos shows, uma Demi que andava 24/7 com um "sober coach", um especialista em sobriedade responsável por ser seu braço direito para que ela não tivesse recaídas. Era visível o trabalho que ela estava disposta, à época, a realizar por si mesma - e não só isso, por várias outras pessoas ao redor que também necessitavam. 

Acompanhar Demi de perto te faz concluir uma coisa muito rapidamente: elu é péssime sozinhe. De, tipo, não funcionar mesmo. Nessa época, seu porto seguro era uma equipe de, em sua grande maioria, homens: o sober coach, seu empresário (que também era empresário dos Jonas...), seu melhor amigo, Nick (que andava sempre com ela, não só pra ganhar dinheiro nas turnês) e, é claro, seu namorado da época, Wilmer Valderrama. 

        SUBTÓPICO DA FASE 6: 

              DEMI & WILMER


Pra começar a falar de Dilmer, vocês tem que entender logo uma coisa: Demi era OBCECADA por esse homem. Completamente fascinada. Apaixonada até o dedinho do pé. Coloquem isso na cabeça. Dentre tantos problemas de Demi, fingir ou ser falsa em relação aos seus sentimentos nunca foi um. Era visível, palpável, dava até pra pegar e sentir materialmente o afeto e o amor que ela sentia por Wilmer - tava no olhar, no modo como ela falava dele e escrevia pra ele, no modo como ela o defendia de tudo.

Sabendo também que Demi sempre foi uma pessoa emocionalmente carente, que precisa de alguém por perto que se importe com elu, não se assustem ao notar que, sim, o maior fator de colaboração pra seu momento mais estável e mais calmo foi, de fato, Wilmer. 

Demi conheceu Wilmer aos 17 (dezessete!) anos - ele tinha 29. Eles começaram a ter algo quando ela fez 18 (isso é o que Demi conta - eu que não duvido que Wilmer tenha ficado com a menina adolescente mesmo). Mas foi só nessa era, nessa personalidade estável, que Demi e Wilmer se consolidaram, e passaram de um rumor, de algo que acontecia esporadicamente, pra um casal de fato. 

Eu disse que Demi era péssima sozinha - e ainda é. Não por nada sua fase de maior estabilidade, a fase em que Demi mais aparentou estar bem, era uma fase em que ela tinha um relacionamento pra se apoiar. Demi não consegue fazer nada sozinhe, nunca conseguiu - porque elu não foi criade, nessa indústria, pra pensar por si. A solução, na época, foi usar de seu relacionamento com Wilmer como base de tudo: base do seu bem estar, base do seu tratamento, base da sua estabilidade. 


Wilmer já havia sido uma pessoa problemática, também (deem uma olhada na época que ele namorou com a Lindsay Lohan). É quase como se ele entendesse. Não dá pra negar que o esforço dele de se manter presente na vida de Demi, apesar de todos seus demônios, foi o que transformou o relacionamento deles, pra ela, em uma necessidade. Foi alguém que não saiu do seu lado em nenhuma das fases anteriores, nem mesmo nas piores delas. Era inevitável, pra alguém carente de atenção como Demi, que Wilmer fosse exercer esse papel de seu Salvador.

“People told him, ‘You should probably leave. She’s on a spiral, and you’re going to be sucked down with it.’ But he was like, ‘I’m not leaving. This is somebody I really care about,'” Lovato told Cosmopolitan in 2015 after opening up about her struggles to get sober and her stays in rehab.
É claro que tudo iria desmoronar, e todo o trabalho iria por água abaixo, quando Wilmer saísse de sua vida...

Porque esse é o problema de sustentar o seu próprio eu em outro alguém. Você não sabe como seguir quando esse alguém vai embora. 

Fase Sete: O Amadurecimento? 
Causas: o término e as recaídas 

 
(Olha essas imagens. Do you think a depressed person could look like THIS?)

Demi Fase Sete é uma Demi da era Tell Me You Love Me, marcada pelo término com o Wilmer e seu novo álbum, o mais maduro até então - que serviu alguns bops como a faixa título (que no clipe ela casa com o doido de Grey's Anatomy), Sorry Not Sorry e Cry Baby, minha favorita de todas as músicas mais recentes. Cry Baby é uma faixa que foi escolhida a dedo pra estar ali, como um ode à sua Fase 1. É imprescindível que fãs de Don't Forget e Here We Go Again escutem essa (é sério!!! abre esse spotify, Demi tem que pagar a internet).

Esteticamente, Demi - como dizem os jovens? -, serviu nessa fase. Foi seu maior ato fashion, seu maior ato musical adulto, parecia brilhar a cada aparição pública, a personificação do seu sol de Leão.

Pena que isso não significava nada, porque era tudo mentira.

Com o término (que foi mútuo? por algum motivo?), Demi, que ainda era claramente apaixonada por Wilmer, pareceu querer estar no seu melhor, pra que de alguma forma ele ressentisse sua perda. Isso é tão real que no documentário Simply Complicated (2018), tem toda uma cena montada pra mostrar o reencontro Demi e Wilmer pós término, e são fitas e fitas de narração da própria Demi dizendo que sempre vai amá-lo, que sempre será apaixonada por ele...


... só pra logo em seguida encaixar a cena em que afirma estar tendo o momento de sua vida saindo com todos os homens que esbarram em seu caminho, e feliz demais com isso. 

?

[Lista de pessoas com quem Demi namorou/pegou após ficar solteira: 
Neymar;
- um outro brasileiro lutador de MMA;
- Lauren (seu primeiro relacionamento sáfico publicamente, mais conhecidas como MINHAS MAMÃES);
- esse homem aqui, seja lá quem for, mas que tinha 2km de altura;
- possivelmente essa dançarina dela;
- mais uns 94 que não foram a público.]

Nessa época, quem se movesse perto, Demi tava pegando. Talvez pra tentar mostrar pra Wilmer o quão bem ela estava mesmo sem ele, talvez porque ela mesma não soubesse como estar sem ninguém, talvez pra não pensar muito sobre o fato de que ela estava sozinha, ou pra não se sentir sozinha. Mesmo assim, o fantasma de Wilmer sempre estava por perto: Demi ainda estava próxima de Joe e Nick (amigos próximos de Wilmer), e os dois seguiam amigos, com o mesmo círculo de convívio, mantendo contato. 

Em Simply Complicated, Demi menciona suas recaídas com seu transtorno alimentar - e atribui a culpa ao seu término com Wilmer, em sua impossibilidade de lidar com perdas e dor. No mesmo documentário, Demi narra o refúgio que achou em academia e esportes (como vocês acham que ela conseguiu namorar tanto lutador de MMA?), o refúgio que ela achou em ficar com qualquer e toda pessoa, o refúgio que ela achou em voltar a ir em festas... em voltar a beber... em voltar a usar drogas... Não, ela não narrou todos esses refúgios, mas foi o que aconteceu. E notem o padrão: a academia, a dieta e os esportes em excesso, eram só seu vício e mania atribuídos a outra coisa. Quando isso não foi o suficiente, veio o sexo. E como isso também não preencheu nada, Demi trouxe de volta as festas e as bebidas. E, consequentemente, as drogas. 

Tentando preencher algo que Demi sentiu ter perdido, sua recaída, que culminou na overdose que sofreu em 2018, foi o resultado de alguém que saiu do seu melhor pro seu pior pelo simples fato de não ter mais companhia, de não mais se sentir amada por alguém que acompanhou e compreendia todas suas nuances. Ao tentar mostrar ao público e ao próprio Wilmer que estava bem, bem demais, Demi esqueceu que ela era uma pessoa delicada, com um histórico delicado, com demônios muito pesados e uma doença traiçoeira. 

