Pedro Sampaio: uma análise estética

 

Queridos jetinhos, feliz 2022!

Para ler ouvindo: Aquecimento do Pedro Sampaio - Pedro Sampaio, Mc Jefinho

O que aconteceu no final de 2021 foi uma viagem cósmica do que seriam os melhores dias da minha vida - exceto, é claro, por aqueles que antes já foram os melhores dias de minha vida, mas caíram no esquecimento. Existem fluxos temporais da vida que precisam ser seguidos, e dentre eles está esquecer o que houve no seu dia favorito do mundo aos 11 anos de idade, criar novas memórias que permanecerão memórias pelo avanço da câmera fotográfica e vídeos de alta resolução, e, é claro, a certeza de que cada fim de ano é um limbo-buraco-de-minhoca onde dias não são contados em 24h, seus gostos não são mais seus (e sim de uma comunidade), ninguém sabe mais trabalhar, tudo é muito feliz ou muito triste, é permitido beber às 9h da manhã e o algoritmo do lastfm não vale. 

Esse não é um texto de fã de Pedro Sampaio, mas, se fosse, ele seria assim: 

Pedrinho é fenômeno. É impossível estar infeliz ouvindo as batidas de Pedrinho. Num total de 15 músicas em sua carreira, o suficiente pra cobrir a viagem Luís Correia-Parnaíba (30 minutos), a playlist This is Pedro Sampaio foi meu escudo, minha proteção da atmosfera do mundo real, onde pessoas escutam Arcade Fire e uns bagulho bonito pra sair bom no Escutados De Dezembro. Em Dezembro não há escutados estéticos. Dezembro foi feito para começar com Mariah Carey e Michael Bublé e terminar com sequência de love love e sequência de vapo vapo. É o ciclo natural da vida.  

Existem ambientes específicos que intensificam a experiência de uma música. Como ouvir metal com raiva, ou Britney numa boate gay, é assim com Pedro Sampaio e uma casa de praia. O que você escuta numa JBL enquanto está vestindo um biquini? Adele? Pouco provável. É nesse contexto de brisa do mar e não saber se é segunda ou sábado que Pedro Sampaio cresce como um monstrão do Lago Ness, usando um chapéu de fazendeiro (muito embora seja carioca, é aí que está o Charme), bota cowboy e voando uns cavalos alados que obviamente foram plagiados do Lil Nas X, mas ninguém é militante entre os dias 22 de dezembro/02 de janeiro, então tudo bem. 

Tudo bem mesmo, porque no canal de Pedro Sampaio no Youtube há um upload com um REMIX entre Galopa e Industry Baby, onde a legenda é: For Lil Nas X with all my respect and love! É sobre humildade. 

É sobre a felicidade de ouvir Sentadão numa barraca de praia onde o preço da caipirinha está inflacionado, enquanto o Bruno Deluca está sentado do seu lado e devolve um drink porque não aprovou o gosto (fatos reais). É a felicidade de gritar com todos os pulmões PE-DRO SAM-PAI-Ô VAI quando Pedrinho fala "chama chama meu nome, pô", carregado de autotune. É apreciar o autotune! 

Sabe o que é lindo? É ter escutado todas as (15) músicas tantas vezes ao ponto de descobrir que Pedrinho lutou muito pra conseguir emplacar uma catchphrase. Ouvir uma música em que Pedro Sampaio não fala seu próprio nome pelo menos 2x é como ouvir uma música do DJ Khaled sem o icônico DJ-KHALED, ou uma música da Gloria Groove sem o Gloria GroooOooOove, ou uma da Pabllo sem o VittaaaAaaaAr. É a cereja do bolo. Nas mais antigas ele tentou emplacar o "Pedro Sampaio no beat ela vem", mas não hitou. Hit mesmo é o nome dele. 

Fim de ano tem realidades paralelas que só abrem no finalzinho de Dezembro pra começo de Janeiro. Zerar todos os vídeos do Pedro Sampaio no Youtube é uma delas. É quando você se encontra fazendo uma análise profunda sobre a estética e letras do PS numa quarta-feira 10h da manhã que você se dá conta do quão Fim De Ano este cenário é, todos seus amigos de pijama ao redor, o café recém passado em cima da mesa, glitter jogado no chão. 

Entender, por exemplo, que o clipe de Galopa é uma obra prima que visa no faroeste mas acerta no camp é uma proeza que somente dias de recesso podem entregar. Não há neste Brasil que Deus deu outro clipe que misture uma fazenda do interior do Piauí com senhorinhas correndo atrás de galinha e fofocando ao fundo "olha o pedro sampaio olha o pedro sampaio!!!" pra logo depois inserir uns glitters de CGI e fazer o Pedro Sampaio voar e sentar num cavalo alado. Isso é arte e poderia ser exibido num Met Gala 2019 ou reinterpretado pela Lady Gaga. Chuto que a única outra personalidade brasileira capaz de um feat monstruoso com a Gaga, além da Pabllo Vittar e quiçá eu mesma, é o próprio menino Pedro. 

O clipe de Galopa é mais camp que o filme House Of Gucci, e é inadmissível que o segundo esteja em burburinhos ao Oscar e o primeiro não. O bom de acompanhar a pequena gigante carreira de PS, nossa Lady Gaga carioca, é que, assim como a Gaga, nós nunca sabemos o que ele vai fazer a seguir. As certezas são a presença da catchphrase e dos termos bunda&sentada, mas só. Mas o estilo? A atmosfera? Não. Pedro não entrega nada, sempre uma surpresa. 



O canal de Pedro Sampaio no Youtube é uma experiência à parte. Somente depois de uma maratona bem dada dentro deste museu virtual você seria capaz de dizer, por exemplo, que o cenário do clipe Larissa é inspirado na garagem do Batman. Mas Pedro Sampaio é Pedro Sampaio, então é claro que tem cavalo também. Se você também apostou na bunda de Anitta, bingou. 

O clipe da música com a Anitta, inclusive, não é Larissa (o que não fez sentido na minha cabeça por um bom tempo), mas sim No Chão Novinha - um hit gravado em Belém do Pará que não entrará nessa lista pois, após deliberarmos, eu e minha tchurma decidimos se tratar de um Clipe Da Anitta - dirigido e montado e analisado e pensando e concebido por ela. Nesse casa nós só nos envolvemos com o processo criativo de Pedrinho, e se o processo criativo dele envolve garagem do Batman e cavalos brancos, assim há de ser. 


Canal de PS no Youtube também oferece um contato artista-público que poucos podem dizer que tem. Toda música é entregue com lyric video, dance video, clipe oficial, bastidores, a música sem a música (sim) e com sorte até uma live. Você aí, fã de Taylor Swift sofrendo por um clipe de um single que nunca existiu: escute Pedro Sampaio. Ele entrega tudo. Meu envio favorito tem que ser o vídeo PEDRO SAMPAIO - GALOPA (SÓ A VOZ, SEM A MÚSICA), que na minha cabeça foi ele mesmo que upou numa noite de internet boa, sabe lá pra quê, mas que é basicamente a voz dele autotunada sem batida, à capella, com os barulhos do cavalo atrás. Esse vídeo sozinho já merecia um post de felicitações, e eu veementemente recomendo sentar amigos na sala pra analisar essa obra de arte audiovisual. 

Minha teoria de que Pedro faz os próprios envios é o igualmente icônico vídeo que leva o título de PEDRO SAMPAIO, Luísa Sonza - ATENÇÃO ( Versão do Clipe só com OOMPA-LOOMPAS ), assim com espaço entre os parênteses mesmo.  Se você foi um tiete do canal de Pedro Sampaio como eu nesse final de ano, saberias que a maior animação de nosso menino foi ter o ator que faz o Oompa Loompa no clipe de Atenção. A gente bem sabe que a estética do clipe de Atenção foi mal vista pela internet - o slogan parecendo um grande tolete de bosta que faria o Bolsonaro chorar por não conseguir cagar -, mas me diga se tem algo de errado no ator Deep Roy fazendo um clipe inteiro dançando Pedro Sampaio? Não quero estar certa. 


Eu estou mais obcecada com essa estética Oompa-Loompa na frente de um caminhão de bosta da Luisa Sonza e do Pedro Sampaio do que vocês poderiam imaginar. Só não deixo passar o vídeo Atenção Performance Ao Vivo, em que Lu&Ps estão cantando em cima de uma bunda gigante toda cagada. Nesse ele falhou, mas depois de duas doses de sakê dá pra assistir. 

