Ninguém quer ouvir a sua voz (e outras reflexões)


Durante algum momento da mudança de comportamento social juvenil, a consolidação do entendimento da geração Millennials como um estilo de vida e o fim de Gossip Girl, uma verdade foi compreendida e propagada pela humanidade: você tem uma voz, e deveria usá-la. Musicais inteiros foram escritos, séries de tv foram planejadas, contas de Instagram comparecem em todos os extremos, Youtube virou uma carreira consolidada, e opinar - na Internet ou na vida real - nunca foi tão, tão fácil. "É a minha voz!", você deve ter pensado alguma vez, "e eu tenho algo a falar". 

O script de A Star is Born (roteiro de Bradley Cooper & co), disponível online, é surpreendentemente um compilado perfeito de metáforas e reflexões sobre usar sua própria voz. Em minha rápida e leiga análise, conscientemente ou não, o filme inteiro acaba sendo sobre a incessante busca de falar e ser ouvido. Em uma das minhas falas favoritas, por exemplo, Jack diz a Ally que talento tem em toda esquina, que provavelmente todo mundo que você conhece é talentoso em alguma coisa - mas que ter algo a dizer e ter pessoas te ouvindo era algo bem diferente. Posteriormente, ao ser abordada por um produtor musical, Ally também o escuta dizer que "há pessoas que precisam ouvir o que você tem a dizer musicalmente" - que é um orgasmo pra qualquer artista.

Não somente, quando Ally tem seu debut no mundo pop - agora escondendo-se atrás de uma persona robotizada pela indústria que já engoliu sua voz original -, Jack volta ao centro de todos os seus discursos durante o filme ao dizer que "tudo o que você tem é você mesma, e eles te escutam agora, mas não vão escutar pra sempre".  

"Então diga o que você tem a dizer... porque a forma como você diz é coisa de anjo". 

Romance. <3

Cresci e me criei romantizando a ideia de entregar pro mundo o que eu sentia e acreditava - porque era importante que eu fosse ouvida. Na vida adulta, reforçar essa ideia era inevitável, uma vez que fui uma criança silenciosa, amedrontada com a simples menção de ser obrigada a falar meu nome em público. Quando crescendo, as pessoas nunca me ouviram - mas eu tinha algo a falar. E ao adentrar na juventude eu só... descubro que posso? Com mídias e músicas e solos do Ben Platt não somente me validando como me incentivando a falar tudo que eu quisesse? A distribuir todos os meus pensamentos? Parecia mágico.

Mas todo mundo tem algo a falar. Todo mundo. Aprendi isso depois de anos me sentindo especial, achando que só eu tinha monólogos internos bons o suficiente pra entregar ao mundo, que só o meu ponto de vista era iluminado. Só foi depois de muitos embates via stories do Instagram sobre política e amizades vítimas de opinião disfarçada de "eu sei mais do que você" que eu percebi que - É. 

Ninguém quer, na verdade, ouvir a sua voz. 

Depois de anos e anos me criando na Internet, concluí que o que todo mundo quer, na verdade, é um amaciante de ego. Sabe lavar a roupa e ficar com cheirinho de lavanda? Esse tipo de amaciante. Se a sua voz está de acordo com o que eu acredito, com uma opinião minha que já está formada, então eu escuto, pois vale à pena. De todos os textos que já escrevi, de todas as colocações que já fiz, nas diversas vezes que me responderam em agradecimento às minhas palavras... não era exatamente um agradecimento pela minha voz. Era um agradecimento por minha voz ser exatamente o que você queria ler. Ou o que você estava pensando e não soube como dizer. "Minha voz", essa voz que me coloca gritando por tantos lugares, não estaria sendo apreciada e louvada se não fosse só... um compilado de opiniões que já eram suas.

Dias atrás fiz um formulário com questionamentos sobre política, com perguntas básicas sobre entendimentos pessoais sobre interpretação de direita e esquerda, o que entendiam por fascismo e comunismo, se o PT tinha sido um partido de extrema esquerda. Vocês sabem, esse tipo de coisa que a gente já sabe a resposta. O intuito era analisar os resultados e escrever sobre como o falatório político (aqui, claro, tendenciosamente me referindo à extrema direita) usa de termos e ideias que o orador sequer sabe o que significa. Eu não pude, no entanto, publicar essa enquete no Twitter. Porque a resposta seria a mesma. Uma pesquisa em que 100% do resultado são pessoas entre 16-29 anos com tendências pendendo pro lado esquerdo e concordando que o governo atual flerta com o fascismo - o que é verdade, é um fato, mas concordância total de dados? Numa pesquisa? Não seria uma pesquisa, seria uma conversa de bar com meu círculo de amigos.

Será que a gente viveu o suficiente na Internet não pra virar herói, mas pra virar... exatamente o que Eles dizem que nós somos? Eles - uma corporação de homens dos anos 80, mãe e tias fofoqueiras -, que nos repreenderam nos almoços em família com "lá vem a doutrinada", que prometeram que todo e qualquer discurso jovem fundamentado em posts de Internet era "genérico"... Vivemos por aqui o suficiente pra dar razão à Eles?

Nossa série favorita do momento, The Bold Type, é tão explicitamente criada e pautada em dar voz a todas as questões sociais e midiáticas possíveis de caber num espaço de tempo de 40 minutos que, por vezes, dei uma encolhida quando me serviram o tabu bem quebrado. Me pergunto quando nós passamos dos adolescentes com a necessidade de gritar sobre feminismo e suas subdivisões pro nosso desconforto físico ao esbarrar com algo que é woke demais para 2021. A problematização da problematização, não é assim? 

Internet, a gente entrou num paradoxo. 

Nosso buraco de minhoca nos levou de um extremo a outro. O que antes era um distanciamento necessário e orgulhosamente bem feito dos preceitos e entendimentos dos nossos pais, hoje é só... exatamente o mesmo, só que no mundo invertido.

Descobri então que a filosofia tem um rolê pra explicar isso - porque é claro que tem, filósofos sendo filósofos. Aconteceu de Hegel um dia espalhar por aí algo conhecido como "Teoria da Dialética", dialética essa que era a raiz pela qual nós tínhamos a capacidade de produzir conhecimento. Aconteceria assim: primeiro você tem uma tese (uma idéia, um pensamento). Depois, você desenvolve uma antítese, que é um pensamento contrário à sua tese original. No fim, acontece a síntese: pegue um pouco dos dois mundos, filtra a tese, filtra a antítese, forme sua própria opinião e seja feliz. 

A gente ainda filtra, será? 

Sei que tem um compartimento obscuro da comunidade online que ficou preso na antítese sem chegar em conclusão alguma. Sei também de muita gente da vida real que sequer passou da tese. 