Demi quase morreu por sua necessidade de se encontrar de novo. Sozinha.

Fase Oito: O Renascimento e o Decair
Causas: um noivo psicopata


Em 2020, antes do mundo virar o que virou, uma Demi recuperada dava o ar da graça. Cantava no Grammy, em sua primeira apresentação depois da overdose, e era ovacionada pelo público. Cantava o hino nacional americano no Super Bowl. Parecia o renascer, mais que merecido, pra uma sobrevivente. 

Mas deixa eu te levar pra um pouco antes. 

Em 2019, Demi saiu do hospital alegando abandonar de vez seus antigos hábitos, uma vez que estes tinham acabado de quase matá-la. Era um milagre que ela estivesse viva. Demi sabia disso, e internalizou isso, e se recuperou decidida a viver uma vida que fizesse jus ao milagre que ela havia recebido. 

Foi instantâneo? Não. Em um primeiro momento, Demi parecia dar continuidade às tendências que iniciou na fase anterior: sempre vista com um namorado diferente. Sua incapacidade de se manter sozinha, mesmo depois de TUDO, continuava levando-a a se relacionar com qualquer cara meia boca que quisesse fazer parte da vida dela, como esse ou esse - um mais feio que o outro, se me permite. Mas eram distrações pra ela, distrações pra uma mente que, tão fragilizada, não aguentaria estar sozinha de novo ao voltar pra casa. 

Nada demorou muito tempo, e Demi fez o que qualquer outra pessoa em situação traumática e ex usuário de drogas faria: 

Virou crente. 

É sério. 

Demi foi preencher seu vazio espiritual na Igreja - a mesma Igreja de Justin Bieber e sua esposa Hailey Bieber. Sem surpreender ninguém, após virarem amigos de escola dominical, surgiram boatos de que Demi estaria em negociações pra assinar com quem? Scooter Braun, o maior inimigo de Taylor Swift e empresário de Justin Bieber. Isso tudo, é claro, foi previsão de Deus: Demi de fato assinou com Scooter, fazendo parte da sua equipe agora. 

Entra em cena a fofoca que eu sei que vocês querem saber: 

Max Ehrich. Se você me perguntar quem é Max, eu vou ficar te devendo a resposta. Pelo que eu entendi, ele foi um extra em High School Musical 3, e a longa carreira de ator dele só consta com vários papéis de figurante. Nem sei se existe de fato uma confirmação de como eles se conheceram, mas o que se sabe é que eles começaram a sair, a pandemia aconteceu, e Demi achou de bom tom... convidar o cara que acabou de conhecer... pra passar a quarentena... na casa dela...

Hum...? Isso tinha como dar errado em níveis. E deu, porque o cara revelou ser a versão real do psicopata de You. O que a gente sabe agora é que Max na verdade era um sanguessuga de celebridade, tentando proximidade com quem quer que fosse pra ganhar status. A obsessão dele de verdade era com a Selena Gomez: tem prints na internet deste homem indo atrás de Selena que é o suficiente pra uma ordem de restrição. Quando esbarrou com uma abertura de Demi, nossa carente, solitária, sem-saber-lidar-com-Estar-Sozinha Demi, Max levou cachorro e cueca pra dentro da casa alheia COM CONSENTIMENTO DA PRÓPRIA. Eu sei lá. Façam terapia. Um terapeuta não permitiria uma situação dessas. 

Poucos meses depois, é claro, por que não?: noivos. Um pé rapado que não tinha onde cair morto, comprava seguidor e comentários no Instagram, morava de graça na casa de uma artista depressiva, comia de graça, usava internet de graça... comprou um anel avaliado em 1 milhão de dólares? Qual foi o AGIOTA que esse homem acionou?

Não disse que a Demi tava crente nesse época? Adivinha quem também é... o sociopata. Digo é, no presente, porque até hoje ele tá aí postando que Deus tem um propósito pra tudo, e gravando filme evangélico. Eu não minto com essas coisas. Eu digo pra vocês que essa coisa que crente tem pra querer casar com 2 meses de namoro só pode ser duas coisas: vontade de transar ou golpe. Tem foto dos dois saindo da igreja juntos, louvando juntos, Demi dizendo que o noivo foi uma "benção de Deus" na vida dela... 

Quando tudo veio à tona e todo mundo teve conhecimento de que Max estrelava a própria versão de You, Demi soube junto com a gente. Imagina que vergonhoso você descobrir, junto com a internet, que seu noivo, esse que você tá morrendo de amores e dizendo que é presente de Deus, é, na verdade, só mais um doido. 

E imagina o que é tudo isso pra Demi, que não aguenta mais uma perda sequer, que não sabe viver sem a companhia romântica de alguém, que tenta continuamente achar alguém que preencha o buraco que Wilmer deixou - a essa altura, Wilmer casado e com um filho. A própria chegou a falar, em vídeos gravados pro seu novo documentário "Dancing With The Devil", que a dor e humilhação que sentiu foram gatilhos pra querer recorrer ao álcool, à comida e às drogas... E lá ia ela de novo, sustentando seu bem estar e seu avanço clínico e psicológico em um outro alguém, mesmo com a bagagem recente que havia adquirido. 

Com vergonha e ressentida, Demi voltou pro que sabia fazer de melhor: descascou sua pele antiga e apareceu numa nova. 

Fase Nove: Queer, Militante e Maconheira Assumide
Causas: vergonha do noivo psicopata? fé abalada?  


Demi de agora. Quem é você? 

Você é você mesme, de forma autêntica, resultado de todos os percalços que te trouxeram aqui, numa jornada que era pra ser assim desde o início? Ou você é uma pista paralela à sua anterior, uma vez que a anterior deu errado? 

Se ainda noiva de Max, se Max se revelasse ser um cara mentalmente saudável e com boas intenções, esta versão de Demi existiria? Meu palpite é que não. Demi estava satisfeite em fechar os olhos pro que estava óbvio, porque isso significava que elu podia fingir que estava feliz ao lado de uma pessoa que se importava com elu. Não era verdade, mas era o que Demi escolhia ver, porque era o que necessitava. Se tudo tivesse terminado bem, se Max fosse outra pessoa, talvez essa manifestação de Demi sequer fosse ver a luz do dia.

Mas o fato é que está aqui. Parece, de novo, uma tentativa de justificar tudo que deu errado. Meu ex noivo era um psicopata? Foda-se, eu sou queer demais pra casar com um homem cis anyway. Minha música pop não deu certo e não levou um Grammy? Aquela não era eu, aquela Demi de salto alto era o que minha equipe queria que eu fosse. E assim vai... nesse momento, tudo para Demi tem uma justificativa - sempre é algo nos cosmos, nas cartas, na energia. A culpa nunca é delu. 

Se eu tivesse perdido tanta coisa, eu também precisaria dar uma relativizada pra não enlouquecer. Eu entendo essa parte. Mas dá pra fazer isso sem matar sua versão antiga, não dá? Sua incapacidade de tratar as coisas pela raiz é tão rasa que você prefere queimar todos os seus antigos vestígios do que ter que lidar e aprender com eles? 

A não-binariedade assumida por Demi recentemente é, provavelmente, o único pedaço de autenticidade que eu achei nessa versão. Realmente parece que é algo delu, não alguma variação de tentativa de lidar com trauma, como quase todo o resto. 