[Um ponto muito específico da música Atenção são as voltinhas do ãaaaao no refrão idênticas ao começo de A Very Potter Musical, algo que só eu e umas 3 pessoas fãs de Starkid conseguiriam correlacionar.]

É só depois de uma análise minuciosa do canal de PS que você descobre que ele mesmo dirigiu o Oompa-Loompa original via Zoom - e ainda lançou a braba sendo bilíngue num exercício da língua inglesa que a Anitta em anos de carreira não conseguiu entregar ainda. BC, avisa que é ele.

Minha música favorita dessa trajetória toda ficou a encargo d'o Aquecimento do Pedro Sampaio, um beatzão sussa em que as únicas letras da música são a grande catchphrase Pe-Dro-Sam-Pai-Ô e um remix com a música d'A Pantera Cor de Rosa, porque falar o nome dele uma vez só não era o suficiente, e ele transcendeu a colocar Duas vezes seguidas. Só não é melhor do que a chamada da catchphrase em Sentadão, em que Pedro lança uma "Felipe Original, fala tu que eu tô cansado", nos deixando a perguntar do que exatamente Pedro está cansado, vez que nem canta na música. Ícone. 

(Por algumas horas, eu e a tchurma acreditamos fielmente que o Felipe Original era uma criança, com minha namorada fanficando que seria o filho dele. Existe uma pesquisa no Google do meu celular agora com Pedro Sampaio Filho).

Mas meu clipe favorito pessoal segue sendo Bota Pra Tremer, um vídeo em que com um orçamento de 3 reais pra um design gráfico ele já entregou que veio pra jogo. 



Pedrinho é felicidade e dias perdidos no espaço tempo, com sol de praia e amigos que também não se viam nessa situação, mas responderam a algo que só o final do ano de 2021 poderia fazer. É dançar sem saber porque no beat ela vem mesmo, é se emocionar com a magnitude de uma composição que canta "tá louca tá doida tá louca tá doida tá louca tá doida tá louca tá doida", porque SIM, é verdade, ninguém está sã em Dezembro de 2021. Pedrinho pra mim é amar as pessoas que estão junto de você mais que demais, ao ponto de ser a mulher mais feliz do mundo ouvindo Galopa e rindo porque até o "BOA NOITE" do show dele é autotune - e caraca, que muleque feliz. É essa a energia que eu quero. Cantar com a Ivete Sangalo com meu autotunezão por cima, e tá tudo bem, porque o importante é ser feliz e rebolar a bunda. 

Esse é o esquenta perfeito pra quem planeja não ler um livro sequer até o Big Brother Brasil 2022 acabar. 

Eu desejo a vocês um 2022 repleto de energia Pedro Sampaio: sempre feliz e pedindo ajuda quando cansado, numa estética que vai do mainstream ao camp, com muito chapéu de cowboy e neon no maior rodeio de Barretos. Vivências mágicas e surrealistas que poderiam ter sido dirigidas por Ele, amigos na beira mar, um ano em que dançar Chama Ela é o ápice da felicidade.

E, é claro, um álbum de músicas novas de Pedro Sampaio. Chama meu nome, pô.


MET Gala é um museu a céu aberto


Não sei muita coisa sobre o MET Gala em si - exceto o que fora legalmente aprovado a ser demonstrado no filme Oito Mulheres e um Segredo (grande evento cinematográfico). Por falar em ótimos filmes, tenho certeza que um Diabo Veste Prada 2 abordaria o mais caótico evento da temporada, com Emily beirando um ataque do pânico e Andrea assistindo pela TV, se achando tão melhor do que tudo aquilo. Sei tão pouco, que até pouco tempo (ontem), eu realmente acreditava que aquelas pessoas eram convidadas a estar ali, pela própria Anna Wintour - alguém que eu suponho ter apenas seu nome atrelado a tudo, sem de fato decidir nada (preces e orações aos estagiários da Vogue). O que Anna decide por si, na verdade, é quem ela gostaria de ver de longe num lance de escadas, o filtro sendo famosos com os quais ela vai com a cara ou não, um trabalho deveras exaustivo. Caso selecionado, sua entrada é confirmada mediante PAGAMENTO (sim). 

O ingresso custa cerca de um 1kg de carne coxão mole aqui no Brasil (30 mil dólares). A não ser que, é claro, o artista seja selecionado a dedo por grandes marcas para entrar como modelo da própria grife, uma propaganda em troca de uma mesa com tudo pago, como uma vitrine humana da Versace - assim como a Pfizer propôs ao Bolsonaro. Mas isso, é claro, é reservado para artistas classe A, famosos que a mídia de fato Quer Ver -  o que me faz acreditar que as Kardashians/Jenners nunca pagaram um ingresso na vida, e isso não faz o menor sentido, assim como rico ganhando coisa de graça depois de ficar rico. 

Mas já estabelecemos que nesse blog nós não gostamos muito de falar de artistas classe A, nosso favoritismo sendo entregar furos de Classe C. Uma classe que tanto sofre, e que ainda tem de pagar ingresso de 30 mil dólares - fora roupa, maquiagem, passagens e jóias, um esforço subordinado apenas àqueles que não são importantes o suficiente para entrar nos melhores amigos da Anna Wintour. 

Aparentemente todo o dinheiro arrecadado é utilizado como fundos para o departamento de vestuário do Metropolitan Museum, o que, cá pra nós, me parece uma conversa fiada de um evento que UM DIA foi um baile beneficente e pareceu legal o suficiente para se tornar anual. Afinal, o MET não é conhecido pelo seu sucateamento e necessidade de constantes reformas, e, mesmo que fosse, ainda dava pra sobreviver com o valor meia entrada do ingresso atual. 

O que acontece lá dentro é misterioso como o verdadeiro propósito da maçonaria, ou no que consiste o fim de semana de um EJC (Encontro de Jovens com Cristo). Vez ou outra recebemos pequenos detalhes do que tá rolando (foto de prato de comida horrível, vídeo de 15 segundos dos anfitriões, cenas montadas em Oito Mulheres...), mas nunca a informação completa. O evento mais exclusivo dos Estados Unidos, nas palavras da própria Debbie Ocean (Sandra Bullock). Sei que em algum ponto tem uma exposição, e sinto pelo curador responsável por ela, porque é óbvio que ninguém liga. A verdadeira curadoria é de looks, no próprio tapete vermelho - um evento em que se paga não necessariamente para entrar, mas sim para posar na entrada. 

O tema deste ano (Na América: Um Léxico da Moda), teve o intuito de celebrar a moda norte-americana, dessa vez dividido em duas partes, para compensar nosso ano que não foi, 2020. Minha opinião pessoal é que o MET Gala sobreviveu tão bem à passagem do tempo porque a expressão artística da moda é uma que não morre. Não só isso, a moda como arte consegue relacionar todas as vertentes anteriores a ela, vide o MET de 2018 que trouxe a influência da Igreja Católica na moda (barroco, idade média) e o MET de 2019, com o tema Camp (dadaísmo, surrealismo). Não importa qual o tema, sempre terá o look que poderia ser a representação pós-contemporânea do mictório de Duchamp em forma de roupa, ou a Capela Sistina de Michelangelo. 

       
Ariana Grande, 2019, por Vera Wang

O que eu mais gosto de acompanhar na timeline numa noite de MET Gala é nossa comunhão em aceitar que todos nós, automaticamente, nos transformamos em grandes críticos de moda e cultura. Nenhuma opinião é desmerecida, todos nós mantendo nossos cargos na mesa dos jurados que não existem no evento original, mas deveriam, pois tornaria tudo mais divertido. Pra que inventar que o MET precisa de ajudar para manter fundos quando podem transformar todo o evento numa gincana de quem vestiu melhor, quem produziu melhor? Por que não transformar o baile no que ele realmente é, um evento da Capital de Jogos Vorazes? 

O MET não é um evento em que o principal é estar bonito. Você pode estar, porque beleza é um estado de espírito, mas não é esse o ponto. O ponto é essa competição silenciosa entre convidados e o tema estabelecido, como uma festa de Halloween em cidades não conhecidas pela celebração de Halloween, cuja melhor fantasia recebe um prêmio de 100 reais no final da noite. É sempre satisfatório esbarrar em alguém que entregou compreensão do tema e beleza, como uma redação bem estruturada do ENEM - mas é sempre mais divertido ler umas receitas de miojo.     