Deve ter outro raciocínio filosófico de algum alemão por aí que diga exatamente isso, muito embora eu fique devendo essa pesquisa, mas não é o estancamento da humanidade quando a gente só para de formar novas sínteses? Um processo de análise que é feito só uma vez e nunca mais revisto ou reavaliado só sugere que nossa tendência é emperrar no espaço tempo da humanidade, que nunca para de andar e andar e andar e oferecer novas ideias e novas conclusões e novos entendimentos e novos desenvolvimentos, pra sempre e sempre e sempre - como deve ser qualquer linha temporal.

Foi um susto perceber que a minha voz, essa que eu tanto me orgulhava ao dizer que tinha, era só um amontoado de outras vozes, que eu li por ali, ouvi daqui, acreditei como sendo certo e fatídico por vir de pessoas que corroboravam para um pensamento que estava em mim, mas que também veio de outros lugares, e assim vai. A essa altura, eu nem faço ideia do que o lado oposto ao lado das minhas ideias prega por aí - porque eu nunca vejo. Esse conteúdo não chega até mim.

Já que estamos aqui discutindo sobre Internet e afins, um fato engraçado é que esses posts não chegam até mim ou até você porque, num trabalho minucioso de sistema e controle humano, esses algoritmos não foram selecionados pra você. Vocês nunca se perguntaram COMO as pessoas ao seu redor não viam as mesmas notícias e as mesmas críticas ao Bolsonaro que você via? Literalmente por isso: porque elas não veem. Não é um conteúdo que chega até alguém que tem o algoritmo milimetricamente calculado pra mostrar foto de arma e vídeo de pastor pregando. Percebe? A gente empacou na rede das teses.

E, de novo, o negócio da voz: como eu posso esperar que meus gritos de indignação contra o governo sejam compreendidos por seguidores alienados, se são seguidores! alienados!? O que eu espero que aconteça ao publicar um story atrevido escrevendo meus sentimentos sobre a administração da prefeitura? Que eleitores do prefeito cheguem até mim e respondam "é verdade mesmo, o que você disse faz sentido, mudei de opinião"? Quando que isso aconteceu, tipo, na história? O que vai acontecer quando eu publicar um texto chamando eleitores do Bolsonaro de burros genocidas? Essa minha voz que sente tremores de raiva e vontade de cuspir fogo pelos dedos ao escrever sobre política, vai chegar até quem? 

Vai chegar só até aqueles que pensam igual a mim. 

E sendo assim, a gente tá conversando, de fato? Na nossa pesquisa social, com nossos resultados 100% em igualdade, a conclusão é qual?

Mesmo assim, acho ótimo jovens com didática o suficiente pra destrinchar pautas sociais num auditório. Acho genial produtores de conteúdo, escritores, [insira aqui qualquer cargo na internet] que tiram do seu tempo pra compartilhar seus entendimentos (suas sínteses!), a fim de que novas pessoas formem suas próprias sínteses. Mas fico me perguntando se sou uma delas. Do que adianta gritar, gritar, e gritar - se meu auditório está vazio? 

E um conflito desses não tem como solucionar - não cabe a mim, não está em meu poder. Não posso cobrar que todo mundo entenda e exerça minhas sínteses se nem todo mundo passou por minhas teses e antíteses. Sabe? É aquilo de sempre: não dá pra esperar que todo mundo esteja pronto pra algo que só você está pronto. E é ótimo sentir que, sim, existem pessoas prontas junto comigo, e no nosso vórtex temporal estamos todos no mesmo tempo e timbre - mas a gente sempre quer um coral inteiro, né?

Se nada do que eu falei faz sentido, a culpa é do Hegel. 

E ainda assim cá estou eu, escrevendo tudo isso num blog pra vocês lerem. 

Desconsiderem tudo que eu falei, então.

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Para Vogue, Selena Gomez dia desses que declarou que cantar ao vivo é difícil, mas que ela absolutamente vai aceitar qualquer oportunidade que a coloque em cima de um palco se isso resulta na propagação do que ela tem a falar. "Não me importo em como minha voz vai soar, só em passar minha mensagem", em tradução livre. Tal declaração me soou curiosa por diversas motivos, de "se você é cantora e seu trabalho está sendo cantar, COMO você não liga para como sua voz irá soar? É tão fácil pra alguns..." até "uau, jovens são intensos, mas jovens artistas...". 

Esse texto não tem uma conclusão. Mas eu vou mesmo pegar uma observação sobre extensão vocal e aplicar como uma reflexão pessoal e interna?

Você sabe que sim. 

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(A Star Is Born, 2018)


As 24 personalidades de Demi Lovato, parte II


PARTE UM

Assim como seu segundo álbum, here we go again. 

Então foi isso que você perdeu em Glee: 

Demi Lovato começou na máquina Disney Channel aos 15 anos, moldada pra ser exatamente o produto que uma continuação dos Jonas Brothers deveria ser. Vulnerável e com demônios próprios, Demi cansa de ser a sombra de seus colegas e rompe com sua versão boa garota do pop rock - mas termina na reabilitação após seus problemas virem a público depois de socar uma garota na cara. :o Demi volta pra indústria na sua versão mais plastificada até então, com todos os antigos hábitos ruins ainda por perto, mas escondidos. Com sua nova grande notoriedade na mídia, Demi passa a trabalhar seu lado profissional: jurada do The X Factor com Britney Spears, músicas pop nas mais tocadas das rádios, voltando a trabalhar pra Disney ao gravar Let It Go de Frozen e até fazendo uma ponta em Glee como Dani, namorada de Santana e guitarrista da banda de Kurt. Demi descobre, depois de tanto mudar sua estética pessoal, que não somente se cansa rápido de estabilidade - mas também tem a capacidade de cansar de mudanças. 

E foi isso que você perdeu em Glee!

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Onde estávamos? Ah, sim.

Desbloqueando mais uma fase, Demi entendeu que podia se cansar de qualquer coisa, inclusive das suas mudanças. Foi assim que ela deu início à sua fase mais constante e equilibrada:

Fase Seis: Gênesis e a Verdadeira Estabilidade
Causas: Wilmer Valderrama, sobriedade, reconciliação com os Jonas


Eu não falei pra vocês das falsas sensações de estabilidade? 

Essa não é uma delas. 

Quando você é obrigado a pensar em Demi (pré-2020), em qual Demi você pensa? É muito possível que seja nessa. Em algum lugar do seu cérebro encontra-se uma imagem de uma Demi de cabelo preto curtinho, provavelmente cantando Cool For The Summer (quantas vezes uma pessoa pode sair do armário?) ou Stone Cold. O álbum Confident foi até indicado ao Grammy de 2017, algo que ninguém tava esperando. 

Não tem nada de peculiar nessa personalidade, exceto o que eu vou te dizer agora: 

Essa foi a Demi mais autêntica de todas. 