Mas a verdade é que Demi se isolou de pessoas que já conheciam-lhe e se encontrou em novas. Pessoas com exatamente a mesma personalidade que elu. Ou melhor: pessoas de quem elu decidiu copiar, pra ser parte de algo. Não é a toa que Demi tem um quarto psicodélico pra intensificar o efeito de drogas recreativas dentro de sua casa agora. Sim, Demi que quase morreu não muito tempo atrás de overdose. Quarto esse usado por elu e seus amigos, que são ativistas ferrenhos de que você pode usar maconha moderadamente mesmo com problemas de vício, por exemplo. Mas será que dá mesmo? Uma pessoa com um problema de vício tão delicado, que jura de pé junto que abstinência é pior, consegue mesmo se manter saudável só com uso recreativo de algumas substâncias? Pra alguém que já é tão fragilizade, isso não é só deixar a porta entreaberta?

Não sei. 

Meu desejo, como alguém que acompanhou todas essas fases, que cresceu junto de Demi Lovato, era que elu se libertasse da necessidade de moldar-se àquilo que o grupo da vez, que está lhe dando atenção, representa. Como fundamentar uma carreira falando para as pessoas serem elas mesmas se você nunca, nunca foi isso? E agora, que você me jura que É Isso e Pronto, quem me garante que daqui a pouco, na próxima desilusão com um desses amigos, você não vai apagar essa versão e construir outra do zero? 

Eu tenho alguma garantia sequer que esta versão de Demi é a mais autêntica até então, como elu me garante ser? 

Pelo histórico, não. 

Mas o resto é história... 

Conhecendo Demi como conheço, uma história longa, bem longa, longe de encontrar o fim. 


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Nota da editora: 

Aos meus assinantes queridíssimos, eu tenho dois mimos!

O primeiro deles é um teste do Buzzfeed. Leu todas as fases de ambos os posts e ficou se perguntando qual delas você seria? Seus problemas acabaram.


Por último, todas as músicas mencionadas em ambos os posts - e algumas extras - estão presentes nessa playlist aqui :)!


As 24 personalidades de Demi Lovato


Importante: os pronomes femininos aqui utilizados não correspondem aos pronomes usados por Demi Lovato hoje. Mantenho essa errata pra reforçar que de forma alguma procuro errar propositalmente os pronomes aderidos hoje por elu, mas sim ser fiel à sua persona à época, mais de 10 anos atrás. Os pronomes em feminino dizem respeito à Demi da época. Ao usar os pronomes neutros, me refiro a pensamentos sobre sua pessoa atualmente.

Ai, ai...
Vocês se pronunciaram e eu ouvi. 

Pra começar a falar de Demi Lovato, nós temos que voltar no tempo pra uma época onde o Disney Channel caminhava pra entrar nos anos dourados, revistas da Capricho eram vendidas a 5 reais, Flogvip era algo que existia, e o PT estava no poder. Inclusive, Flogvip - um termo/site/vanguarda que desbloqueei 4 níveis de memória descartada pra conseguir lembrar o que era -, foi o primeiro lugar onde tive conhecimento do nome Demi Lovato. Era 2008 quando novas contas dedicadas ao novo filme da Disney começavam a surgir, com fotos da personagem Mitchie provando várias roupas no quarto, no que viria a ser a cena de abertura do filme. Não sabia quem era Mitchie ou Demi Lovato, mas quem eram os Jonas Brothers eu sabia. 

E foi com essa energia que não só eu, mas toda minha turma de sexta série do fundamental assistimos Camp Rock, numa estreia nacional às 20h de um Domingo. Bastou o primeiro acorde de This Is Me pra abraçarmos nossa nova garota Disney. Ela cantava, ela era fofa, ela era melhor amiga da Selena Gomez que também tava começando, ela tinha uma franjinha que fez milhões pegarem uma tesoura cega e cortar a própria (por milhões eu quero dizer eu). Era um produto pronto pra Disney-Empresa.

A impressão que me dá é que Demi Lovato nos Primeiros Anos (Camp Rock, Don't Forget [seu álbum de estreia], artista de abertura da turnê mundial dos Jonas Brothers) era 100% um fruto do que a Disney queria que ela fosse. Imagino que a empresa não queria apostar mais no mesmo: eles já tinham a estrela pop (Miley Cyrus), já tinham uma abordagem mais R&B-Pop com a Raven Symoné, já tentavam enfiar a estética anti-pop (garota descolada, calças rasgadas, cabelo repicado, regatas e tênis) na Selena Gomez - numa referencia clara à sua personagem em Feiticeiros de Waverly Place, Alex Russo. Em que eles poderiam transformar Demi Lovato pra que ela não fosse algo repetido, algo que eles já tinham? 

Conhecida por "a irmã Jonas", não demoraram muito pra achar a resposta: vamos transformar Demi Lovato num produto pop rock, aproveitando a mesma atmosfera dos três meninos que a ela eram constantemente associados. 

De uma lista grande de personalidades já adquiridas por Demi, a primeira todo mundo conhece. Inteiramente produzido pelos próprios Jonas Brothers (e o Jonas pai), Don't Forget marcou Demi Lovato como uma extensão do som e da estética que os Jonas já faziam - afinal, era óbvio que a empresa conhecida por transformar adolescentes em máquinas de fazer dinheiro investisse em dar à Demi Lovato o suporte pra se tornar parte do produto responsável pelo sucesso de Camp Rock: os irmãos Nick, Kevin, Joe, e sua fanbase. 

Demi começava, daí, sua longa, longa, loooonga jornada de ter sua própria identidade ditada por outros. É até triste relatar sobre se você para pra pensar que, de certa forma, é com isso que elu tá acostumade: pessoas dizendo o que elu deve ser. E é aqui, meus amigos, que eu os convido a uma viagem. Uma viagem onde a gente vai perceber que Demi Lovato nunca foi elu mesme. Demi Lovato nem deve saber quem é de verdade. Tudo que já foi, e tudo que é agora, e provavelmente tudo que ainda será, são frutos do que as pessoas ao redor querem que elu seja. 

Fase Um: Demi Lovato Pop Rock
Causas: Disney, Jonas Brothers e equipe, tendências emo adolescente


Quem não balançou pescoço com o solo de guitarra na música Don't Forget, ou tentou fazer o grito roqueiro de Demi ao final de Get Back, realmente viveu em 2008? Creio que não. Bons tempos, bons tempos. A pior parte é que essa fase, em retrocesso, nem foi ruim. Foi a melhor fase. Talvez não pra Demi - não pra sua identidade e pro que isso significou em seu emocional -, mas pra gente? Crianças e pré-adolescentes sem noção de nada? Significou tudo. 

Demi manteve a franjinha eternizada no primeiro filme de Camp Rock, mas agora a franjinha era de lado, com o cabelo levemente ondulado pra ser mais fácil de aparentar desarrumado - estrategicamente assanhado, pra parecer cool. Usava chapéus e botas, andava quase sempre de preto e usando camisetas de banda que eram bem mais rock n roll que ela própria. Não acho que Demi soubesse na época que essa não era ela - pelo contrário, acho que até se divertiu com a ideia de, de repente, ter se tornado uma estrela do rock adolescente. 

Todo mundo tem uma fase """emo""" na adolescência, e Demi deu a sorte de ter a dela quando sua própria equipe queria que ela fosse exatamente isso: muito lápis de olho e muita guitarra - nunca, é claro, abandonando o decoro exigido por contratados da Disney. Em uma das mais icônicas músicas de Demi na época (tão famosa que inspirou o Damien Chazelle a escrever um filme com mesmo nome*), ela com orgulho cantava que não seria mudada pela indústria de Hollywood, que tava muito feliz de continuar usando seus Converse e que não era uma super modelo. Guardem essa informação. 

É importante mencionar que Demi tinha apenas 15 anos na época. Quem é que sabe quem é ou o que quer aos 15 anos? Ela certamente não sabia, mas se demonstrava satisfeita de ser Alguém, de ser Conhecida, de poder cantar (seu maior sonho) em palcos e virar uma artista. A essa altura, a Disney falava "sapo" e ela pulava. Mas não dá pra culpá-la. Era uma criança sendo dita o que fazer. Como um produto inédito, Demi virou a nova aposta da Disney pra ser seu novo rostinho de sensação adolescente. 