Desejo vida longa a todas as equipes que trabalharam e estruturaram um conceito para todos os looks a fim de abraçar o tema de 2021, já que do lado de cá a proposta de uma homenagem à moda americana me entrega uma infinita tela branca. O óbvio me ganhou pela falta de ideia própria, e por isso que, num primeiro momento, meus favoritos do tapete vermelho foram os mais clichês e mais fáceis de deduzir a ideia por trás - a arte clássica, quando o significado era o que estava em tela e nada mais. Isto é uma pintura de uma mulher, uma Madonna, e não tem muito o que desvendar além disso. Esta é uma pintura de Napoleão, e o propósito era ter uma figura de Napoleão. Às vezes a arte é só o que ela se propõe a entregar, plano, simples e óbvio, sem uma grande tese por trás. Eu consigo compreender a inspiração na Marilyn Monroe, na atmosfera vintage dos anos 70 e da óbvia presença do jeans na cultura americana, e a referência à Audrey Hepburn em My Fair Lady - o que não é muito difícil, todo mundo sabe quem é a Monalisa. 

Billie Eilish veste Oscar de la Renta
Ben Platt veste Christian Cowan
Kendall Jenner veste Givenchy


Não significa que é entediante, ou que tem menos valor - só significa que é algo feito para bater o olho e saber. E tá tudo bem, arte assim é uma delícia também, como um filme de sessão da tarde: algo mais agradável para uma sonequinha pós almoço do que bater cabeça com clássicos franceses numa quarta-feira. 

A moda é uma expressão artística extraordinária, não só por comunicar quem gostaríamos de ser, mas por conseguir atravessar todas as linhas do tempo de sua própria evolução num evento só. Se não fosse assim, todos os vestidos seriam uma homenagem aos anos 20, e o tema teria de ser adaptado para "Festa no Gatsby", a fim de que ninguém passasse vergonha internacional. Interpretação e subjetividade segue sendo nossa mais preciosa ferramenta, e é mágico como nossas mentes pensantes tão limitadamente ilimitadas conseguem criar conceitos do zero, conceitos esses tão bem trabalhados que o propósito não é o resultado em si, mas a execução pensante desse. 

Para mim, é essa a magia da arte pós-moderna, onde a obra de arte não é sobre o resultado ser um ovo cru numa plataforma giratória, mas sim no processo de pensamento do que significaria aquele ovo, naquela plataforma, naquela exposição. (Este é um exemplo real, o ovo cru giratório estava no MASP em 2017). 

Minha piadoca favorita do mundo das artes é aquela em que um estudante esqueceu de entregar o trabalho para exposição e, em desespero, posicionou-se do lado do material de limpeza do faxineiro, numa cadeira quebrada que estava sendo recolhida para manutenção, e sustentou tão bem sua visão para tal instalação que saiu com nota máxima. Muita gente sente vontade de arrancar os cabelos com essa história, seja ela verdade ou mentira. É a mesma gente que olha uma tela abstrata e diz que poderia reproduzir aquilo. 

E isso não é MÁGICO? Para muito além da cadeira quebrada, da lata de lixo, e do ponto de tinta numa tela branca, não é MÁGICO que nosso entendimento e compreensão podem ir além do que o resultado propõe? Não é mágico que possamos viver num mundo em que eu ache um outro conceito para uma cadeira quebrada, além de obviamente ser uma cadeira quebrada? Não é incrível que eu consiga ter habilidades básicas o suficiente de entregar o mesmo ponto colorido numa tela branca, mas com um significado completamente diferente? Vocês não sentem o coração BORBULHAR com todas as possibilidades de intenção e compreensão que o ser humano tem, ou poderia ter? 

Arte pós-moderna, man. Ovos giratórios. Por aqui o efeito é semelhante ao efeito da ida ao banheiro no MET Gala: adrenalina pura, fruto de 3 carreiras de pó milimetricamente dispostos na pia. (O que vocês acham que eles tanto fazem lá dentro? Procurem fotos de artistas com pupilas dilatadas, é divertido). Esse conceito abstrato é minha cocaína. 

CL veste Alexander Wange
Grimes veste Iris Van Herpen
Rihanna veste Balenciaga

O meu casamento com a arte é um que sobrevive aos embates do tempo e da monotonia rotineira pela sua constante tentativa de acolher o ambiente ao seu redor. Afinal, o que é uma nova vanguarda em construção se não for a luta e consolidação do entendimento político-social à sua época? Não tem como desassociar as duas coisas. Uma arte conservadora é uma arte pobre, que não abrange as peculiaridades de compreensão e sensibilidade que o processo artístico exige. Em pouquíssimas situações da minha vida eu consegui me expressar tão claramente quanto pedaços artísticos conseguiram fazer por mim, sem que eu sequer fosse obrigada a usar minhas próprias palavras. 

O que eu devo à arte é isso. É o presente que me fora oferecido, anos atrás, de compreender toda a subjetividade desse universo como uma ferramenta de auxílio para que eu pudesse ser eu, descrita, vista e lida de tantas formas diferentes, mas autênticas. É um sentimento, um que não consigo pontuar ou qualificar - uma inclusão que o meio social falha em oferecer, mas a arte nunca. 

Esses aqui, eu tive que digerir por mais um tempo. Não foi algo óbvio, claro e direto como os 3 primeiros - e nem poderia ser. Expressões artísticas com um subtexto mais complexo geralmente são os últimos a serem esclarecidos - para nós, telespectadores. Para eles, os acessórios entregando a mensagem, essa é clara desde a idéia. 

 

Elliot Page (foto 01) fez sua primeira aparição depois de apresentar-se como Elliot, seu primeiro evento público depois da transição. Vi diversos comentários em que a internet dava passe livre para que o Elliot usasse um terno simples, porque "é o Elliot, e ele é um anjo, então o terno preto simples está perdoado", mesmo que não haja algo que nós, como internet, odiemos mais do que o risório terno preto na noite mais importante da moda. Ainda assim, essa parecia ser a mensagem: incontáveis homens cis não se dão o trabalho de vestir algo além do terno comum. Elliot, um homem trans, se sentiu à vontade de ter sua primeira aparição fazendo o mesmo. Nem me veio à mente o propósito da flor verde na lapela. Até que eu descobri.

Um cravo verde na lapela já fora símbolo de Oscar Wilde, posteriormente de seus amigos e admiradores, transformando-o em algo que se tornou uma silenciosa e secreta ferramenta de identificação da comunidade LGBTQ+ à época. Na noite mais importante da moda, Elliot, pela primeira vez publicamente como Elliot, vestiu um terno simples. Um terno simples que muitos como ele ainda não tem a chance de vestir. E, junto disso, carregou próximo ao peito uma referência direta à Oscar Wilde, um poema condenado e preso por exercício de sua sexualidade. 

Oscar Wilde era conhecido por andar com um cravo verde na lapela - não somente como forma de identificação dentro da comunidade LGBTQ+, mas também pela compreensão de que uma flor com uma cor não-natural poderia ser uma a existir e resistir. Elliot Page não utilizou um cravo verde na lapela, e sim uma rosa verde, e pra mim essa foi a maior poesia da noite. 


"Ele gosta de mim. Sei que gosta. É claro que eu o lisonjeio demais, e sinto um prazer estranho em dizer coisas de que estou certo que vou me arrepender. Como norma, ele é delicado comigo, nós nos sentamos no ateliê e conversamos sobre uma porção de coisas. De vez quando, porém, ele é muito descortês, e parece sentir prazer em me causar dor. Nessas horas, Harry, sinto que sou tratado como uma flor de lapela, uma peça de decoração para deleitar-lhe a vaidade, um ornamento de um dia de verão." (O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde)

Jeremy Pope (foto 02) compareceu ao MET com uma roupa totalmente de algodão branco, com uma longa calda que transpassava em seu ombro, de modo a parecer uma gigante bolsa tiracolo. Com execução de Dion Lee, a roupa trouxe a memória da influência norte-americana em um tipo de vestimenta que uma noite como essa tenta esconder por baixo dos panos, ocasião em que Jeremy, genialmente, não só vestiu-a como também andou sob o tapete vermelho. A roupa faz alusão direta às vestimentas de pessoas pretas escravizadas nos Estados Unidos, trabalhando forçadamente em plantação de algodão, os longos sacos utilizados na colheita a tiracolo. 