Obviamente isto é uma opinião, eu não conheço nenhuma dessas Demis intimamente, muito embora tenha acompanhado todas bem de perto. Mas essa aqui... tem algo diferente nessa. Era confortável acompanhar essa, porque ela própria parecia estar confortável na própria pele. Muito embora tivesse sido uma advogada de auto aceitação desde que meteu o pé pra fora da rehab, Demi nunca pareceu verdadeira o suficiente sobre gostar de si mesma... até esta versão. Parecia um amadurecimento natural (agora sim) de todas suas inconstâncias: sua música, muito embora ainda pop de rádio, soava mais madura; sua equipe, agora mais rígida e após dar-lhe um ultimato, a mantinha sob vigilância quanto aos problemas com drogas e transtorno alimentar; sua imagem tava boa, sua atmosfera tava boa. Essa era uma Demi que celebrava aniversários de sobriedade, uma Demi que tinha orgulho de sua história mas não se limitava a ela. 

Uma Demi que até reatou com os irmãos Nick e Joe - saiu em turnê com Nick Jonas, abriram uma gravadora juntos, e ainda recebia Joe Jonas no palco pra cantarem This Is Me. E não somente! A amizade com Selena Gomez (sua amiga desde a infância) até deu um rápido retorno do mundo dos mortos

Uma Demi que parecia de verdade - um "de volta aos clássicos", o seu gênesis pessoal.

E talvez fosse, sim. Demi parecia feliz e satisfeita com seu retorno ao que conhecia, seu relacionamento (agora público e sempre exaltado por ela) com Wilmer, em ser uma defensora de tratamentos psicológicos e de fato estar trabalhando nos seus. Aqui eu abro um parênteses pro trabalho incontestável de Demi em apoiar, financiar e propagar causas e programas de ajuda e acompanhamento psicológico. Essa era uma Demi que levava profissionais pra discursar sobre transtorno alimentar pros fãs que iam aos shows, uma Demi que andava 24/7 com um "sober coach", um especialista em sobriedade responsável por ser seu braço direito para que ela não tivesse recaídas. Era visível o trabalho que ela estava disposta, à época, a realizar por si mesma - e não só isso, por várias outras pessoas ao redor que também necessitavam. 

Acompanhar Demi de perto te faz concluir uma coisa muito rapidamente: elu é péssime sozinhe. De, tipo, não funcionar mesmo. Nessa época, seu porto seguro era uma equipe de, em sua grande maioria, homens: o sober coach, seu empresário (que também era empresário dos Jonas...), seu melhor amigo, Nick (que andava sempre com ela, não só pra ganhar dinheiro nas turnês) e, é claro, seu namorado da época, Wilmer Valderrama. 

        SUBTÓPICO DA FASE 6: 

              DEMI & WILMER


Pra começar a falar de Dilmer, vocês tem que entender logo uma coisa: Demi era OBCECADA por esse homem. Completamente fascinada. Apaixonada até o dedinho do pé. Coloquem isso na cabeça. Dentre tantos problemas de Demi, fingir ou ser falsa em relação aos seus sentimentos nunca foi um. Era visível, palpável, dava até pra pegar e sentir materialmente o afeto e o amor que ela sentia por Wilmer - tava no olhar, no modo como ela falava dele e escrevia pra ele, no modo como ela o defendia de tudo.

Sabendo também que Demi sempre foi uma pessoa emocionalmente carente, que precisa de alguém por perto que se importe com elu, não se assustem ao notar que, sim, o maior fator de colaboração pra seu momento mais estável e mais calmo foi, de fato, Wilmer. 

Demi conheceu Wilmer aos 17 (dezessete!) anos - ele tinha 29. Eles começaram a ter algo quando ela fez 18 (isso é o que Demi conta - eu que não duvido que Wilmer tenha ficado com a menina adolescente mesmo). Mas foi só nessa era, nessa personalidade estável, que Demi e Wilmer se consolidaram, e passaram de um rumor, de algo que acontecia esporadicamente, pra um casal de fato. 

Eu disse que Demi era péssima sozinha - e ainda é. Não por nada sua fase de maior estabilidade, a fase em que Demi mais aparentou estar bem, era uma fase em que ela tinha um relacionamento pra se apoiar. Demi não consegue fazer nada sozinhe, nunca conseguiu - porque elu não foi criade, nessa indústria, pra pensar por si. A solução, na época, foi usar de seu relacionamento com Wilmer como base de tudo: base do seu bem estar, base do seu tratamento, base da sua estabilidade. 


Wilmer já havia sido uma pessoa problemática, também (deem uma olhada na época que ele namorou com a Lindsay Lohan). É quase como se ele entendesse. Não dá pra negar que o esforço dele de se manter presente na vida de Demi, apesar de todos seus demônios, foi o que transformou o relacionamento deles, pra ela, em uma necessidade. Foi alguém que não saiu do seu lado em nenhuma das fases anteriores, nem mesmo nas piores delas. Era inevitável, pra alguém carente de atenção como Demi, que Wilmer fosse exercer esse papel de seu Salvador.

“People told him, ‘You should probably leave. She’s on a spiral, and you’re going to be sucked down with it.’ But he was like, ‘I’m not leaving. This is somebody I really care about,'” Lovato told Cosmopolitan in 2015 after opening up about her struggles to get sober and her stays in rehab.
É claro que tudo iria desmoronar, e todo o trabalho iria por água abaixo, quando Wilmer saísse de sua vida...

Porque esse é o problema de sustentar o seu próprio eu em outro alguém. Você não sabe como seguir quando esse alguém vai embora. 

Fase Sete: O Amadurecimento? 
Causas: o término e as recaídas 

 
(Olha essas imagens. Do you think a depressed person could look like THIS?)

Demi Fase Sete é uma Demi da era Tell Me You Love Me, marcada pelo término com o Wilmer e seu novo álbum, o mais maduro até então - que serviu alguns bops como a faixa título (que no clipe ela casa com o doido de Grey's Anatomy), Sorry Not Sorry e Cry Baby, minha favorita de todas as músicas mais recentes. Cry Baby é uma faixa que foi escolhida a dedo pra estar ali, como um ode à sua Fase 1. É imprescindível que fãs de Don't Forget e Here We Go Again escutem essa (é sério!!! abre esse spotify, Demi tem que pagar a internet).

Esteticamente, Demi - como dizem os jovens? -, serviu nessa fase. Foi seu maior ato fashion, seu maior ato musical adulto, parecia brilhar a cada aparição pública, a personificação do seu sol de Leão.

Pena que isso não significava nada, porque era tudo mentira.