Por que, então, Demi não continuou como nosso protótipo de Ozzy Osbourne Para Crianças até o final de seus dias na Disney? É simples.

Demi Lovato cansa rápido das coisas - e cansa mais rápido ainda de pessoas dizendo o que elu deve fazer. Entramos então na

Fase Dois: Demi Lovato Pop Rock Repaginada, 2.0
Causas: Jonas Brothers e fobia à estabilidade 

    

Essa é uma Demi Lovato de transição. 

Como boa transição, essa versão não é muito diferente da anterior, ao mesmo tempo que consegue já dar indícios de como vai ser a próxima. Demi Lovato Pop Rock Repaginada 2.0 difere da 1.0 em detalhes, apenas: o primeiro deles é o cabelo. Parece pequeno, mas toda boa artista Disney tem o seu momento de ruptura/rebeldia que começa pelo cabelo - Miley Cyrus pintando de preto depois que terminou com Nick Jonas, por exemplo. Curiosamente, preto também foi a cor escolhida por sua amiga & colega de firma Demi, a simbólica franjinha agora longa o suficiente pra virar um franjão. 

Ao contrário do que a rebeldia adolescente do cabelo pintado de preto poderia representar, Demi ficou mais menininha do que sua versão anterior: enquanto a 1.0 parecia um cover do Joe Jonas em 2008, a 2.0 parecia mais um ser humano à parte da estética dos Jonas Brothers. E como, então, os JoBros entram como uma das causas pra essa versão? Pelo simples fato de que Demi não consegue expressar e exercer algo que é 100% delu. Muito dessa fase significou o distanciamento, mesmo que aos poucos, das roupas pretas e do lápis de olho, dizendo olá para coloridos e neons. Quem também andava de óculos escuro neon, calças coloridas e blazers de estampa assimétrica? 

Restart. 


Foi nessa mesma época que Demi abraçou sua rápida e passageira marca registrada: seu batom rosa, imortalizado na capa do seu segundo álbum, Here We Go Again. Eu sei de tudo isso porque eu posso ou não ter passado uns bons meses da minha vida apenas usando o batom mais cor de rosa que a revista da Avon tinha a oferecer. 

Num pop rock menos solo de guitarra que seu irmão mais velho Don't Forget, o Here We Go Again parecia mais produto da própria Demi do que de intromissões da Disney e seus produtores - como se ela tivesse dado tão certo de primeira que eles relaxaram no que impor a ela em sua próxima fase. Em alguns momentos, esse álbum soa maduro demais pro ambiente em que foi feito - e dou créditos à Demi por isso. Ainda que com a produção dos Jonas em algumas faixas (dá pra ouvir o Nick Jonas fazendo o backing vocal em Stop The World, por exemplo), em outras Demi atingiu o ápice de sua habilidade em composição numa faixa de sua autoria (Catch Me, as melhores letras que já escreveu sozinhe até agora) e ainda colaborou com o John Mayer em World Of Chances, uma faixa igualmente boa - que o John Mayer não apenas ofereceu à ela, como também pediu pra que Demi colaborasse com ele, um feito que não veio de negociações da Disney com o artista, mas sim em seu interesse pelo talento de Demi. 

Mas isso não é uma review sobre Here We Go Again, meu álbum favorito de Demi e um dos meus favoritos da adolescência. Isso é sobre a persona 2.0. E essa Demi, que recebia propostas de parceira do John Mayer e conseguia produzir um bom álbum mesmo com milhões de cláusulas contratuais pra seguir, dava sinais de que tinha potencial pra crescer conforme ela bem entendesse, do jeito que ela era. Demi Repaginada 2.0 dava indícios de que ela havia pegado sua versão anterior (imposta) e transformado em algo que era dela, que era mais ela. Mas isso era uma suposição de quem apenas observava a superfície: muito embora as pequenas mudanças parecessem ser fruto de seu amadurecimento inevitável, Demi jamais alegou que a versão 2.0 era ela própria.

Por que? O de sempre. Demi ainda não sabia quem era. Seus dois primeiros álbuns, muito embora frutos do controle de uma grande corporação, era parte dela, sim, de certa forma. Mas lá pelo segundo, me parece que Demi começou a achar confortável demais. E se tem uma coisa que Demi não suporta é estabilidade. O que nos leva à

Fase Três: A Boa Garota Se Torna Má
Causas: Drogas, rebeldia, traumas psicológicos e péssima equipe

Acompanhar Demi Lovato é saber que o fatídico ano de 2010 foi o ano em que tudo aconteceu - terminou com Joe Jonas, entrou numa fase crítica da sua relação com drogas e álcool, socou uma dançarina na cara, deixou a turnê de Camp Rock 2 pela metade e foi internada numa rehab. O que levou a tudo isso? Pois bem.

Demi já havia atingindo os 100% de sua transformação em garota tradicional estudante de Odonto, com seu Converse imediatamente substituído por saltos altos e vestidos, os chapéus e já aposentados perante o INSS e tudo. Abandonou seu cabelo preto, abriu luzes, e esperou impacientemente para que os problemas começassem. Com a demora para tal, ela mesma foi atrás deles.

Era normal, na época, esbarrar com vídeos de Demi visivelmente chapada em bastidores de turnê, nas suas fotos bêbadas simulando tirar a roupa em quartos de hotel, e nos boatos de que ninguém, absolutamente ninguém, suportava mais estar perto dela - inclusive seus já citados relacionamentos próximos, especialmente Joe (ex namorado) e Nick (melhor amigo). Kevin não. Kevin Jonas nunca teve paciência pros causos de Demi Lovato - procure um registro dos dois depois do casamento de Kevin e Danielle (que Demi compareceu), e você não vai achar. 

A rebeldia que deu sinais na personalidade anterior, aqui se consolidou. Demi já não aceitava qualquer limitação ou tentativa de controle ao seu comportamento destrutivo, o que a tornava numa pessoa impossível de trabalhar ou se estar perto - nas palavras da própria. Quase sempre sob efeito de drogas e álcool, essa Demi se agarrou nas pessoas erradas pra dar os dois dedos do meio pra Disney e sua tentativa de montagem da garota perfeita. Caótica e problemática, essa personalidade era tão auto destrutiva que não durou muito tempo: as luzes no cabelo foram presentes por apenas uns 2 meses, até que Demi foi internada pela primeira vez num centro de reabilitação, após literalmente dar um murrão na cara de uma dançarina que foi fazer fofoca aos produtores da Disney sobre suas festas extravagantes e ilegais. 

(Uma trivia irrelevante porém muito legal desse episódio é que Demi estava tão louca na droga na época que, ao surrar a coitada da dançarina dentro de um jatinho particular, Demi só voltou pra sua poltrona e dormiu o resto do voo, como se nada tivesse acontecido. Extremamente. Caótica.)


Os problemas psicológicos de Demi e seu vício não foram algo que surgiu nesse pequeno intervalo de Boa Garota Virou Má: eram coisas que sempre estiveram com ela, desde sua versão pop rock, talvez mais silenciosas na época. Ao romper com a estabilidade do suporte nos Jonas, com a confiança em sua equipe para guiar sua carreira e com seu prévio comportamento de garota exemplo da Disney, Demi perdeu seu próprio rumo, simplesmente porque ela não sabia andar por conta própria, nunca soube. É necessário que pessoas estejam guiando seus passos, opiniões e comportamentos a todo momento, já que ao mínimo sinal de solidão, Demi tende a abandonar todo o bom senso e se abrigar nas mais tóxicas pessoas, nas mais destrutivas situações.  