É um lembrete genial de que, muito embora hoje existam celebrações gigantes de moda e cultura a fim de exaltar a história americana, essa história é carregada de herança escravocrata e sangue inocente. Foi essa a roupa e proposta que me deu minha foto favorita de ontem: não nas escadarias, não do evento em si, mas da representação do que pode-se criar para entregar uma mensagem:


Nikkie de Jager (ou Nikkie Tutorials, que surpreendentemente não é um sobrenome) (foto 03) está na internet como guru de beleza desde que eu passei a ter acesso à tecnologia. Foi só recentemente que Nikkie deixou de lado os pincéis de maquiagem pela primeira vez para tratar de um tema que por muitos anos manteve privado: sua transexualidade. Nikkie se viu forçada a tratar sobre o assunto publicamente após receber ameaças que sugeriram revelar "seu segredo" ao mundo, o silêncio custando um preço além de monetário. Nikkie lidou com elegância e honestidade, e escolheu reestabelecer o controle de sua própria história, como deve ser. 

Em um MET Gala que abriu as portas para influencers e tiktokers, Nikkie fez jus à oportunidade de estar ali. Podendo atravessar a escadaria do Met só com um look bem feito e bem montado, Nikkie escolheu permanecer com sua elegância e honestidade de sempre: o belíssimo vestido entregou uma homenagem à Marsha P. Johnson, uma travesti ativista de direitos LGBTQ+ nos Estados Unidos nos anos 60, e uma das principais figuras da Rebelião de Stonewall, marco da revolução e liberação LGBTQ+ em Nova York, ocorrido na data que hoje simboliza e comemora o Dia da Visibilidade LGBTQ+ (28 de junho). 

No corpo do vestido, Nikkie exibe uma faixa com os dizeres "Pay It No Mind". Quando questionada sobre o que significava o "P" em seu nome, Marsha P. Johnson afirmava ser P de "Pay It No Mind". Era sua resposta padrão quando perguntavam se era homem ou mulher. Em tradução livre: "Não Importa".

             

O simbolismo da rosa verde na lapela, da capa que se transforma numa sacola, nas flores e faixa com dizeres políticos, é o que ainda sustenta essa noite como uma noite não somente especial, mas essencial. 

É essencial na manifestação socio-política que parece ser silenciosa quando posta no meio de tantos vestidos da Versace em modelos magérrimas, mas que ainda assim está ali. Essencial na figura do Lewis Hamilton, que comprou uma mesa inteira para convidar e dar espaço a jovens estilistas negros em ascensão, todos vestidos em seu próprio design. 

Analisar as expressões artísticas dos convidados do Met Gala é o evento em si. É de fato como entrar num museu e andar de ala em ala, absorvendo as obras conforme elas se apresentam a você, entrando numa profundidade que te arrasta para uma nova visão além da superfície. 

Todos sabemos quem é a Monalisa, concordamos sobre isso. Mas requer sensibilidade para tentar descobrir o que Da Vinci tentava falar através de pinceladas, e que mensagem a imagem poderia guardar para sempre, sem precisar de palavras.  

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Happier Than Ever e SOUR são, essencialmente, o mesmo álbum

 

Os últimos anos da cena pop musical tem surpreendentemente sido um De Volta Aos Clássicos, o retorno de uma trend esquecida nos anos 2000 como uma calça jeans velha de cintura baixa. Adolescentes nunca pararam de fazer músicas sobre adolescentes, mas a celebração disso se perdeu no tempo, junto com fim da hype dos filmes Crepúsculo, só para voltar agora, na era do streaming e grupos de k-pop. Felizmente, a receptividade dessa cultura por vezes ridicularizada na figura da maior entidade do showbiz (a fangirl), hoje se consolidou em algo que toca tanto no rádio quanto nas trends do TikTok. Não importa o conteúdo ou o meio, ele vai chegar até você. 

Ouvi falar de Billie Eilish pela primeira vez depois da minha própria adolescência, quando ela ainda tomava Leite Ninho para dormir. CATORZE anos era a idade dela, quando a minha já era dezenove, e sempre foi fascinante, mas assustador, conhecer o trabalho profissional de pessoas mais jovens do que eu. Agora já tenho que fazer as pazes com o fato de que todas as novas aparições no universo musical, muito provavelmente, serão mais jovens do que eu - uma lembrança constante do meu próprio fracasso em não conseguir montar minha banda de garagem aos 12. Billie, naquela época, não tinha cabelo verde nem um álbum aclamado pela crítica ainda, mas seu nome constantemente aparecia em playlists e em círculo de amigos que gostavam de ouvir o que ninguém estava ouvindo.

Olivia Rodrigo não teve o privilégio que Billie Eilish teve - de surgir aos poucos, de caminhar lentamente até se estabilizar como um grande nome. Lembro que em algum ponto de 2021 pessoas foram dormir sem saber quem Olivia Rodrigo era, só para acordar no outro dia sem conseguir evitar de aprender a ponte de Drivers License nas primeiras cinco horas do dia, um looping eterno do mesmo vídeo, quando a Internet só falava da mesma coisa. E, por essa música em específico, e pelo instantâneo sucesso que ela teve, planos de EPs foram atualizados para a produção de um álbum inteiro no lugar - o que, honestamente, é genial, do ponto de vista econômico. Billie Eilish, aos 14-15 anos, teve alguns EPs feitos no porão da própria casa para chamar de seu, para integrar playlists de indie alternativo de alguma radfem. Olivia Rodrigo foi arrancada do próprio tecladinho de sua sala de estar para um estúdio de fazer dinheiro - o que é até injusto comparar, porque Olivia não tem um irmão que faz produções musicais num Macbook. Ainda assim ela entregou o SOUR, álbum de maio desse ano, responsável por mantê-la do topo de lista X com números Y etc etc adayada, insira aqui coisas e termos e números e recordes que eu não faço ideia do que significam. 

SOUR tem uma visão bem clara do que deseja (e consegue) passar: o conflito, a insegurança, a incerteza e a chatice da adolescência, quando você já tem consciência que faz tempestade em copo d'água, mas não é maduro o suficiente para racionalizar isso ainda - exceto em música. Foi quando Billie lançou seu segundo álbum (que por muitos é um lançamento amaldiçoado, depois que você ganha um Grammy com o primeiro), Happier Than Ever, que me ocorreu: ambos os álbuns são literalmente sobre as mesmas coisas. O conflito, a insegurança, a incerteza e a chatice, só que vistas em positivo e negativo, o mundo invertido de um Stranger Things musical.

SOUR abre com a que potencialmente é a melhor música do álbum, brutal, milimetricamente calculada para abraçar o momento da vivência de todo jovem em que o único desejo é gritar e falar que tudo é uma merda, quebrar guitarras imaginárias e usar lápis de olho para demonstrar luto espiritual no nosso niilismo adolescente. A música inteira é do ponto de vista de um dia que todos nós já vivemos, quando o café de casa acabou, o ar condicionado da sala de aula pifou, sua melhor amiga não te deu bom dia, você bateu o carro no meio fio ou seu chefe te pediu para ir no dia de folga. É um sentimento que ultrapassa gerações e vivências, muito embora esteja sendo cantado e representado por uma adolescente. A sonoridade remetendo ao pop punk de Avril Lavigne antes de ser substituída é só mais uma prova disso - uma mensagem atemporal, num som nostálgico, gritado por uma voz recente. brutal é a insatisfação com todas as esferas da sua vida, descontando isso no menor dos detalhes para não ter que lidar com a figura geral: eu NÃO sei estacionar um carro, eu NÃO tenho amigos, eu SOU BURRA, eu SOU ANSIOSA, eu QUERO DESAPARECER.  

