Darren Criss em Hollywood, o que deu errado? Um dossiê sobre um eterno artista classe C


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POV: o ano é 2009 e você é um estudante da Universidade de Michigan. A notícia do momento é uma produção musical escrita, dirigida e produzida pelos alunos de Belas Artes. Um musical sobre o que? Harry Potter. A Very Potter Musical foi um projeto do grupo de teatro da Universidade eternizado ao ser upado, na íntegra, no Youtube. Em meados de 2010, fãs de Harry Potter (e, por que não?, de teatro musical em si) no mundo todo já conheciam a peça onde o Draco Malfoy (antagonista) roubava a cena, a ser interpretado por uma garota com um timing impecável pra comédia - e, é claro, a icônica música Granger Danger, dueto de Ron Weasley e Draco Malfoy descobrindo, juntos, seu amor por Hermione Granger. 

O sucesso foi grande (no mundo das interwebs), mas não o necessário pra trazer o estudante que interpretava o próprio Harry Potter ao estrelato - que não só atuou, mas também escreveu e compôs grande parte dos memoráveis momentos musicais apresentados. Mas tudo bem, porque nem seis meses depois do sucesso repentino da peça de teatro, nosso garoto de cabelo cacheado estaria gravando um vídeo de audição para outro projeto musical - um televisivo, dessa vez. O vídeo de audição eventualmente chegou nas mãos Dele, que hoje tem um império de programas televisivos ruins, o primeiro em seu nome a ser um escritor tão ruim que se consolidou como produtor: Ryan Murphy.

Nosso garoto de cabelo cacheado já não era mais conhecido por cantar Back to Hogwarts no violão, ou errar as falas do próprio musical que ajudou a escrever. Agora ele era uma mini, mini estrela em ascensão, cheio de possibilidades ao chegar em Hollywood recém saído da Universidade. Darren Criss agora era conhecido por Blaine Anderson, nosso gay adolescente favorito, eternizado por gravatas borboletas, muito gel no cabelo e, é claro, o principal romance gay da televisão entre 2010-2015: o casal Klaine (Kurt Hummel + Blaine Anderson). 

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Mas esse não é um texto sobre Glee, ou sequer sobre Klaine - que, convenhamos, confessem!, é a melhor parte de Glee. Esse texto provavelmente vai vir algum dia, porque a gente (eu) tem que debater sobre como algo pode começar tão bem e despencar ladeira abaixo tão rápido, mas que o decair é do homem (temporadas 4-5) e o levantar é de Deus (temporada 6, sem ironia). Mas hoje não. Hoje a gente vai falar só Dele - nossa estrelinha de cabelo cacheado, e sobre por que a estrelinha nunca nasceu de fato. Continua como um meteorito. Darren Criss podia ter sido um dos grandes, um marco - tinha o apoio, a plataforma, os conhecidos. O que deu errado?

Vamos pelo mais fácil. O que deu certo? Bem vindos à gloriosa award season de 2018/2019, os maiores anos da carreira do nosso DC: depois da estreia de The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story (produzida e assinada por quem? Ele mesmo), Darren era o menino dos olhos das críticas. No maior papel de sua carreira televisiva, ao interpretar o psicopata Andrew Cunanan, assassino de Gianni Versace, corroborando com a consolidação de Donatella como chefe da marca Versace, Darren Criss fez a limpa em todos os prêmios da temporada, faturando 1 Emmy, 1 Globo de Ouro, 1 Critic's Choice (e sermão da Lady Gaga na mesma noite), 1 Screen Actors Guild e 1 Satellite Award (sei nem o que é isso). 

Me lembro muito bem de acompanhar toda essa temporada de premiação incrédula e abobalhada de ver nosso menino sendo reconhecido! De vê-lo sentado entre os grandes! De estarem notando algo que eu sempre soube! Na noite do Emmy, pessoas ME parabenizaram. Pessoas me desejaram boa sorte. Era esse meu nível de comprometimento com o maior (e talvez único) ato de Darren Criss em Hollywood. Isso era significativo! Ele ganhou pro Benedict Cumberbatch! Ele cresceu, sabe que cresceu, e agora sim virará nossa estrela classe A! Com paparazzis seguindo na rua, participando de eventos relevantes, atuando em outros grandes papéis. E então...

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Nada. E então nada. 