Com o término (que foi mútuo? por algum motivo?), Demi, que ainda era claramente apaixonada por Wilmer, pareceu querer estar no seu melhor, pra que de alguma forma ele ressentisse sua perda. Isso é tão real que no documentário Simply Complicated (2018), tem toda uma cena montada pra mostrar o reencontro Demi e Wilmer pós término, e são fitas e fitas de narração da própria Demi dizendo que sempre vai amá-lo, que sempre será apaixonada por ele...


... só pra logo em seguida encaixar a cena em que afirma estar tendo o momento de sua vida saindo com todos os homens que esbarram em seu caminho, e feliz demais com isso. 

?

[Lista de pessoas com quem Demi namorou/pegou após ficar solteira: 
Neymar;
- um outro brasileiro lutador de MMA;
- Lauren (seu primeiro relacionamento sáfico publicamente, mais conhecidas como MINHAS MAMÃES);
- esse homem aqui, seja lá quem for, mas que tinha 2km de altura;
- possivelmente essa dançarina dela;
- mais uns 94 que não foram a público.]

Nessa época, quem se movesse perto, Demi tava pegando. Talvez pra tentar mostrar pra Wilmer o quão bem ela estava mesmo sem ele, talvez porque ela mesma não soubesse como estar sem ninguém, talvez pra não pensar muito sobre o fato de que ela estava sozinha, ou pra não se sentir sozinha. Mesmo assim, o fantasma de Wilmer sempre estava por perto: Demi ainda estava próxima de Joe e Nick (amigos próximos de Wilmer), e os dois seguiam amigos, com o mesmo círculo de convívio, mantendo contato. 

Em Simply Complicated, Demi menciona suas recaídas com seu transtorno alimentar - e atribui a culpa ao seu término com Wilmer, em sua impossibilidade de lidar com perdas e dor. No mesmo documentário, Demi narra o refúgio que achou em academia e esportes (como vocês acham que ela conseguiu namorar tanto lutador de MMA?), o refúgio que ela achou em ficar com qualquer e toda pessoa, o refúgio que ela achou em voltar a ir em festas... em voltar a beber... em voltar a usar drogas... Não, ela não narrou todos esses refúgios, mas foi o que aconteceu. E notem o padrão: a academia, a dieta e os esportes em excesso, eram só seu vício e mania atribuídos a outra coisa. Quando isso não foi o suficiente, veio o sexo. E como isso também não preencheu nada, Demi trouxe de volta as festas e as bebidas. E, consequentemente, as drogas. 

Tentando preencher algo que Demi sentiu ter perdido, sua recaída, que culminou na overdose que sofreu em 2018, foi o resultado de alguém que saiu do seu melhor pro seu pior pelo simples fato de não ter mais companhia, de não mais se sentir amada por alguém que acompanhou e compreendia todas suas nuances. Ao tentar mostrar ao público e ao próprio Wilmer que estava bem, bem demais, Demi esqueceu que ela era uma pessoa delicada, com um histórico delicado, com demônios muito pesados e uma doença traiçoeira. 

Demi quase morreu por sua necessidade de se encontrar de novo. Sozinha.

Fase Oito: O Renascimento e o Decair
Causas: um noivo psicopata


Em 2020, antes do mundo virar o que virou, uma Demi recuperada dava o ar da graça. Cantava no Grammy, em sua primeira apresentação depois da overdose, e era ovacionada pelo público. Cantava o hino nacional americano no Super Bowl. Parecia o renascer, mais que merecido, pra uma sobrevivente. 

Mas deixa eu te levar pra um pouco antes. 

Em 2019, Demi saiu do hospital alegando abandonar de vez seus antigos hábitos, uma vez que estes tinham acabado de quase matá-la. Era um milagre que ela estivesse viva. Demi sabia disso, e internalizou isso, e se recuperou decidida a viver uma vida que fizesse jus ao milagre que ela havia recebido. 

Foi instantâneo? Não. Em um primeiro momento, Demi parecia dar continuidade às tendências que iniciou na fase anterior: sempre vista com um namorado diferente. Sua incapacidade de se manter sozinha, mesmo depois de TUDO, continuava levando-a a se relacionar com qualquer cara meia boca que quisesse fazer parte da vida dela, como esse ou esse - um mais feio que o outro, se me permite. Mas eram distrações pra ela, distrações pra uma mente que, tão fragilizada, não aguentaria estar sozinha de novo ao voltar pra casa. 

Nada demorou muito tempo, e Demi fez o que qualquer outra pessoa em situação traumática e ex usuário de drogas faria: 

Virou crente. 

É sério. 

Demi foi preencher seu vazio espiritual na Igreja - a mesma Igreja de Justin Bieber e sua esposa Hailey Bieber. Sem surpreender ninguém, após virarem amigos de escola dominical, surgiram boatos de que Demi estaria em negociações pra assinar com quem? Scooter Braun, o maior inimigo de Taylor Swift e empresário de Justin Bieber. Isso tudo, é claro, foi previsão de Deus: Demi de fato assinou com Scooter, fazendo parte da sua equipe agora. 

Entra em cena a fofoca que eu sei que vocês querem saber: 

Max Ehrich. Se você me perguntar quem é Max, eu vou ficar te devendo a resposta. Pelo que eu entendi, ele foi um extra em High School Musical 3, e a longa carreira de ator dele só consta com vários papéis de figurante. Nem sei se existe de fato uma confirmação de como eles se conheceram, mas o que se sabe é que eles começaram a sair, a pandemia aconteceu, e Demi achou de bom tom... convidar o cara que acabou de conhecer... pra passar a quarentena... na casa dela...

Hum...? Isso tinha como dar errado em níveis. E deu, porque o cara revelou ser a versão real do psicopata de You. O que a gente sabe agora é que Max na verdade era um sanguessuga de celebridade, tentando proximidade com quem quer que fosse pra ganhar status. A obsessão dele de verdade era com a Selena Gomez: tem prints na internet deste homem indo atrás de Selena que é o suficiente pra uma ordem de restrição. Quando esbarrou com uma abertura de Demi, nossa carente, solitária, sem-saber-lidar-com-Estar-Sozinha Demi, Max levou cachorro e cueca pra dentro da casa alheia COM CONSENTIMENTO DA PRÓPRIA. Eu sei lá. Façam terapia. Um terapeuta não permitiria uma situação dessas. 

Poucos meses depois, é claro, por que não?: noivos. Um pé rapado que não tinha onde cair morto, comprava seguidor e comentários no Instagram, morava de graça na casa de uma artista depressiva, comia de graça, usava internet de graça... comprou um anel avaliado em 1 milhão de dólares? Qual foi o AGIOTA que esse homem acionou?