A música que abre seu álbum-irmão mais novo, Happier Than Ever, grita as mesmas coisas - mas sem gritar. Getting Older começa o álbum com as mesmas perspectivas, as mesmas ansiedades, os mesmos medos, e se atendo aos mesmos minúsculos detalhes da vivência humana - mas o faz num sussurro. Getting Older é uma música de quase um acorde só, sempre no mesmo tom, uma monotonia que só o sentimento de estar completamente estagnado na própria vida pode passar. É até tedioso ouvir as mesmas notas por 4 minutos, até que faz o total sentido ser assim: essa frustração de esperar que algo aconteça na música é exatamente a mesma frustração de esperar que algo mude na sua vida enquanto você reclama dela. Enquanto sua irmã mais velha, brutal, trata das mesmas questões de maneira agressiva e até imatura, tendo que gritar para conseguir ventilar a própria frustração, Getting Older já está tão acostumada com ela que não se dá ao trabalho de desperdiçar mais uma gota sequer de energia. 

Enquanto brutal fala coisas como "tô tão exausta que quero me demitir / pra começar uma vida nova / mas todos vão ficar tão desapontados / porque quem sou eu, se não estou sendo explorada?", Getting Older devolve dizendo "coisas que eu antes gostava / só me mantêm empregada agora / coisas que eu anseio / logo, logo vão me deixar entediada" - o que é uma temática engraçada para tratar em álbuns adolescentes porque O QUE ESSAS GAROTAS SABEM SOBRE EMPREGOS COMUNS? Mas ainda assim. Quando brutal fala que deseja já ter feito isso antes, Getting Older menciona que gostaria de pelo menos saber que estaria fazendo isso sozinha. Quando brutal grita "CARALHO, ESTOU CANSADA DE TER 17 ANOS", Getting Older já inicia dizendo, em um sussurro, que acha que está envelhecendo bem. Ambas se sentem rejeitadas, ambas se sentem incompreendidas, ambas sentem a necessidade de inventar uma personalidade mais interessante e mais divertida do que a realidade - exceto que brutal faz isso com a delicadeza de dois sóis explodindo, e Getting Older faz com uma melancolia de quem já tentou o suficiente para saber quando parar de tentar. 

As duas músicas tem tanto a mesma atmosfera que brutal termina com um suspiro cansado de quem já colocou tudo para fora sem nem atingir a ponta do iceberg: Meu Deus, nem sei por onde começar... é a frase que dá o pontapé inicial na porta de sentimentos de Olivia Rodrigo para toda a experiência sentimental do SOUR, o momento que ela te chama para dentro da história. Getting Older encerra na mesma premissa, quando a última frase que Billie canta é "tive uns traumas, fiz coisas que não queria, tava morrendo de medo de falar para vocês, mas acho que a hora é essa". As irmãs terminam exatamente da mesma forma, dando a brecha para que o resto do álbum entre e conte sua história, como a abertura de um musical de história falada, como páginas de um livro encantado que você é levado para dentro e alguém tem de continuar lendo para ver o que acontece com você. Como em Xuxa: Abracadabra. 

Ambos os álbuns são em formato story-telling, Billie e Olivia tentando te contar uma história com o limite de palavras que elas puderam ter dentro de uma composição. São dois lados da mesma moeda, um SOUR geminiano e um Happier Than Ever leonino. O que define o tom de ambas as narrativas é a forma como elas contam pedaços do que, no final do dia, é a mesma história: um coração partido e o medo de envelhecer. 

Olivia continua contando sua história com traitor, uma balada sobre ter sua confiança traída por alguém que talvez nem soubesse que era confiado dessa forma, um sentimento quase que infantil, como ciúmes de namoradinho de escola. I Didn't Change My Number, o primeiro capítulo da história de Billie, muito embora soe mais adulta e madura que sua associada, tem a mesma mensagem: "não respondi sua mensagem porque tô puta", um sentimento igualmente infantil, mas com uma percepção de superioridade maior. Enquanto a primeira abraça o sofrimento como algo dela, a segunda o renega e faz pouco caso da péssima habilidade que tem em se comunicar. O tom que Billie decide usar em seu álbum, na verdade, segue essa mesma premissa sempre: estou sofrendo, mas sou maior que tudo isso, e você é um merda - ao passo que Olivia prefere escrever sinfonias no piano que moldam seu sentimento de maneira a gerar mais sofrimento, para assim ser curada. 

Em HTE, Billie deixa claro que seu método de tentar superar o que quer que tenham feito com ela é se colocar acima da dor - acima de todo mundo, na verdade. É o que ela debocha em Lost Cause Therefore I Am, por exemplo, se tornando indisponível não só para o amor romântico, mas também para relações interpessoais de qualquer gênero, se fechando em suas próprias paredes, boas demais para todo o resto. Olivia devolve no seu outro lado da moeda com músicas como 1 step foward, 3 steps back, enough for you e happier, músicas parecidíssimas em ritmo e letras, que é o que acontece quando se escreve três músicas sobre a mesma coisa. Com elas, Olivia repete e repensa no que já foi e no que poderia ter sido, ocupada demais com sua obsessão no que deu errado para notar que está se agarrando em algo que já perdeu, só para não ter que lidar com o fim disso. Enquanto Billie finge abrir mão e deixar ir da maneira mais blasé que consegue demonstrar, Olivia não nega ainda nutrir saudade do que não mais será. Billie não demonstra ter saudades, só ressentimento. Olivia demonstra ter os dois - a fusão de ambos, inclusive, acontece em deja vu.

É uma dicotomia interessante se analisada a primeira música de ambos os álbuns. Getting Older era a música e o entendimento que dava brecha para as músicas seguintes do álbum de Olivia, ao mesmo tempo que brutal era a brecha perfeita para o tom magoadamente desinteressado das demais músicas do Happier Than Ever. Parece que ambas decidiram começar em uma entonação e terminar em outra, ou simplesmente tinham sentimentos complexos demais para se ater a um só. 

É claro que quem fala de dor também fala de amor. Onde já se viu adolescente que não canta sobre estar apaixonado? Enquanto Billie, ao usar de seus (poucos) anos a mais, escolhe fazer isso de forma mais sexual, Olivia se mantem nas rédeas do romantismo Disneyano - que, não por nada, foi onde ela foi apresentada ao mundo. Halley's Comet, provavelmente a única balada do Happier Than Ever, entrega uma Billie acompanhada de um piano forte o suficiente para soar como Can't Help Falling In Love do Elvis Presley - que, propositalmente ou não, também é do que a música se trata. Essa é a composição e letra mais crua do álbum inteiro, e te pega desprevenido por ter um interlude dentro da própria música, uma melodia que parece as composições de La La Land. É uma música que passeia por várias atmosferas, vários meios, assim como o sentimento da qual ela trata: "já fui amada antes / mas nesse exato momento / sinto cada vez mais / como se tivesse sido feita para você". É uma delícia de música, mas sempre com um sentimento melancólico por trás, como se você confessasse seu amor sabendo que algo vai dar errado no final. 

O mesmo sentimento Olivia entregou em favorite crime, uma das mais românticas do álbum, muito embora trate sobre um término. Ao contrário do tom de todas as outras baladas de SOUR, essa toca em uma ferida diferente, uma vez que fica claro que o erro, nesse relacionamento específico, foi mútuo. Não foi Olivia sendo machucada unilateralmente como relata as outras, mas sim duas pessoas se machucando juntas, mesmo que sem querer. Dá a entender que ambas as partes fizeram coisas questionáveis em nome de ficarem juntas, e, mesmo com tudo acabando, a história permanece. As harmonias dessa música te elevam a uma atmosfera musical semelhante à Halley's Comet, como se você deixasse de ser humano por 2 minutos para virar só um coração pulsante de sentimentos, cantarolando "mas digo que te odeio com um sorriso no rosto" e depois gritando a todo pulmão "TUDO QUE EU FIZ SÓ PRA TE CHAMAR DE MEU"!

Billie Eilish nomeou o álbum de Happier Than Ever por um motivo: ela sabia que Happier Than Ever, a música, era sua maior carta na manga. Parece que ela levou o percurso do álbum inteiro para conseguir colocar para fora o que realmente estava sentindo: e essa música é isso, cada letrinha dela. Decomposta em três fases, a música entrega um sentimento que vai crescendo e crescendo e crescendo, ficando cada vez mais alto e mais honesto até explodir em sons escancarados, que só não cabiam nas músicas anteriores, e por isso ela não o fez. Por isso ela aguardou a construção gradual dessa. Pela primeira vez, Billie Eilish gritou, porque sussurrar não parecia o suficiente para grandiosidade de um coração ferido. De longe minha favorita do álbum, tudo que ela andou e falou até aqui culmina nos últimos 60 segundos dessa música - quando você ferve o suficiente para inundar uma cozinha de água quente. Olivia entregou sua semelhante antes mesmo do lançamento do álbum, em seu single drivers license, o que provavelmente é o motivo pelo qual esse momento, no contexto do álbum, não parece tão grandioso. Todo mundo já sabia como drivers license soava, como a batida explodia saindo do refrão para a ponte. Ninguém sabia até onde Happier Than Ever poderia chegar. 