O tempo na reabilitação poderia ter servido como o momento em que Demi perceberia isso. Não foi o que aconteceu.

Fase Quatro: Garota Má Se Torna Uma Boa Mentirosa
Causas: Más companhias, síndrome de mentira compulsiva


Eu não falei pra vocês guardarem a informação da mensagem de Demi em sua música chefe do primeiro álbum, La La Land? Demi que não era uma super modelo, Demi que se vangloriava de seus estilos alternas e se achava visionária por usar vestido rodado e tênis, Demi "oh-eu-não-sou-igual-às-outras-garotas", I'm a weirdo, I don't fit in... Essa Demi? Morreu. 

Demi da fase quatro é uma Demi que acabou de sair de um centro de reabilitação para seus problemas psicológicos e vício em substâncias, mas que em momento alguém desejou estar em rehab ou sequer queria estar sóbria. Em resumo da grande ópera, Demi só aceitou ser internada quando seus pais afirmaram que ela não teria mais contato com sua irmã mais nova, Madison, se não fizesse tratamento. Então ela foi - não porque de fato queria, mas sim porque estavam prestes a tirar dela algo que era importante. E essa Demi "eu não ligo pra nada", essa Demi que mandava todo mundo se foder enquanto cheirava cocaína, se importava pelo menos com uma única pessoa: sua irmã. 

É sabido, no entanto, que a longo prazo ninguém muda por outra pessoa: mudança de pensamento, atitude e comportamento é algo que tem que partir de você mesmo. E foi assim que Demi, ao sair da rehab e esfregar na cara dos pais que tinha feito o que eles queriam, deu continuidade à sua persona antiga de maneira intensificada. As drogas experimentais e recreativas da fase anterior viraram um costume, as festas clandestinas eram escondidas pois na manhã seguinte Demi teria que dar entrevista sobre ter controlado seus vícios em reabilitação, as camisetas com a frase "the only coke I do is diet (a única coca que eu uso é a diet)" escondiam a relação de Demi com a criadora da marca, que ironicamente era conhecida por suas festas onde cocaína era servida em bandeja. 

Demi, com seu novo aplique de cabelo, suas turnês com mais de dez dançarinos, suas coreografias, o glitter em excesso e as festas sem limites, virou tudo que ela disse não ser quando começou: um ato pop problemático (ver: Britney Spears, Miley Cyrus). No álbum Unbroken, seu trabalho musical fruto dessa era, a nova personalidade de Demi era tudo que já conhecíamos em nossas princesas do pop anteriores, perseguidas pelos seus próprios traumas. Batidas sintéticas, samples e equalizadores substituíram os instrumentos reais das músicas de Demi e, assim como ela própria, sua música também ficou genérica. 

Genérica parece ser a palavra adequada pra personalidade quatro. Tudo em Demi, nessa época, era absolutamente falso: do cabelo aos discursos. Era muito fácil, pra ela, mentir sobre estar recuperada e se esforçando, lançar Skyscraper, e gravar um documentário sobre sua luta pessoal sob efeito de cocaína durante as entrevistas. Aqui, Demi compreendeu que conseguiria tudo de seu jeito se fosse a melhor mentirosa que pudesse ser - e foi o que fez. Seja por descuido, negligência ou simplesmente por terem sido manipulados por ela, a equipe de Demi pouco fez pra exercer controle na situação. 

Mas Demi estava fazendo as coisas como queria e enganando todo mundo no processo. Seja lá o que sua equipe e pessoas próximas planejassem fazer, não é como se ela fosse aceitar qualquer imposição alheia de bom grado. 

Fase Cinco: Uma Camaleoa e A Falsa Sensação de Estabilidade
Causas: Contratos, trabalhos na TV e agenda cheia


No ponto alto de sua carreira até então, 2012 e 2013 dão a falsa impressão de que Demi Lovato estava estável - exceto, é claro, por seu cabelo. De Leona (Cobras e Lagartos) a todas as variações possíveis de cabelo colorido, Demi parecia descontar sua falta de tempo pra se moldar a uma nova personalidade em suas transformações capilares - o que é tipo, basicamente o maior dos gritos de socorro da mulher leonina. 

A falsa sensação de estabilidade vem de uma coisa muito simples: ela só não tinha tempo de se transformar em outra coisa. Foram duas temporadas de The X Factor, duas turnês, uma temporada de Glee, uma participação na trilha sonora de Frozen com Let It Go, uma performance na Casa Branca, um relacionamento escondido com Wilmer Valderrama (12 anos mais velho que ela) e um novo álbum. Não tinha mais tempo disponível pra continuar mantendo a fachada de Garota-Pop-Que-Está-Sóbria-Mas-Sempre-Em-Festas, 

Musicalmente, Demi continuou no pop - menos eletro e menos sintético, mas ainda pop. Não se enganem, Demi hoje vai tentar te fazer acreditar que foi sua própria equipe que tentou empurrá-la à uma persona pop star, com hits que tocam em rádios. Não. Demi na verdade incentivava e trabalhava pra ficar mainstream-mente famosa. Ela não só aceitava como requeria que sua produção musical fosse pop o suficiente pra seguir subindo nos charts - o que só resultou em hits, de fato, duas vezes: uma com Give Your Heart A Break (Unbroken) e outra com Heart Attack (DEMI). 

Foi a época em que Demi mais trabalhou pra virar o que ela queria virar - e note: o que ela queria, e não o que ela era. A receita pra fazer sucesso nunca foi quem Demi de fato era. Caso fosse, Demi hoje seria uma artista classe A assim como suas colegas de firma da época, Miley e Selena. 

Aqui parece não haver tantos problemas de conflito de identidade. Mais branda e mais controlada que sua versão anterior, essa Demi tinha muitos compromissos, muitos contratos e muito trabalho à fazer. No entanto, sua estética pareceu fluída nesse período de tempo, de certa forma. Demi abusa das coisas muito, muito rápido. Não só nas mudanças de cabelo, seu estilo pessoal foi uma incógnita ao decorrer desses dois anos. Nunca dava pra saber se Demi apareceria de vestido longo e salto alto, de calça preta e camiseta xadrez, de aplique no cabelo ou de cabeça raspada (aconteceu, várias vezes). Parecia que ela experimentava de tudo um pouco, do jeito que dava, só por estar entediada. 

O resultado não foi lá essas coisas, e sua inconstância de estilos dificultava o trabalho da mídia de colocava dentro de uma caixa só, com o propósito de atrair o público específico para tal. Talvez fosse esse o motivo pelo qual Demi seguiu em seu objetivo pessoal de sempre ser uma Demi diferente em cada nova aparição pública. 

Até que Demi cansou de mudar toda hora...

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No próximo bloco...

Fase Seis: Gênesis e a Verdadeira Estabilidade
Fase Sete: O Amadurecimento? 
Fase Oito: O Renascimento e o Decair
Fase Nove: Queer, Militante e Maconheira Assumide

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Tem tão mais a ser falado, tantas mais imagens e tantas outras nuances, que eu não posso simplesmente continuar falando e falando pra sempre - vai acabar meu espaço. Assim como Demi Lovato, esse texto foi feito para ter uma continuação (mas nunca uma conclusão).

Percebo que sigo uma certa fascinação com artistas que nasceram pra ser flop. O que é curioso, porque adivinhem como eu conheci nosso Ator Classe C Favorito, do post anterior? Adivinhem qual foi o primeiro contato que tive com ele, a primeira vez que o vi na vida? 


É, meus amigos... Quem amaldiçoou quem, é difícil saber. Mas nada mais fascinante do que pessoas com potencial com escolha errada atrás de escolha errada, uma perpétua alma de pobre. 