Não disse que a Demi tava crente nesse época? Adivinha quem também é... o sociopata. Digo é, no presente, porque até hoje ele tá aí postando que Deus tem um propósito pra tudo, e gravando filme evangélico. Eu não minto com essas coisas. Eu digo pra vocês que essa coisa que crente tem pra querer casar com 2 meses de namoro só pode ser duas coisas: vontade de transar ou golpe. Tem foto dos dois saindo da igreja juntos, louvando juntos, Demi dizendo que o noivo foi uma "benção de Deus" na vida dela... 

Quando tudo veio à tona e todo mundo teve conhecimento de que Max estrelava a própria versão de You, Demi soube junto com a gente. Imagina que vergonhoso você descobrir, junto com a internet, que seu noivo, esse que você tá morrendo de amores e dizendo que é presente de Deus, é, na verdade, só mais um doido. 

E imagina o que é tudo isso pra Demi, que não aguenta mais uma perda sequer, que não sabe viver sem a companhia romântica de alguém, que tenta continuamente achar alguém que preencha o buraco que Wilmer deixou - a essa altura, Wilmer casado e com um filho. A própria chegou a falar, em vídeos gravados pro seu novo documentário "Dancing With The Devil", que a dor e humilhação que sentiu foram gatilhos pra querer recorrer ao álcool, à comida e às drogas... E lá ia ela de novo, sustentando seu bem estar e seu avanço clínico e psicológico em um outro alguém, mesmo com a bagagem recente que havia adquirido. 

Com vergonha e ressentida, Demi voltou pro que sabia fazer de melhor: descascou sua pele antiga e apareceu numa nova. 

Fase Nove: Queer, Militante e Maconheira Assumide
Causas: vergonha do noivo psicopata? fé abalada?  


Demi de agora. Quem é você? 

Você é você mesme, de forma autêntica, resultado de todos os percalços que te trouxeram aqui, numa jornada que era pra ser assim desde o início? Ou você é uma pista paralela à sua anterior, uma vez que a anterior deu errado? 

Se ainda noiva de Max, se Max se revelasse ser um cara mentalmente saudável e com boas intenções, esta versão de Demi existiria? Meu palpite é que não. Demi estava satisfeite em fechar os olhos pro que estava óbvio, porque isso significava que elu podia fingir que estava feliz ao lado de uma pessoa que se importava com elu. Não era verdade, mas era o que Demi escolhia ver, porque era o que necessitava. Se tudo tivesse terminado bem, se Max fosse outra pessoa, talvez essa manifestação de Demi sequer fosse ver a luz do dia.

Mas o fato é que está aqui. Parece, de novo, uma tentativa de justificar tudo que deu errado. Meu ex noivo era um psicopata? Foda-se, eu sou queer demais pra casar com um homem cis anyway. Minha música pop não deu certo e não levou um Grammy? Aquela não era eu, aquela Demi de salto alto era o que minha equipe queria que eu fosse. E assim vai... nesse momento, tudo para Demi tem uma justificativa - sempre é algo nos cosmos, nas cartas, na energia. A culpa nunca é delu. 

Se eu tivesse perdido tanta coisa, eu também precisaria dar uma relativizada pra não enlouquecer. Eu entendo essa parte. Mas dá pra fazer isso sem matar sua versão antiga, não dá? Sua incapacidade de tratar as coisas pela raiz é tão rasa que você prefere queimar todos os seus antigos vestígios do que ter que lidar e aprender com eles? 

A não-binariedade assumida por Demi recentemente é, provavelmente, o único pedaço de autenticidade que eu achei nessa versão. Realmente parece que é algo delu, não alguma variação de tentativa de lidar com trauma, como quase todo o resto. 

Mas a verdade é que Demi se isolou de pessoas que já conheciam-lhe e se encontrou em novas. Pessoas com exatamente a mesma personalidade que elu. Ou melhor: pessoas de quem elu decidiu copiar, pra ser parte de algo. Não é a toa que Demi tem um quarto psicodélico pra intensificar o efeito de drogas recreativas dentro de sua casa agora. Sim, Demi que quase morreu não muito tempo atrás de overdose. Quarto esse usado por elu e seus amigos, que são ativistas ferrenhos de que você pode usar maconha moderadamente mesmo com problemas de vício, por exemplo. Mas será que dá mesmo? Uma pessoa com um problema de vício tão delicado, que jura de pé junto que abstinência é pior, consegue mesmo se manter saudável só com uso recreativo de algumas substâncias? Pra alguém que já é tão fragilizade, isso não é só deixar a porta entreaberta?

Não sei. 

Meu desejo, como alguém que acompanhou todas essas fases, que cresceu junto de Demi Lovato, era que elu se libertasse da necessidade de moldar-se àquilo que o grupo da vez, que está lhe dando atenção, representa. Como fundamentar uma carreira falando para as pessoas serem elas mesmas se você nunca, nunca foi isso? E agora, que você me jura que É Isso e Pronto, quem me garante que daqui a pouco, na próxima desilusão com um desses amigos, você não vai apagar essa versão e construir outra do zero? 

Eu tenho alguma garantia sequer que esta versão de Demi é a mais autêntica até então, como elu me garante ser? 

Pelo histórico, não. 

Mas o resto é história... 

Conhecendo Demi como conheço, uma história longa, bem longa, longe de encontrar o fim. 


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Nota da editora: 

Aos meus assinantes queridíssimos, eu tenho dois mimos!

O primeiro deles é um teste do Buzzfeed. Leu todas as fases de ambos os posts e ficou se perguntando qual delas você seria? Seus problemas acabaram.


Por último, todas as músicas mencionadas em ambos os posts - e algumas extras - estão presentes nessa playlist aqui :)!


As 24 personalidades de Demi Lovato


Importante: os pronomes femininos aqui utilizados não correspondem aos pronomes usados por Demi Lovato hoje. Mantenho essa errata pra reforçar que de forma alguma procuro errar propositalmente os pronomes aderidos hoje por elu, mas sim ser fiel à sua persona à época, mais de 10 anos atrás. Os pronomes em feminino dizem respeito à Demi da época. Ao usar os pronomes neutros, me refiro a pensamentos sobre sua pessoa atualmente.

Ai, ai...
Vocês se pronunciaram e eu ouvi. 

Pra começar a falar de Demi Lovato, nós temos que voltar no tempo pra uma época onde o Disney Channel caminhava pra entrar nos anos dourados, revistas da Capricho eram vendidas a 5 reais, Flogvip era algo que existia, e o PT estava no poder. Inclusive, Flogvip - um termo/site/vanguarda que desbloqueei 4 níveis de memória descartada pra conseguir lembrar o que era -, foi o primeiro lugar onde tive conhecimento do nome Demi Lovato. Era 2008 quando novas contas dedicadas ao novo filme da Disney começavam a surgir, com fotos da personagem Mitchie provando várias roupas no quarto, no que viria a ser a cena de abertura do filme. Não sabia quem era Mitchie ou Demi Lovato, mas quem eram os Jonas Brothers eu sabia. 