Talvez Olivia tenha entregado sensação semelhante em good 4 you, ao dar essa vontade de sair gritando LIKE A DAMN SOCIOPATH! para qualquer pessoa que não é sociopata. Billie fez o mesmo em Happier Than Ever, na terceira parte da música, quando tudo que a gente queria era gritar numa arena cheia de gente JUST FUCKING LEAVE ME ALONE! Happier Than Ever talvez seja a junção de good 4 you e divers license, juntas numa música só e mantidas em segredo lá no finalzinho do álbum, para ser ouvida só no dia do lançamento. 

(Um ode especial à frase YOU MADE ME HATE THIS CITY, antes da quebra no refrão de Happier Than Ever, uma frase que anda de mãos dadas com I LOVE YOU, AIN'T THAT THE WORST THING YOU EVER HEARD? da Taylor Swift e YOU'RE THE ONLY MOTHERFUCKER IN THIS CITY WHO CAN HANDLE ME da St. Vincent.)

A música que encerra um álbum é tão importante quanto a música que o inicia. hope ur ok é a última música do SOUR, uma quebra de expectativa quando você percebe que Olivia não está cantando para o mesmo garoto das 8 canções anteriores - ou está, mas o faz com outra mentalidade. hope ur ok trata de realidades que não são dela, mas ela o faz de maneira genuína e empática. É uma quebra de expectativa porque, para um álbum totalmente sustentado no Olivia-centrismo, escolher fechá-lo com uma carta de amor à pessoas que ama poderia soar deslocado, se não fosse feito com tanto zelo. Pessoalmente, penso que em um álbum tão explosão-sentimental-adolescente, essa faixa carrega as letras mais pesadas e intensas delas. Olivia sutilmente pontua o sofrimento de outros jovens, jovens como ela, mas que sofrem em perspectivas completamente diferentes - e ela o faz tanto de maneira a aproximar seu próprio sofrimento de coração partido como universal como também a afastá-lo de problemas mais sérios, mais pesados, mais longo prazo. hope ur ok termina como esperança entregue numa bandeja, como uma visão artística que consegue ir além dos próprios sentimentos ao absorver outros. 

Billie termina o Happier Than Ever no mesmo tom - não dando espaço para outras questões, mas sim finalmente dando espaço para ela própria. Depois de libertar tudo em Happier Than Ever, a penúltima faixa, Billie já se demonstra honesta o suficiente na última. Male Fantasy desfaz toda a narrativa montada ao decorrer do álbum, em todas as canções que reforçam definitivamente não querer mais nenhum envolvimento com quem te faz mal. Aqui, só no final, Billie se mostra vulnerável o suficiente, depois de gritar seus pulmões para fora, para dizer que "não consigo superar você / não importa o que eu faça / sei que deveria / mas nunca poderia te odiar". Billie confessa, no encerramento do álbum, que tudo que cantou no decorrer dele era só uma persona, tentando fingir até ser verdade, só para concluir que o sentimento não foi embora, não importa o quão alto tenha gritado. Ao contrário de Olivia, que cantou músicas o suficiente sobre seu sofrimento para conseguir encerrar o álbum tratando de um assunto que não esse, Billie passa o álbum inteiro evitando sua própria dor só para, no final, perceber que ela ainda está ali. 

É claro que os dois álbuns tem suas dissonâncias: Olivia fala muito de inveja e ciúmes, sentimentos que provavelmente vêm da sua vida como uma garota anônima - o que ela já não é mais. Provavelmente não serão temas revisitados em seu segundo álbum. Foi o que aconteceu com Billie: por já ser mais experiente no ramo, substituiu tais momentos em seu álbum para tratar de perseguição midiática, stalkers e fama indesejada. Quanto à percepção do público, enquanto Olivia deixa claro que é uma adolescente em crescimento, Billie dá dicas disso, mas prefere se portar como se já tivesse passado dessa fase. Olivia referencia Glee em suas músicas, Billie referencia The Office.

Ainda assim, quão complementares são esses álbuns - ambas lidando com parecidas peculiaridades da juventude de maneira totalmente diferente, atingindo diferentes resultados.

Ai, ai... Quão complementar é a dor humana...

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Nota da Autora: esse texto de forma alguma quer gerar comparação das duas obras de maneira a rivalizar dois trabalhos diferentes, mas sim a apreciar dois belos trabalhos.


Casais hétero construídos na narrativa LGBTQ+


Can we get back to posts leves e conteúdo irrelevante? Please? Yo-

Quando fiquei obcecada pelo casal Jo e Alex de Grey's Anatomy - uma série já conhecida como um símbolo dolorosamente hétero da cultura pop - percebi uma coisa: nós, os telespectadores*, não temos mais interesse pelo já ultrapassado clichê de relacionamentos heterorromânticos do qual foi formado os anos 2000. 

*Com base no meu algorítmo de seguidores do Twitter.

Explico: 

Jo e Alex foram a excelência enemies to lovers que uma série como Grey's Anatomy conseguira oferecer. Não era ótimo, mas também não era péssimo, e obviamente eu precisava espalhar pro mundo, muito embora ninguém mais assistisse drama médico em 2020 - exceto minha própria namorada, que também é dolorosamente "hétero". Lembro que cheguei pra uma amiga e muito seriamente disse que precisava apresentar esse novo casal a ela, que eram o epítome da comédia romântica dentro de uma série dramática que 20 anos atrás costumava ser boa. Disse que tinha tudo que as boas comédias românticas devem ter: começavam se odiando, ambos traumatizados, tinham o momento mais importante de conexão num casamento!, em que foram de encontro dublo sem saber que seriam acompanhantes um do outro!, e que a partir de então viravam amigos, e ele obviamente se apaixonava por ela, mas não podia falar de cara, pois é claro que ela era uma interna e ele chefe de pediatria. Uma delícia de drama romântico. 

A resposta que eu tive foi: "é casal hétero? Tô sem paciência pra casal hétero."

E aí eu comecei a pensar no quão ultrapassado, de fato, é o padrão de qualidade romântica na cultura pop centralizada em casais héteros. Finalmente - e de repente - a gente começou a ter diversos conteúdos com ênfase LGBTQ+, bons conteúdos, em uma velocidade que não nos obriga mais a engolir qualquer romance ordinário. Temos opções agora, opções mais próximas da nossa realidade, opções que não existiam antes, ao ponto que nem precisamos mais assistir todos os filmes adolescentes que a Netflix lança, a fim de preencher um buraco que só uma comédia romântica preencheria. Não! Temos outras coisas, outras leituras, outros casais disponíveis que não são um personagem meia boca do Noah Centineo.

No entanto, mesmo sabendo de tudo isso, Jo e Alex ainda representavam um casal fictício importante pra mim - daqueles que você realmente se interessa, se importa, e pesquisa gifs no Tumblr como se ainda fosse 2012. Parecia simples demais rebaixar um enredo tão rico a um simples casal hétero normal, como todos os outros. Eles tiveram noivado de mentira! Um casamento que deu tudo errado e eles nem estavam por perto pra ver, porque fugiram pra transar! Eles nem se deram o trabalho de planejar o casamento, contrataram uma amiga pra fazer isso e riram juntos de tudo que ela escolhia! Problemas com abandono parental e confiança! Festas de Halloween, festas de ano novo, uma lua de mel em que ela não parava de trabalhar por inspiração repentina, e ele apoiava isso! ROMANCE!


E aí uma luz acendeu na minha mente, um pensamento iluminado pela expansão cerebral que é notar algo que estava na sua frente e você só não percebia ainda:

Oh. [leia na entonação da sua fanfic favorita]

Todos os casais héteros que eu ainda gosto, eu gosto porque eles tem a essência que casais LGBTQ+ teriam. 