No maior anticlímax da história das carreiras, Darren Criss voltou pro que sabia fazer de melhor: ser um artista classe C. E tudo bem, a gente gosta de artistas classe C: Rita Ora, que tem um nome conhecido mas não passa pra nada além disso. Kerline do BBB21, nossa subcelebridade favorita. Todo mundo tem um artista classe C de estimação. Mas o que houve, Darren? Entre conseguir um emprego na televisão meses depois de formado, ser apadrinhado pelo maior da televisão (Ryan Murphy é péssimo sozinho, mas é ótimo em apadrinhar pessoas, ver: Sarah Paulson), fazer arrastão nos mais importantes prêmios televisivos... É curioso, no mínimo. 

E é por isso que eu vou dar meus 10 trocados e discutir Motivos Pelo Qual Poderia Ser Mas Não Foi, uma pesquisa necessária - mas não séria. Definitivamente não séria. Por favor, não me levem a sério - (N/A: levem. sempre me levem a sério). 

1. Darren Criss não é LGBTQ+...

...para choque de todos. Tudo bem ter héteros no mundo, isso não seria um problema (seria), até você reparar que estabeleceu toda sua carreira em personagens LGBT. De Blaine Anderson (gay), a Andrew Cunanan (gay psicopata), a Hedwig (queer), Darren Criss ficou conhecido e estabelecido como um ícone gay - algo que não chegou a passar dos seus personagens. Darren foi obrigado a sair do armário várias vezes, não pra relevar que era LGBT, mas sim pra esclarecer que era um homem hétero. 

Vocês vão achar que eu estou exagerando sobre isso até eu pontuar aqui que ele realmente se pronunciou e comprometeu a não mais aceitar papéis LGBT para interpretar: "I want to make sure I won’t be another straight boy taking a gay man’s role", ele disse, depois de já ter tirado uns 4 e ganhar toda a fortuna dele até então em cima disso. 

Não quero entrar na discussão - na seriedade -, de ser aceitável ou não que um homem cis hétero interprete personagens LGBT. Deus me livre, já chega de coisas sérias, esse não é esse tipo de blog. Só quero escrever por diversão. Dito isso, meus dois neurônios concluem que Darren Criss seria tão mais celebrado por aí se ele fosse só... gay.

:p 

2. Darren Criss é brega (e a esposa dele também)

Eu nem sei se quero escrever sobre esse ponto, porque me dói a vista e vai arruinar a estética do meu blog. Mas por fora dos eventos de Hollywood, por fora dos Met Galas e festivais na Itália, Darren Criss é só mais um homem brega. 

Essa é a sala dele. 

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Tipo? Tem perdão? Não tem. 

Muito da breguice do Darren é o que eu mais gosto dele, na verdade. Me dói os olhos, mas me abraça o coração. Como assim... um homem com dinheiro e reconhecido pela crítica, mesmo que apenas uma vez... vive assim... damn bitch u live like this? Andando de regata, chinelos, chapéu de atlética e bermudas cor de rosa no centro de Los Angeles? 

Quando o Darren casou (não, gente, não foi com um homem! oooo já avisei!), nem meus maiores pesadelos me prepararam pro show de breguice que foi o encontro civil e matrimonial das duas mais bregas pessoas que já moraram no planeta Terra. A breguice da esposa do Darren, a Mia von Criss (começa por aí - ela atribuiu o sobrenome do marido ao nome artístico, Mia Von Glitz. Sim. Eu nem consigo inventar uma coisas dessas), chega a ser pior do que a dele mesmo - o que é uma maldição ou uma dádiva, depende do ângulo que você analisa.

Toda a dinâmica Mia & Darren é um prato cheio para estudos antropológicos. São tantas nuances espetaculares que aqui eu luto pra selecionar minhas favoritas. Uma vez uma amiga me disse que os dois passaram a vibe daqueles casais que você sabe que a mulher é a ativa - e que ela provavelmente tinha uma cinta strap pra usar com ele. Os dois são literalmente essa atmosfera. 

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Eu vou deixar o link de uma matéria da Vogue com tudo que rolou no casamento dos dois, simplesmente porque não tenho espaço o suficiente pra destrinchar - e esse foi só um dos eventos. 