E foi com essa energia que não só eu, mas toda minha turma de sexta série do fundamental assistimos Camp Rock, numa estreia nacional às 20h de um Domingo. Bastou o primeiro acorde de This Is Me pra abraçarmos nossa nova garota Disney. Ela cantava, ela era fofa, ela era melhor amiga da Selena Gomez que também tava começando, ela tinha uma franjinha que fez milhões pegarem uma tesoura cega e cortar a própria (por milhões eu quero dizer eu). Era um produto pronto pra Disney-Empresa.

A impressão que me dá é que Demi Lovato nos Primeiros Anos (Camp Rock, Don't Forget [seu álbum de estreia], artista de abertura da turnê mundial dos Jonas Brothers) era 100% um fruto do que a Disney queria que ela fosse. Imagino que a empresa não queria apostar mais no mesmo: eles já tinham a estrela pop (Miley Cyrus), já tinham uma abordagem mais R&B-Pop com a Raven Symoné, já tentavam enfiar a estética anti-pop (garota descolada, calças rasgadas, cabelo repicado, regatas e tênis) na Selena Gomez - numa referencia clara à sua personagem em Feiticeiros de Waverly Place, Alex Russo. Em que eles poderiam transformar Demi Lovato pra que ela não fosse algo repetido, algo que eles já tinham? 

Conhecida por "a irmã Jonas", não demoraram muito pra achar a resposta: vamos transformar Demi Lovato num produto pop rock, aproveitando a mesma atmosfera dos três meninos que a ela eram constantemente associados. 

De uma lista grande de personalidades já adquiridas por Demi, a primeira todo mundo conhece. Inteiramente produzido pelos próprios Jonas Brothers (e o Jonas pai), Don't Forget marcou Demi Lovato como uma extensão do som e da estética que os Jonas já faziam - afinal, era óbvio que a empresa conhecida por transformar adolescentes em máquinas de fazer dinheiro investisse em dar à Demi Lovato o suporte pra se tornar parte do produto responsável pelo sucesso de Camp Rock: os irmãos Nick, Kevin, Joe, e sua fanbase. 

Demi começava, daí, sua longa, longa, loooonga jornada de ter sua própria identidade ditada por outros. É até triste relatar sobre se você para pra pensar que, de certa forma, é com isso que elu tá acostumade: pessoas dizendo o que elu deve ser. E é aqui, meus amigos, que eu os convido a uma viagem. Uma viagem onde a gente vai perceber que Demi Lovato nunca foi elu mesme. Demi Lovato nem deve saber quem é de verdade. Tudo que já foi, e tudo que é agora, e provavelmente tudo que ainda será, são frutos do que as pessoas ao redor querem que elu seja. 

Fase Um: Demi Lovato Pop Rock
Causas: Disney, Jonas Brothers e equipe, tendências emo adolescente


Quem não balançou pescoço com o solo de guitarra na música Don't Forget, ou tentou fazer o grito roqueiro de Demi ao final de Get Back, realmente viveu em 2008? Creio que não. Bons tempos, bons tempos. A pior parte é que essa fase, em retrocesso, nem foi ruim. Foi a melhor fase. Talvez não pra Demi - não pra sua identidade e pro que isso significou em seu emocional -, mas pra gente? Crianças e pré-adolescentes sem noção de nada? Significou tudo. 

Demi manteve a franjinha eternizada no primeiro filme de Camp Rock, mas agora a franjinha era de lado, com o cabelo levemente ondulado pra ser mais fácil de aparentar desarrumado - estrategicamente assanhado, pra parecer cool. Usava chapéus e botas, andava quase sempre de preto e usando camisetas de banda que eram bem mais rock n roll que ela própria. Não acho que Demi soubesse na época que essa não era ela - pelo contrário, acho que até se divertiu com a ideia de, de repente, ter se tornado uma estrela do rock adolescente. 

Todo mundo tem uma fase """emo""" na adolescência, e Demi deu a sorte de ter a dela quando sua própria equipe queria que ela fosse exatamente isso: muito lápis de olho e muita guitarra - nunca, é claro, abandonando o decoro exigido por contratados da Disney. Em uma das mais icônicas músicas de Demi na época (tão famosa que inspirou o Damien Chazelle a escrever um filme com mesmo nome*), ela com orgulho cantava que não seria mudada pela indústria de Hollywood, que tava muito feliz de continuar usando seus Converse e que não era uma super modelo. Guardem essa informação. 

É importante mencionar que Demi tinha apenas 15 anos na época. Quem é que sabe quem é ou o que quer aos 15 anos? Ela certamente não sabia, mas se demonstrava satisfeita de ser Alguém, de ser Conhecida, de poder cantar (seu maior sonho) em palcos e virar uma artista. A essa altura, a Disney falava "sapo" e ela pulava. Mas não dá pra culpá-la. Era uma criança sendo dita o que fazer. Como um produto inédito, Demi virou a nova aposta da Disney pra ser seu novo rostinho de sensação adolescente. 

Por que, então, Demi não continuou como nosso protótipo de Ozzy Osbourne Para Crianças até o final de seus dias na Disney? É simples.

Demi Lovato cansa rápido das coisas - e cansa mais rápido ainda de pessoas dizendo o que elu deve fazer. Entramos então na

Fase Dois: Demi Lovato Pop Rock Repaginada, 2.0
Causas: Jonas Brothers e fobia à estabilidade 

    

Essa é uma Demi Lovato de transição. 

Como boa transição, essa versão não é muito diferente da anterior, ao mesmo tempo que consegue já dar indícios de como vai ser a próxima. Demi Lovato Pop Rock Repaginada 2.0 difere da 1.0 em detalhes, apenas: o primeiro deles é o cabelo. Parece pequeno, mas toda boa artista Disney tem o seu momento de ruptura/rebeldia que começa pelo cabelo - Miley Cyrus pintando de preto depois que terminou com Nick Jonas, por exemplo. Curiosamente, preto também foi a cor escolhida por sua amiga & colega de firma Demi, a simbólica franjinha agora longa o suficiente pra virar um franjão. 

Ao contrário do que a rebeldia adolescente do cabelo pintado de preto poderia representar, Demi ficou mais menininha do que sua versão anterior: enquanto a 1.0 parecia um cover do Joe Jonas em 2008, a 2.0 parecia mais um ser humano à parte da estética dos Jonas Brothers. E como, então, os JoBros entram como uma das causas pra essa versão? Pelo simples fato de que Demi não consegue expressar e exercer algo que é 100% delu. Muito dessa fase significou o distanciamento, mesmo que aos poucos, das roupas pretas e do lápis de olho, dizendo olá para coloridos e neons. Quem também andava de óculos escuro neon, calças coloridas e blazers de estampa assimétrica? 