Me escuta, faz sentido: 

Existem alguns pré-requisitos pra que um casal LGBTQ+ exista na cultura pop. São requisitos silenciosos, mas ainda assim seguidos até hoje em salas de produção, atributos que sempre são inseridos no cenário homorromântico, conscientemente ou não. 

O RELACIONAMENTO (SAUDÁVEL) PROIBIDO

Convenhamos: o que grita mais GAY do que relacionamentos escondidos dos olhos públicos? Por qual outro motivo um casal teria de se esconder, de manter-se trancado à 7 chaves, se não por um grande motivo social e cultural de depreciação da realidade queer? Vez ou outra um casal hétero entrega esse mesmo atributo, por motivos bem mais irrelevantes e pedantes do que a manutenção da própria sobrevivência e integridade, e é  que surge a linha tênue entre o drama desnecessário do casal hétero fingindo ter os mesmos problemas de um casal queer e o drama DELICIOSO que é um casal hétero entregar tão bem essa problemática que, uma vez tirados os nomes e a identidade de gênero, poderiam oferecer o melhor dos romances gays já vistos.

Grey's Anatomy, muito embora conte com sua cota preenchida de personagens LGBTQ+ ao longo dos anos, ainda é o símbolo da cultura pop que mais nos entregou casais héteros icônicos. Vez ou outra um desses casais, muito embora ainda obedecendo o padrão, vai cair nas graças do público LGBTQ+, por um motivo que nem eles compreendem. Com tanta nova e boa opção de conteúdo queer, qual é o detalhe desses padrões que ainda nos atrai, que nos faz adotar casais heterossexuais como nossos pais, como parte da nossa personalidade? Eu tenho muito tempo livre (mentalmente falando), então eu descobri o motivo.

Quando eu digo que Grey's é uma série dolorosamente hétero, não é porque o conteúdo é integralmente hétero. Pelo contrário, a agenda gay de certos enredos foi, por muita vezes, bem explorado e extremamente necessário. Pra mim, o que significa ser um produto configurado como Produto Hétero é o público que o consome com afinco, e levando em conta que minhas tias crentes são obcecadas pela série, não custa descobrir que tipo de público sustenta Grey's Anatomy no ar até hoje. Sabe coisas gays que são feitas para pessoas héteros, e coisas héteros feitas pra pessoas gays? É isso.

Algumas coisas ultrapassam o público para o qual o conteúdo foi feito, assim não é preciso ter visto a série pra conhecer o discurso inteiro da cena "I'm infected by Mark Sloan". Curiosamente, se você digitar "i'm infected by" no Google, a primeira resposta é "by Mark Sloan", e a segunda "by coronavirus", comprovando que a popularidade do casal Mark Sloan e Lexie Grey consegue ser maior do que uma pandemia mundial. 


Foi só esse ano, em 2021, que eu vislumbrei a magnitude de Mark e Lexie, quando a nova temporada de Grey's retornou com Covid-19 e mortos (gringos imitando Amor de Mãe, que retornou com Covid e lésbicas). No novo plot, Meredith (irmã mais velha de Lexie e protagonista da série) encontra-se num universo paralelo entre a vida e a morte, onde constantemente reencontra vários dos personagens posteriormente mortos pela assassina Shonda Rhimes. Quando Mark e Lexie (re)apareceram em cena depois da trágica saída de ambos, a Internet virou aquele lugar mágico e assustador que todo mundo está falando da mesma coisa, ao mesmo tempo, na mesma intensidade.

Mark e Lexie não entregaram um romance proibido capaz de gerar prisão na Rússia, mas tiveram todos os altos e baixos dramáticos que um relacionamento com diferença de idade conseguiria ter, incluindo uma filha de Mark com sua melhor amiga bissexual, Callie. Aliás, o que grita mais "welllll to be honest I'm a hetero guy but I really try to be a good ally" do que ter uma filha com uma mulher bissexual latina? No fundo do nosso subconsciente ficou registrada aquela imagem de Mark Sloan como um grande defensor dos direitos LGBTQ+, o que é o mais perto de justificar tanto carinho que recebe da comunidade - porque, convenhamos, caso interpretado com um pouco menos de carisma e gostosura, Mark Sloan tinha de tudo para ser um homem-puta desprezível (LEMBRAR que existe um episódio inteiro dedicado à greve das enfermeiras se recusando a trabalhar com ele, formando um clube chamado Enfermeiras Unidas Contra Mark Sloan, ameaçando abrir processo sindical sustentado em assédio sexual. Ehrem).


O que, então, cativou tantos telespectadores gays em um hiper-sexualizado, cínico, maior vetor de doenças sexuais dentro de um hospital - além de, é claro, todos esses fatores? A interpretação do Eric Dane a entregar o personagem e, é claro, seu relacionamento com a única personagem capaz de ser seu completo oposto, Lexie Grey. 

Acompanhar um casal que não pode ou não consegue ficar junto com a tranquilidade e normalidade de casais "convencionais" é um ponto de pressão extremamente delicado pra comunidade gay. É nessa teoria que eu centralizo todo esse texto: nessa figura silenciosa que é amar certo casais comuns e tradicionais que oferecem atributos de amor proibido e ameaçado, enredos que batem perto demais da casinha. 

Lexie e Mark se perderam um do outro tantas vezes - e tão frequentemente - que morreram sem saber se estavam juntos ou separados, jurando amor eterno um ao outro antes de terem seus corpos comidos por animais (vdd, essa série é doida). O motivo de tantos desencontros nunca foi referente aos sentimentos de ambos, a única coisa contínua entre os dois do começo ao fim, mas sim pelos empecilhos da "vida real", pelo que significaria pra ambos continuarem juntos, constantemente se afastando, tudo justificado na tentativa de fazer "o que é melhor pro outro". Soa familiar?

Um clássico já conhecido por todos os entusiastas de romance é o abrir mão achando que o melhor para o objeto do seu afeto não é você mesmo. A humanidade por si só é complexa demais pra reduzir esse sentimento à uma característica gay, qualquer pessoa podendo ser vítima de auto-aversão nessa economia, mas já estive em alguns relacionamentos sáficos (dois) pra dizer com propriedade que, pra gente, isso é uma tarde normal de quarta-feira. 

Um outro casal da ficção que entregou esse sentimento com maestria, tão deliciosamente bem feito, foi Sutton e Richard, de The Bold Type. Esse é um casal hétero sem ressalvas, que é o que acontece quando um homem é escrito por uma mulher millennial que ainda fala de feminismo com a mesma força que todo mundo falava em 2015. Aqui o mercado de trabalho (gosto como essa é a desculpa universal pra que um casal hétero tenha um romance proibido) é, de novo, o antagonista: ele trabalha como advogado da editora em que ela é uma simples assistente, é claro. No entanto, a ~~ambientação desses dois é tão mágica e gostosa, que todos os clichês parecem de muito bom gosto, e dá até pra chorar emocionada com cenas em que eles se pegam escondidos dentro do elevador nos intervalos, um privilégio que só cenas que entregam tensão sexual palpável a ponto de cortar com uma faca conseguem ter. 


Sutton e Richard entregam gloriosamente a raridade que é acertar um casal hétero cis branco numa cesta recheada de subtexto gay, e é tão sutil que você, como telespectador, não nota que isso sequer está acontecendo - até se pegar torcendo pra que este casal completamente NORMAL possa ter um encontro no parque e andar de mãos dadas!! Por um segundo você pode se sentir ridículo de se prestar ao papel de quem chora pra um homem rico e uma mulher branca se beijarem em público, mas, ei, tudo em nome do Bom Romance, certo? 

Acredito que o Bom Romance de Sutton e Richard seja tão bem construído porque, muito além dos Detalhes que já eram direitos de nascença do público LGBTQ+, o padrão de masculinidade e feminilidade é propositalmente quebrado nesse casal, uma vez que a própria premissa da série é celebrar pautas pro-feministas. É por isso que [SPOILER QUARTA TEMPORADA] quando eles se casam, por exemplo, bate num pedaço bem mais especial do coração quando é o Richard a andar até o altar para encontrar a noiva, e que é sempre ele a abdicar das próprias vontades pra satisfazer as dela - muito embora eles reforcem constantemente que ele é um cara de 40 anos e ela uma mulher inconstante de 25. 