Pra me deixar entretida, você só tem que ser brega. 



Darren Criss em Hollywood, o que deu errado? Um dossiê sobre um eterno artista classe C


dc

POV: o ano é 2009 e você é um estudante da Universidade de Michigan. A notícia do momento é uma produção musical escrita, dirigida e produzida pelos alunos de Belas Artes. Um musical sobre o que? Harry Potter. A Very Potter Musical foi um projeto do grupo de teatro da Universidade eternizado ao ser upado, na íntegra, no Youtube. Em meados de 2010, fãs de Harry Potter (e, por que não?, de teatro musical em si) no mundo todo já conheciam a peça onde o Draco Malfoy (antagonista) roubava a cena, a ser interpretado por uma garota com um timing impecável pra comédia - e, é claro, a icônica música Granger Danger, dueto de Ron Weasley e Draco Malfoy descobrindo, juntos, seu amor por Hermione Granger. 

O sucesso foi grande (no mundo das interwebs), mas não o necessário pra trazer o estudante que interpretava o próprio Harry Potter ao estrelato - que não só atuou, mas também escreveu e compôs grande parte dos memoráveis momentos musicais apresentados. Mas tudo bem, porque nem seis meses depois do sucesso repentino da peça de teatro, nosso garoto de cabelo cacheado estaria gravando um vídeo de audição para outro projeto musical - um televisivo, dessa vez. O vídeo de audição eventualmente chegou nas mãos Dele, que hoje tem um império de programas televisivos ruins, o primeiro em seu nome a ser um escritor tão ruim que se consolidou como produtor: Ryan Murphy.

Nosso garoto de cabelo cacheado já não era mais conhecido por cantar Back to Hogwarts no violão, ou errar as falas do próprio musical que ajudou a escrever. Agora ele era uma mini, mini estrela em ascensão, cheio de possibilidades ao chegar em Hollywood recém saído da Universidade. Darren Criss agora era conhecido por Blaine Anderson, nosso gay adolescente favorito, eternizado por gravatas borboletas, muito gel no cabelo e, é claro, o principal romance gay da televisão entre 2010-2015: o casal Klaine (Kurt Hummel + Blaine Anderson). 

dc

Mas esse não é um texto sobre Glee, ou sequer sobre Klaine - que, convenhamos, confessem!, é a melhor parte de Glee. Esse texto provavelmente vai vir algum dia, porque a gente (eu) tem que debater sobre como algo pode começar tão bem e despencar ladeira abaixo tão rápido, mas que o decair é do homem (temporadas 4-5) e o levantar é de Deus (temporada 6, sem ironia). Mas hoje não. Hoje a gente vai falar só Dele - nossa estrelinha de cabelo cacheado, e sobre por que a estrelinha nunca nasceu de fato. Continua como um meteorito. Darren Criss podia ter sido um dos grandes, um marco - tinha o apoio, a plataforma, os conhecidos. O que deu errado?

Vamos pelo mais fácil. O que deu certo? Bem vindos à gloriosa award season de 2018/2019, os maiores anos da carreira do nosso DC: depois da estreia de The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story (produzida e assinada por quem? Ele mesmo), Darren era o menino dos olhos das críticas. No maior papel de sua carreira televisiva, ao interpretar o psicopata Andrew Cunanan, assassino de Gianni Versace, corroborando com a consolidação de Donatella como chefe da marca Versace, Darren Criss fez a limpa em todos os prêmios da temporada, faturando 1 Emmy, 1 Globo de Ouro, 1 Critic's Choice (e sermão da Lady Gaga na mesma noite), 1 Screen Actors Guild e 1 Satellite Award (sei nem o que é isso). 

Me lembro muito bem de acompanhar toda essa temporada de premiação incrédula e abobalhada de ver nosso menino sendo reconhecido! De vê-lo sentado entre os grandes! De estarem notando algo que eu sempre soube! Na noite do Emmy, pessoas ME parabenizaram. Pessoas me desejaram boa sorte. Era esse meu nível de comprometimento com o maior (e talvez único) ato de Darren Criss em Hollywood. Isso era significativo! Ele ganhou pro Benedict Cumberbatch! Ele cresceu, sabe que cresceu, e agora sim virará nossa estrela classe A! Com paparazzis seguindo na rua, participando de eventos relevantes, atuando em outros grandes papéis. E então...

dc

Nada. E então nada. 

No maior anticlímax da história das carreiras, Darren Criss voltou pro que sabia fazer de melhor: ser um artista classe C. E tudo bem, a gente gosta de artistas classe C: Rita Ora, que tem um nome conhecido mas não passa pra nada além disso. Kerline do BBB21, nossa subcelebridade favorita. Todo mundo tem um artista classe C de estimação. Mas o que houve, Darren? Entre conseguir um emprego na televisão meses depois de formado, ser apadrinhado pelo maior da televisão (Ryan Murphy é péssimo sozinho, mas é ótimo em apadrinhar pessoas, ver: Sarah Paulson), fazer arrastão nos mais importantes prêmios televisivos... É curioso, no mínimo. 

E é por isso que eu vou dar meus 10 trocados e discutir Motivos Pelo Qual Poderia Ser Mas Não Foi, uma pesquisa necessária - mas não séria. Definitivamente não séria. Por favor, não me levem a sério - (N/A: levem. sempre me levem a sério). 

1. Darren Criss não é LGBTQ+...

...para choque de todos. Tudo bem ter héteros no mundo, isso não seria um problema (seria), até você reparar que estabeleceu toda sua carreira em personagens LGBT. De Blaine Anderson (gay), a Andrew Cunanan (gay psicopata), a Hedwig (queer), Darren Criss ficou conhecido e estabelecido como um ícone gay - algo que não chegou a passar dos seus personagens. Darren foi obrigado a sair do armário várias vezes, não pra relevar que era LGBT, mas sim pra esclarecer que era um homem hétero. 

Vocês vão achar que eu estou exagerando sobre isso até eu pontuar aqui que ele realmente se pronunciou e comprometeu a não mais aceitar papéis LGBT para interpretar: "I want to make sure I won’t be another straight boy taking a gay man’s role", ele disse, depois de já ter tirado uns 4 e ganhar toda a fortuna dele até então em cima disso. 

Não quero entrar na discussão - na seriedade -, de ser aceitável ou não que um homem cis hétero interprete personagens LGBT. Deus me livre, já chega de coisas sérias, esse não é esse tipo de blog. Só quero escrever por diversão. Dito isso, meus dois neurônios concluem que Darren Criss seria tão mais celebrado por aí se ele fosse só... gay.

:p 

2. Darren Criss é brega (e a esposa dele também)

Eu nem sei se quero escrever sobre esse ponto, porque me dói a vista e vai arruinar a estética do meu blog. Mas por fora dos eventos de Hollywood, por fora dos Met Galas e festivais na Itália, Darren Criss é só mais um homem brega. 

Essa é a sala dele. 

dc

Tipo? Tem perdão? Não tem. 

Muito da breguice do Darren é o que eu mais gosto dele, na verdade. Me dói os olhos, mas me abraça o coração. Como assim... um homem com dinheiro e reconhecido pela crítica, mesmo que apenas uma vez... vive assim... damn bitch u live like this? Andando de regata, chinelos, chapéu de atlética e bermudas cor de rosa no centro de Los Angeles? 

Quando o Darren casou (não, gente, não foi com um homem! oooo já avisei!), nem meus maiores pesadelos me prepararam pro show de breguice que foi o encontro civil e matrimonial das duas mais bregas pessoas que já moraram no planeta Terra. A breguice da esposa do Darren, a Mia von Criss (começa por aí - ela atribuiu o sobrenome do marido ao nome artístico, Mia Von Glitz. Sim. Eu nem consigo inventar uma coisas dessas), chega a ser pior do que a dele mesmo - o que é uma maldição ou uma dádiva, depende do ângulo que você analisa.