Restart. 


Foi nessa mesma época que Demi abraçou sua rápida e passageira marca registrada: seu batom rosa, imortalizado na capa do seu segundo álbum, Here We Go Again. Eu sei de tudo isso porque eu posso ou não ter passado uns bons meses da minha vida apenas usando o batom mais cor de rosa que a revista da Avon tinha a oferecer. 

Num pop rock menos solo de guitarra que seu irmão mais velho Don't Forget, o Here We Go Again parecia mais produto da própria Demi do que de intromissões da Disney e seus produtores - como se ela tivesse dado tão certo de primeira que eles relaxaram no que impor a ela em sua próxima fase. Em alguns momentos, esse álbum soa maduro demais pro ambiente em que foi feito - e dou créditos à Demi por isso. Ainda que com a produção dos Jonas em algumas faixas (dá pra ouvir o Nick Jonas fazendo o backing vocal em Stop The World, por exemplo), em outras Demi atingiu o ápice de sua habilidade em composição numa faixa de sua autoria (Catch Me, as melhores letras que já escreveu sozinhe até agora) e ainda colaborou com o John Mayer em World Of Chances, uma faixa igualmente boa - que o John Mayer não apenas ofereceu à ela, como também pediu pra que Demi colaborasse com ele, um feito que não veio de negociações da Disney com o artista, mas sim em seu interesse pelo talento de Demi. 

Mas isso não é uma review sobre Here We Go Again, meu álbum favorito de Demi e um dos meus favoritos da adolescência. Isso é sobre a persona 2.0. E essa Demi, que recebia propostas de parceira do John Mayer e conseguia produzir um bom álbum mesmo com milhões de cláusulas contratuais pra seguir, dava sinais de que tinha potencial pra crescer conforme ela bem entendesse, do jeito que ela era. Demi Repaginada 2.0 dava indícios de que ela havia pegado sua versão anterior (imposta) e transformado em algo que era dela, que era mais ela. Mas isso era uma suposição de quem apenas observava a superfície: muito embora as pequenas mudanças parecessem ser fruto de seu amadurecimento inevitável, Demi jamais alegou que a versão 2.0 era ela própria.

Por que? O de sempre. Demi ainda não sabia quem era. Seus dois primeiros álbuns, muito embora frutos do controle de uma grande corporação, era parte dela, sim, de certa forma. Mas lá pelo segundo, me parece que Demi começou a achar confortável demais. E se tem uma coisa que Demi não suporta é estabilidade. O que nos leva à

Fase Três: A Boa Garota Se Torna Má
Causas: Drogas, rebeldia, traumas psicológicos e péssima equipe

Acompanhar Demi Lovato é saber que o fatídico ano de 2010 foi o ano em que tudo aconteceu - terminou com Joe Jonas, entrou numa fase crítica da sua relação com drogas e álcool, socou uma dançarina na cara, deixou a turnê de Camp Rock 2 pela metade e foi internada numa rehab. O que levou a tudo isso? Pois bem.

Demi já havia atingindo os 100% de sua transformação em garota tradicional estudante de Odonto, com seu Converse imediatamente substituído por saltos altos e vestidos, os chapéus e já aposentados perante o INSS e tudo. Abandonou seu cabelo preto, abriu luzes, e esperou impacientemente para que os problemas começassem. Com a demora para tal, ela mesma foi atrás deles.

Era normal, na época, esbarrar com vídeos de Demi visivelmente chapada em bastidores de turnê, nas suas fotos bêbadas simulando tirar a roupa em quartos de hotel, e nos boatos de que ninguém, absolutamente ninguém, suportava mais estar perto dela - inclusive seus já citados relacionamentos próximos, especialmente Joe (ex namorado) e Nick (melhor amigo). Kevin não. Kevin Jonas nunca teve paciência pros causos de Demi Lovato - procure um registro dos dois depois do casamento de Kevin e Danielle (que Demi compareceu), e você não vai achar. 

A rebeldia que deu sinais na personalidade anterior, aqui se consolidou. Demi já não aceitava qualquer limitação ou tentativa de controle ao seu comportamento destrutivo, o que a tornava numa pessoa impossível de trabalhar ou se estar perto - nas palavras da própria. Quase sempre sob efeito de drogas e álcool, essa Demi se agarrou nas pessoas erradas pra dar os dois dedos do meio pra Disney e sua tentativa de montagem da garota perfeita. Caótica e problemática, essa personalidade era tão auto destrutiva que não durou muito tempo: as luzes no cabelo foram presentes por apenas uns 2 meses, até que Demi foi internada pela primeira vez num centro de reabilitação, após literalmente dar um murrão na cara de uma dançarina que foi fazer fofoca aos produtores da Disney sobre suas festas extravagantes e ilegais. 

(Uma trivia irrelevante porém muito legal desse episódio é que Demi estava tão louca na droga na época que, ao surrar a coitada da dançarina dentro de um jatinho particular, Demi só voltou pra sua poltrona e dormiu o resto do voo, como se nada tivesse acontecido. Extremamente. Caótica.)


Os problemas psicológicos de Demi e seu vício não foram algo que surgiu nesse pequeno intervalo de Boa Garota Virou Má: eram coisas que sempre estiveram com ela, desde sua versão pop rock, talvez mais silenciosas na época. Ao romper com a estabilidade do suporte nos Jonas, com a confiança em sua equipe para guiar sua carreira e com seu prévio comportamento de garota exemplo da Disney, Demi perdeu seu próprio rumo, simplesmente porque ela não sabia andar por conta própria, nunca soube. É necessário que pessoas estejam guiando seus passos, opiniões e comportamentos a todo momento, já que ao mínimo sinal de solidão, Demi tende a abandonar todo o bom senso e se abrigar nas mais tóxicas pessoas, nas mais destrutivas situações.  

O tempo na reabilitação poderia ter servido como o momento em que Demi perceberia isso. Não foi o que aconteceu.

Fase Quatro: Garota Má Se Torna Uma Boa Mentirosa
Causas: Más companhias, síndrome de mentira compulsiva


Eu não falei pra vocês guardarem a informação da mensagem de Demi em sua música chefe do primeiro álbum, La La Land? Demi que não era uma super modelo, Demi que se vangloriava de seus estilos alternas e se achava visionária por usar vestido rodado e tênis, Demi "oh-eu-não-sou-igual-às-outras-garotas", I'm a weirdo, I don't fit in... Essa Demi? Morreu. 