É claro que, assim como qualquer outro ordinário casal hétero, esse aqui também chegaria num ponto do enredo que o único drama restante seria, bom, enredos dolorosamente héteros, é claro [quinta temporada]. Mas mesmo assim, mesmo com essa quebra de expectativa do plot perfeito, Richard continua se encaixando naquela categoria do nosso Homem Branco Feminista Favorito, que recebe nosso biscoito de vez em quando, e que na vida real seria aquele namorado legal da nossa melhor amiga, que dá carona no pós-festa e tira brincadeira na mesa do churrasco pra se enturmar. 

Às vezes acontece de o namorado legal da melhor amiga já ser do grupo de amigos, e, na ficção, esse foi o único casal de excelência com namoro escondido que eu encontrei que não envolvia a proibição do relacionamento em cima do diferente cargo de trabalho, e sim na já preexistente relação de amizade dentro de um grupo só. Pra começar, Monica e Chandler recebem selo de excelência Casais Héteros Para Pessoas Gays porque ambos, juntos e separados, exalam energia bissexual. Dividir apartamento com melhor amigo gostoso é coisa de gente gay - gente hétero ou mora sozinho ou mora com os pais. Não surpreendentemente, ambos viveram anos como os locatários de Joey e Rachel, e isso por si só é gay, mas ache o que quiser. 

Chandler e Monica são exemplo de excelência independente do tema que estivermos abordando, é claro, porque é da natureza deles já nascerem Aclamados. Aqui, o trope friends to lovers ainda oferece a cereja do bolo que é o namoro proibido/escondido, inicialmente privado aos olhos dos amigos e familiares, mesmo sem nenhum motivo aparente - me mande um e-mail agora QUEM que nunca ficou com um amigo? 

Ainda assim, mesmo sendo desnecessário, é algo que funciona bem demais, tanto pro enredo quanto pro desenvolvimento de ambos os personagens. Com Monica e Chandler, assim como na relação de Sutton e Richard, também existe a quebra de expectativa do que seria o "esperado" de um casal padrão como os dois, o maior exemplo sendo o pedido de casamento feito e organizado por Monica, e não por Chandler - o que, *CHEF'S KISS*, é um grande momento de roteiristas que entendem e conhecem seus personagens, de tão on character que é a decisão de ser feito dessa forma: Chandler, que não acreditava em relacionamentos e vivia assustado com a ideia de assumir compromissos; e Monica, que compreendia as limitações do companheiro e, obedecendo seu maior traço de personalidade de controlar e planejar tudo, deu o grande passo de cuidadosamente pedir para que Chandler abrisse mão de seus bloqueios pra que ela pudesse ajudar a carregá-los. 


*Sighs* Como é bom amar o amor...

Infelizmente nem tudo são flores e velas, e definitivamente nem tudo é interessante como Slexie, bem feito como Sutton e Richard, ou clássico como Mondler. Às vezes os já citados requisitos, quando não são bem executados, vira uma grande desesperada bagunça hétero. O que nos leva ao

RELACIONAMENTO (NÃO-SAUDÁVEL) PROIBIDO

Tem uma diferença - uma linha que nem é tão tênue -, entre um relacionamento que é proibido por questões profissionais, abstratas e pessoais... e um relacionamento que é proibido por ser ilegal, por exemplo. [risos nervosos]

Não tem um exemplo mais no ponto do que Aria e Ezra, de Pretty Little Liars. Muita gente vai tentar colocar os mas. Ele era o professor dela, mas. Ela era menor de idade, mas. Sim, hoje em dia parece estranho, mas. Estou ciente dos mas, afinal eu também amo boas cenas românticas de casais tirando foto com sacola na cabeça, ou tendo que ir sair da cidade para se encontrar. No entanto, a essa altura do campeonato, eu vou bater palma pra homem adulto levando adolescente pra Filadélfia escondido porque, caso a beije na rua da própria cidade, pode ir preso? Parou, né. Soa até de mal gosto que eu apoie uma coisa dessas. 

Ao contrário de Richard e Sutton, duas pessoas adultas, Ezra, no começo do relacionamento dos dois, já tinha seus 22 anos - ao passo que Aria, sua aluna, tinha 15, abaixo até mesmo da idade legal de consentimento nos Estados Unidos. 

(foda que é muito boa essa cena aí)

Irei, clandestinamente, rever uma cena ou outra dos dois que marcou minha adolescência? É claro. Vou sempre lembrar que esse casal foi literalmente responsável por enfiar na minha cabeça que minha paixão por um garoto de 21 anos que flertava comigo quando eu tinha T R E Z E era de bom tom e totalmente aceitável? Vou também. 

Perigo isso, gente. Perigo. 
Mas se uma diferença de 7 anos de idade assusta, imagina uma diferença de 87 (oitenta e sete)?

Olha, eu não estou dizendo que Bella e Edward representam um casal a ser questionado na cultura pop aos nossos padrões sociais, porque lançar algo assim na Internet é o mesmo que me amarrar na fogueira e atear fogo - mas se eu ESTIVESSE falando algo assim, eu teria meus motivos.

Quando o relacionamento entre um homem e uma mulher cis não é proibido por cargos diferentes no trabalho, por (visível) diferença de idade, ou por dividirem o mesmo grupo de amigos, o que resta pra proibir? Um deles ser um vampiro de 101 anos, é claro. E não somente: sua vontade constante de matá-la. Ou a vontade constante de seus familiares de matá-la. Ou a vontade constante que os chefões da máfia vampírica na Itália tem de matá-la. Ou a vontade constante que todos os vampiros da região tem de matá-la. Basicamente eu acho que, se tudo no relacionamento resulta no risco de sua própria vida, já tem no mínimo umas 39 bandeiras vermelhas levantadas e rodopiando no ar. 

Bella e Edward ficam naquele limbo de coisas maravilhosamente terríveis, ou terrivelmente maravilhosas. Não dá pra saber muito bem o que a Stephanie Meyer, uma crente, ao escrever uma personagem inspirada nela mesma (kk) que só pensa em foder um vampiro, quis dizer com toda a história... Mas também sei que, resumir a saga Crepúsculo nessas poucas e vagas opiniões, é tratar de maneira relevante todo um enredo sobre vontade de poder, vontade de abdicar poder, falta de livre arbítrio e vida eterna. 

É nesse sentido que Bella e Edward tornaram-se absurdamente BÍBLICOS pra mim, e a essa altura vocês já devem saber que se tem uma temática que me interessa é subtom cristão em pautas LGBTQ+. A presença de tamanha culpa cristã e preocupação sobre o que resultará para a alma da pessoa amada o fato de Estar Com Você é algo que só aparece uma vez a cada duas luas, e só tem duas causas: ou você é um vampiro que viveu lá por, sei lá, 1900 - OU você é gay que cresceu em lar cristão. Pra resumir em miúdos: o Edward representa o gay que cresceu na Igreja, e a Bella representa a companheira que não dá a mínima se vai pro inferno ou não, desde que ela transe. 

Apenas casais com uma tonalidade bíblica seriam capazes de entregar tanta tensão, sacrifício, proibição, sacrilégio, pecados, inferno e vida eterna num contexto só - e isso só vem, de verdade, em enredos gays ou enredos de qualquer um dos filmes da saga Crepúsculo. Mais do que o relacionamento proibido dos dois, o envolvimento por si só significa o peso da condenação eterna, pelo menos aos olhos do nosso protagonista Edward Cullen - e Bella Swan o ama tanto que está disposta a abrir mão da própria alma pra estar com ele. Se isso não grita PROBLEMAS DE CASAIS LGBTQ+ pra você, não sei mais o que pode gritar.  


[Hoje o meu desafio é que vocês assistam Lua Nova como se fosse um filme gospel de romance LGBTQ+ alto orçamento.]

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Prometo que não estou com minha agenda gay transformando todos esses casais héteros em casais gays. Isso eu faço com músicas da Taylor Swift e o triângulo amoroso Betty x James x Augustine em Folklore. Mas se a vida é só assistir e ouvir música, por que eu Não interpretaria grandes casais da ficção do modo como eu bem entendo na minha própria vivência pessoal? 

Delicioso é procurar teor gay em todo lugar.
Diz a mulher que denunciou diversos graves casos de queerbaiting ao longo dos anos. 
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