Toda a dinâmica Mia & Darren é um prato cheio para estudos antropológicos. São tantas nuances espetaculares que aqui eu luto pra selecionar minhas favoritas. Uma vez uma amiga me disse que os dois passaram a vibe daqueles casais que você sabe que a mulher é a ativa - e que ela provavelmente tinha uma cinta strap pra usar com ele. Os dois são literalmente essa atmosfera. 

dc 

Eu vou deixar o link de uma matéria da Vogue com tudo que rolou no casamento dos dois, simplesmente porque não tenho espaço o suficiente pra destrinchar - e esse foi só um dos eventos. 

Mia e Darren também tem um piano bar juntos, o Tramp Stamp Granny’s em Los Angeles, diretamente inspirado no Marie’s Crisis Cafe de Nova York - um café/piano bar que grandes nomes da Broadway vão pra cantar showtunes com todo o público. A estética do bar da Mia e do Darren, no entanto, é ser trashy - segundo eles. Uma atmosfera bem casa de avó imoral que gosta de falar a palavra "priquito" porque acha engraçado. O bar já conseguiu reunir o elenco do finado Glee pra cantar Don't Stop Believing, com um Darren bêbado acompanhando no piano, sem saber as letras, uma vez que ele não cantou a música mais famosa da própria série. Não é uma ideia ruim pra bar - eu adoraria! Só é... brega. Assim como eles. É totalmente eles. 

3. Darren Criss lança músicas péssimas

Escuta. Pra alguém que foi responsável por Granger Danger (que eu não ironicamente amo), e responsável pela icônica versão de Teenage Dream acústica no piano, era de se esperar que Darren só trabalhasse com músicas incríveis. De novo: O QUE HOUVE?

Eu amo o Darren compositor. Amo de verdade. O EP Homework é um dos meus trabalhos favoritos. Depois disso, foi com Deus. Darren anunciou recentemente um projeto de lançamento de vários singles inspirados em personas, personagens que não são pra ser ele - mas é claro que são. Quem mais seria tão brega? 

A última música lançada, "i can't dance", eu escutei antes de começar a escrever esse post. O Spotify tava no replay automático, e eu fui obrigada a desligar, porque uma vez foi o suficiente. Não sei se quero passar por essa de novo. Pra mim, o melhor do Darren é o Darren simples. Músicas em que ele compõe sozinho no violão ou no piano (foi assim que nasceu a minha favorita, Words, nunca lançada mas sempre apreciada, que me obrigou a baixar um mp3 youtube converter igual uma neandertal), são o suprassumo do que ele tem pra oferecer em composição e melodia - e ele tem muito a oferecer. 

Além de muito carismático, o Darren é muito criativo: meu feito favorito dele segue sendo o Elsie Fest, um festival criado por ele pra ser uma versão minimizada de um Lollapalooza, só que com acts do teatro musical. Acontecia anualmente no Central Park, e ele é tão Classe C que o festival fazia pelos outros o que não conseguia fazer por ele: todo ano o Darren convidada pessoas que, de algum jeito, explodiam no ano seguinte. Darren levou a Olivia Rodrigo na última edição. Darren levou o cast de O Rei do Show antes do filme estrear. Darren panfletou Dear Evan Hansen antes do musical virar o que virou. Como nosso artista Classe C favorito, ele tem um feitiço que abraça a carreira de todo mundo - menos a dele própria. 

Mas, assim. O nome da minha cachorra é Elsie por causa do festival. Então algum feitiço ele tem, sim - pra mim. 

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Coisas que o Darren já fez que não tem perdão/que ninguém lembra:

  • Ser amigo da Lea Michele;
  • O episódio musical de Flash com Supergirl;
  • Uma participação especial na temporada de American Horror Story da Lady Gaga - por 4 segundos;
  • Uma série musical que absolutamente ninguém assiste (Royalties), mas que tem participação da antagonista da Olivia Rodrigo: Sabrina Carpenter;
  • LMDC Tour: uma turnê só ele e a Lea Michele;
  • Falar "it can happen, never say never" quando perguntado sobre um relacionamento com o Chris Colfer - e abrir o mar vermelho que foi o queerbaiting em cima do casal inexistente CrissColfer;
  • Cantar Skyscraper com Demi Lovato de microfone desligado;
  • Beijar o Chris Colfer ao vivo. DEIXE este pobre homem gay eM PAZ!!! 
  • Responder "who knows who I came out to as a straight man" quando perguntado sobre sua sexualidade - mais um grande marco da abertura dos portões pra uma carreira sustentada pelo queerbaiting e pink money;
  • Uma live com a Lea Michele;
  • Participar não uma vez, mas DUAS vezes, do podcast da Becca Tobin (a Kitty de Glee), que é a única pessoa do ramo que consegue ser tãoooo mais rebaixada que ele - uma completa Classe F;
  • Anunciar o próprio podcast com uma das irmãs Haim - provavelmente a que ninguém liga;
  • Ir num show da Taylor Swift e ficar na grade berrando como um fã que provavelmente seria escolhido pra uma Secret Session. 
  • Ter concordado em participar do episódio dos fantoches em Glee & ainda ter cantado What Does The Fox Say;
  • Não ensinar a Lea Michele a ler.
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Falo tudo isso com amor, vocês sabem. 

Mal posso esperar pra novas notícias bregas da nossa subcelebridade favorita. Algumas mentes criativas são mais seguras sendo classe C e D. Classe A seria perigoso demais pra nossa estrelinha cheia de potencial, mas tão, tão peculiar. Personalidades assim oferecem muito mais entretenimento se nascem e morrem como subcelebs

Tem sempre espaço pra mais um nesse mundinho composto por mim & mais 4 gatos pingados (todas grandes amigas). 

E o melhor é que eu nem falei tudo. 

Ainda tem espaço pra parte II. 

Juliette, cultura de fandom e a incessante busca por uma heroína

 

De novo, Denise? Falando da Juliette de novo? Obcecada pela Juliette mais que os próprios cactos? 

Quer saber? Talvez. Talvez eu esteja admitindo aqui, de primeira mão, o meu claro interesse pelo assunto Juliette. Mas isso me faz especial? Dificilmente. No ano do BBB21, basta ter dados móveis pra ser puxado pro meio do redemoinho que virou a paraibana com chapéu de cangaço. A história da mulher que entrou como gente e saiu sendo marca. 

Não sou a pessoa mais qualificada da internet pra comentar ou recapitular a [jornada] da Juliette no Big Brother ("que jornada?", eu teria perguntado, em algum comentário nos últimos dias de programa). De perseguida a...? O que mais teve? O que mais aconteceu pra, no meio de grandes participantes do jogo, da mesma edição, a Juliette virar um fenômeno? 

Não foi uma conclusão só minha, mas foi na qual eu cheguei: Juliette foi ela mesma.  

Não se enganem, ser "você mesmo" num programa com câmeras que não desligam nunca não é um espectro ilimitado do exercício do ser - têm incontáveis estudos por aí que mostram que, ao estarmos cientes de que somos observados, a autenticidade genuína é quase impossível. Só de saber que está sendo gravado, você já se condiciona a reprimir comportamentos que não te valorizam e intensificar aqueles que o fazem. E tudo bem. Imagina que loucura seria ser você mesmo, sem filtros e sem ressalvas, por meses pra toda Rede Globo ver. Imagina andar só de calcinha e deitar de bunda pra cima pro Boninho ficar analisando na sala de direção (vocês não?). Mesmo com as ressalvas, os filtro e a falta deles, a Juliette chegou o mais perto que chegaria se fosse um quarta-feira de carnaval numa casa alugada com 12 amigos e mais 9 agregados. Quem diz isso não sou, mas a própria terapeuta dela: segundo Juliette, a psicóloga que a acompanhou por anos assistia o BBB com o prontuário na mão, dando um check em todos os pontos que ela analisou e previu que Juliette faria e falaria em diversas situações do programa. E ela acertou a grande maioria. (Façam terapia, é sério.)