Demi da fase quatro é uma Demi que acabou de sair de um centro de reabilitação para seus problemas psicológicos e vício em substâncias, mas que em momento alguém desejou estar em rehab ou sequer queria estar sóbria. Em resumo da grande ópera, Demi só aceitou ser internada quando seus pais afirmaram que ela não teria mais contato com sua irmã mais nova, Madison, se não fizesse tratamento. Então ela foi - não porque de fato queria, mas sim porque estavam prestes a tirar dela algo que era importante. E essa Demi "eu não ligo pra nada", essa Demi que mandava todo mundo se foder enquanto cheirava cocaína, se importava pelo menos com uma única pessoa: sua irmã. 

É sabido, no entanto, que a longo prazo ninguém muda por outra pessoa: mudança de pensamento, atitude e comportamento é algo que tem que partir de você mesmo. E foi assim que Demi, ao sair da rehab e esfregar na cara dos pais que tinha feito o que eles queriam, deu continuidade à sua persona antiga de maneira intensificada. As drogas experimentais e recreativas da fase anterior viraram um costume, as festas clandestinas eram escondidas pois na manhã seguinte Demi teria que dar entrevista sobre ter controlado seus vícios em reabilitação, as camisetas com a frase "the only coke I do is diet (a única coca que eu uso é a diet)" escondiam a relação de Demi com a criadora da marca, que ironicamente era conhecida por suas festas onde cocaína era servida em bandeja. 

Demi, com seu novo aplique de cabelo, suas turnês com mais de dez dançarinos, suas coreografias, o glitter em excesso e as festas sem limites, virou tudo que ela disse não ser quando começou: um ato pop problemático (ver: Britney Spears, Miley Cyrus). No álbum Unbroken, seu trabalho musical fruto dessa era, a nova personalidade de Demi era tudo que já conhecíamos em nossas princesas do pop anteriores, perseguidas pelos seus próprios traumas. Batidas sintéticas, samples e equalizadores substituíram os instrumentos reais das músicas de Demi e, assim como ela própria, sua música também ficou genérica. 

Genérica parece ser a palavra adequada pra personalidade quatro. Tudo em Demi, nessa época, era absolutamente falso: do cabelo aos discursos. Era muito fácil, pra ela, mentir sobre estar recuperada e se esforçando, lançar Skyscraper, e gravar um documentário sobre sua luta pessoal sob efeito de cocaína durante as entrevistas. Aqui, Demi compreendeu que conseguiria tudo de seu jeito se fosse a melhor mentirosa que pudesse ser - e foi o que fez. Seja por descuido, negligência ou simplesmente por terem sido manipulados por ela, a equipe de Demi pouco fez pra exercer controle na situação. 

Mas Demi estava fazendo as coisas como queria e enganando todo mundo no processo. Seja lá o que sua equipe e pessoas próximas planejassem fazer, não é como se ela fosse aceitar qualquer imposição alheia de bom grado. 

Fase Cinco: Uma Camaleoa e A Falsa Sensação de Estabilidade
Causas: Contratos, trabalhos na TV e agenda cheia


No ponto alto de sua carreira até então, 2012 e 2013 dão a falsa impressão de que Demi Lovato estava estável - exceto, é claro, por seu cabelo. De Leona (Cobras e Lagartos) a todas as variações possíveis de cabelo colorido, Demi parecia descontar sua falta de tempo pra se moldar a uma nova personalidade em suas transformações capilares - o que é tipo, basicamente o maior dos gritos de socorro da mulher leonina. 

A falsa sensação de estabilidade vem de uma coisa muito simples: ela só não tinha tempo de se transformar em outra coisa. Foram duas temporadas de The X Factor, duas turnês, uma temporada de Glee, uma participação na trilha sonora de Frozen com Let It Go, uma performance na Casa Branca, um relacionamento escondido com Wilmer Valderrama (12 anos mais velho que ela) e um novo álbum. Não tinha mais tempo disponível pra continuar mantendo a fachada de Garota-Pop-Que-Está-Sóbria-Mas-Sempre-Em-Festas, 

Musicalmente, Demi continuou no pop - menos eletro e menos sintético, mas ainda pop. Não se enganem, Demi hoje vai tentar te fazer acreditar que foi sua própria equipe que tentou empurrá-la à uma persona pop star, com hits que tocam em rádios. Não. Demi na verdade incentivava e trabalhava pra ficar mainstream-mente famosa. Ela não só aceitava como requeria que sua produção musical fosse pop o suficiente pra seguir subindo nos charts - o que só resultou em hits, de fato, duas vezes: uma com Give Your Heart A Break (Unbroken) e outra com Heart Attack (DEMI). 

Foi a época em que Demi mais trabalhou pra virar o que ela queria virar - e note: o que ela queria, e não o que ela era. A receita pra fazer sucesso nunca foi quem Demi de fato era. Caso fosse, Demi hoje seria uma artista classe A assim como suas colegas de firma da época, Miley e Selena. 

Aqui parece não haver tantos problemas de conflito de identidade. Mais branda e mais controlada que sua versão anterior, essa Demi tinha muitos compromissos, muitos contratos e muito trabalho à fazer. No entanto, sua estética pareceu fluída nesse período de tempo, de certa forma. Demi abusa das coisas muito, muito rápido. Não só nas mudanças de cabelo, seu estilo pessoal foi uma incógnita ao decorrer desses dois anos. Nunca dava pra saber se Demi apareceria de vestido longo e salto alto, de calça preta e camiseta xadrez, de aplique no cabelo ou de cabeça raspada (aconteceu, várias vezes). Parecia que ela experimentava de tudo um pouco, do jeito que dava, só por estar entediada. 

O resultado não foi lá essas coisas, e sua inconstância de estilos dificultava o trabalho da mídia de colocava dentro de uma caixa só, com o propósito de atrair o público específico para tal. Talvez fosse esse o motivo pelo qual Demi seguiu em seu objetivo pessoal de sempre ser uma Demi diferente em cada nova aparição pública. 

Até que Demi cansou de mudar toda hora...

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No próximo bloco...

Fase Seis: Gênesis e a Verdadeira Estabilidade
Fase Sete: O Amadurecimento? 
Fase Oito: O Renascimento e o Decair
Fase Nove: Queer, Militante e Maconheira Assumide

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Tem tão mais a ser falado, tantas mais imagens e tantas outras nuances, que eu não posso simplesmente continuar falando e falando pra sempre - vai acabar meu espaço. Assim como Demi Lovato, esse texto foi feito para ter uma continuação (mas nunca uma conclusão).

Percebo que sigo uma certa fascinação com artistas que nasceram pra ser flop. O que é curioso, porque adivinhem como eu conheci nosso Ator Classe C Favorito, do post anterior? Adivinhem qual foi o primeiro contato que tive com ele, a primeira vez que o vi na vida? 


É, meus amigos... Quem amaldiçoou quem, é difícil saber. Mas nada mais fascinante do que pessoas com potencial com escolha errada atrás de escolha errada, uma perpétua alma de pobre. 

Pra me deixar entretida, você só tem que ser brega.