Mas justifica? O que você precisa ser pra ganhar o amor - e fanatismo - de milhões (quase 30, pra ser mais específica)? Quem você precisa ser? Quais os atributos necessários, as características? O que o público tá esperando de alguém pra que, ao visualizar os requisitos, entregue toda uma devoção fervorosa pra quem nem conhece? E, cá pra nós, o mais importante: a Juliette tem tudo isso mesmo? 

Pelo histórico, vocês tão provavelmente esperando que esse seja minha diss track (diss post) pra Juliette. A Mariah Carey escrevendo Obsessed pro Eminem ("é o contrário!", vocês vão dizer), ou a Katy Perry mandando Swish Swish pra Taylor Swift. Sinto muito desapontar os hates no Curious Cat que estavam já escritos pra serem enviados, mas hoje não vai ser isso. Na verdade, desde que o Big Brother acabou, eu não senti nada além de solidariedade pela Juliette - muitas vezes até pena. 

Perguntar o que a Juliette tem de especial pra virar Jesus Cristo mulher dessa geração não é mais uma afronta pessoal à Juliette - até porque é meio f*da-se vocês ligarem tanto pro que eu penso sobre uma mulher milionária. Pergunto porque realmente tenho curiosidade de saber se vocês sequer refletiram sobre a Juliette ter ou não todos esses atributos - simplesmente porque vocês só decidiram que ela tinha. Eu sei o que é ser fã, eu sou fã de coisas desde que me entendo por gente, eu expresso minha personalidade sendo fã de coisas e pessoas. Mas essa obsessão por pessoas reais justificada em "ela é super verdadeira!", e ainda assim perpetuando uma cobrança de comportamento e pensamento que simplesmente não é e nunca foi o que o objeto da obsessão tem a oferecer, é doentio. Não, é literalmente doentio. Vocês adoeceram a Juliette. 

"Eu tenho dormido pouquíssimo. No dia em que consegui descansar melhor, foram cinco horas de sono. Nos outros, duas ou três, ou não dormi. Também não tenho conseguido me alimentar direito, por causa da ansiedade — detalha Ju, de 31 anos, que tem circulado na companhia de um segurança acostumado a proteger artistas: — Esta fase está sendo a mais crítica da minha carreira. Chique eu, né, falando em carreira? Além disso, o meu psicológico não está 100%. Comecei a ter problema de ansiedade no início da pandemia, mas não era algo patológico, a se tratar. Agora, está muito intenso, chego a me tremer toda. Tenho medo de tudo. Quando tem muita gente junta, temo que as pessoas se machuquem. Quando falo, temo machucar alguém. Tenho receio de usar uma palavra errada. Eu me assusto com o poder da minha opinião e as consequências dela." (Fonte)

Que a cultura de fandom é doida assim a gente já sabia, não precisa ir muito longe no Twitter pra saber. Mas vocês sequer balancearam, na cabeça de vocês, a diferença do endeusamento de uma pessoa pública, já treinada pra isso, pro endeusamento de uma pessoa "normal"? Eu nem consigo imaginar quão grande deve ser o choque de entrar como uma anônima e sair como alguém que precisa se esconder pra conseguir respirar. A própria Juliette fala sobre isso na entrevista com o Hugo Gloss, sobre como é injusto colocá-la num pódio que ela não se preparou e nem pediu pra estar. E se você reclama disso, você é mal agradecida. E se você abraça e celebra isso, você é oportunista. Ela já tá ciente de que nada que ela faça vai ser o suficiente, que nada que ela escolha vai agradar em totalidade o público que entregou pra ela o que ela tem hoje. E é por isso que é tão delicado: o público da Juliette - ela chama de cactos, eu chamo de máfia - sempre vai sentir que ela é uma subordinada. Que ela deve isso a eles. "Você não sabe o quanto a gente votou. A gente te deu um milhão, e você não vai aparecer nos stories pra dar oi?"

A cultura de fandom, com a Juliette, chegou em níveis impensáveis de controle e chantagem. Tenho pena dela, na maior parte do tempo. São +30 milhões de pessoas que se acham responsáveis pelo seu presente, e que querem pedaços de você de volta. Mas ela nunca prometeu esses pedaços pra vocês. Ao cobrar tanto a autenticidade que ela mostrava em confinamento, vocês a assustam tanto que o único resultado é uma Juliette retraída, mecânica, de roteiros. Mas isso não é literalmente o contrário do que vocês, cactos, tanto celebravam nela? Vocês cobram a autenticidade de volta, mas como, se nada é igual pra ela? Como, se ela tá ciente que o que vocês estão esperando que ela seja ela nem é de verdade? E um fandom obcecado tá pronto pra receber essa notícia? Claro que não. 

Os heróis brasileiro de fato morreram - de overdose, de tiro, de covid. E o Brasil, sempre o Brasil!, esse que é sempre tão passional quando é fã de algo, que se vangloria de cantar mais alto em todos os shows, que se orgulha da gritaria em aeroporto e de seus acampamentos de meses na frente de hotel e estádio. Esse Brasil tá sempre pronto pra encontrar um novo herói, sempre. Talvez porque a gente nunca teve um de verdade - exceto o Lula, que não morreu, mas foi preso. Esse povo que tanto sofre tá sempre atento pra uma nova figura imaculada, uma nova salvadora, uma nova pessoa que é superior e que vai curar onde dói. A Juliette ganhou o título de heroína que ela nunca quis ou procurou ter - e agora é ela mesma que sofre das consequências disso. Mas tudo bem, porque o Brasil agora tem uma namoradinha, uma mulher divertida, com classe, que sabe se colocar bem - ao mesmo tempo que oferece alívio cômico ao tropeçar em letras e trocar palavras no meio de discursos tão bem pensados. 

E como num relacionamento tóxico, se a namorada do Brasil não aparece pra dar bom dia nos stories, ela rapidamente se torna indigna, ingrata, controlada por toda uma equipe que provavelmente é culpada pelo seu sumiço - porque nunca que nossa Juliette estaria reclusa por escolha própria, por medo. 

Fã sempre vai tentar preencher um buraco com alguém que é só isso mesmo - alguém. Pessoas reais não preenchem buracos pessoais. 

A Juliette é uma pessoa normal. É engraçada como uma pessoa normal, mas também fala merda como uma pessoa normal (várias vezes eu fui pessoalmente atacada com coisas que ela falou sem pensar dentro da casa). É resiliente como uma pessoa normal, mas também quebra como uma pessoa normal. Quanto mais rápido o fandom culture compreender que pessoas são só pessoas - subjetivas pessoas, seres pensantes que erram todo dia e que sentem e que choram e que tem as mesmas 24h/por dia que todo mundo tem -, mais fácil vai ser pra todo mundo. 

E é por isso que nunca acaba essa busca por um herói ou heroína - aquela pessoa que vai salvar a gente, que vai tirar nossa tristeza, que vai ser tudo de bom concentrado numa pessoa só. Porque se tem um povo que sente a necessidade de ser salvo, esse povo é o brasileiro. É o que explica tamanha dedicação em louvar quem ousa oferecer um carinho mais genuíno, um abraço mais longo - quem ousa simplesmente ser. Mas é aquilo: calma Juliette, ele só foi educado.

Calma, Brasil. Ela só foi educada.