Mia e Darren também tem um piano bar juntos, o Tramp Stamp Granny’s em Los Angeles, diretamente inspirado no Marie’s Crisis Cafe de Nova York - um café/piano bar que grandes nomes da Broadway vão pra cantar showtunes com todo o público. A estética do bar da Mia e do Darren, no entanto, é ser trashy - segundo eles. Uma atmosfera bem casa de avó imoral que gosta de falar a palavra "priquito" porque acha engraçado. O bar já conseguiu reunir o elenco do finado Glee pra cantar Don't Stop Believing, com um Darren bêbado acompanhando no piano, sem saber as letras, uma vez que ele não cantou a música mais famosa da própria série. Não é uma ideia ruim pra bar - eu adoraria! Só é... brega. Assim como eles. É totalmente eles. 

3. Darren Criss lança músicas péssimas

Escuta. Pra alguém que foi responsável por Granger Danger (que eu não ironicamente amo), e responsável pela icônica versão de Teenage Dream acústica no piano, era de se esperar que Darren só trabalhasse com músicas incríveis. De novo: O QUE HOUVE?

Eu amo o Darren compositor. Amo de verdade. O EP Homework é um dos meus trabalhos favoritos. Depois disso, foi com Deus. Darren anunciou recentemente um projeto de lançamento de vários singles inspirados em personas, personagens que não são pra ser ele - mas é claro que são. Quem mais seria tão brega? 

A última música lançada, "i can't dance", eu escutei antes de começar a escrever esse post. O Spotify tava no replay automático, e eu fui obrigada a desligar, porque uma vez foi o suficiente. Não sei se quero passar por essa de novo. Pra mim, o melhor do Darren é o Darren simples. Músicas em que ele compõe sozinho no violão ou no piano (foi assim que nasceu a minha favorita, Words, nunca lançada mas sempre apreciada, que me obrigou a baixar um mp3 youtube converter igual uma neandertal), são o suprassumo do que ele tem pra oferecer em composição e melodia - e ele tem muito a oferecer. 

Além de muito carismático, o Darren é muito criativo: meu feito favorito dele segue sendo o Elsie Fest, um festival criado por ele pra ser uma versão minimizada de um Lollapalooza, só que com acts do teatro musical. Acontecia anualmente no Central Park, e ele é tão Classe C que o festival fazia pelos outros o que não conseguia fazer por ele: todo ano o Darren convidada pessoas que, de algum jeito, explodiam no ano seguinte. Darren levou a Olivia Rodrigo na última edição. Darren levou o cast de O Rei do Show antes do filme estrear. Darren panfletou Dear Evan Hansen antes do musical virar o que virou. Como nosso artista Classe C favorito, ele tem um feitiço que abraça a carreira de todo mundo - menos a dele própria. 

Mas, assim. O nome da minha cachorra é Elsie por causa do festival. Então algum feitiço ele tem, sim - pra mim. 

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Coisas que o Darren já fez que não tem perdão/que ninguém lembra:

  • Ser amigo da Lea Michele;
  • O episódio musical de Flash com Supergirl;
  • Uma participação especial na temporada de American Horror Story da Lady Gaga - por 4 segundos;
  • Uma série musical que absolutamente ninguém assiste (Royalties), mas que tem participação da antagonista da Olivia Rodrigo: Sabrina Carpenter;
  • LMDC Tour: uma turnê só ele e a Lea Michele;
  • Falar "it can happen, never say never" quando perguntado sobre um relacionamento com o Chris Colfer - e abrir o mar vermelho que foi o queerbaiting em cima do casal inexistente CrissColfer;
  • Cantar Skyscraper com Demi Lovato de microfone desligado;
  • Beijar o Chris Colfer ao vivo. DEIXE este pobre homem gay eM PAZ!!! 
  • Responder "who knows who I came out to as a straight man" quando perguntado sobre sua sexualidade - mais um grande marco da abertura dos portões pra uma carreira sustentada pelo queerbaiting e pink money;
  • Uma live com a Lea Michele;
  • Participar não uma vez, mas DUAS vezes, do podcast da Becca Tobin (a Kitty de Glee), que é a única pessoa do ramo que consegue ser tãoooo mais rebaixada que ele - uma completa Classe F;
  • Anunciar o próprio podcast com uma das irmãs Haim - provavelmente a que ninguém liga;
  • Ir num show da Taylor Swift e ficar na grade berrando como um fã que provavelmente seria escolhido pra uma Secret Session. 
  • Ter concordado em participar do episódio dos fantoches em Glee & ainda ter cantado What Does The Fox Say;
  • Não ensinar a Lea Michele a ler.
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Falo tudo isso com amor, vocês sabem. 

Mal posso esperar pra novas notícias bregas da nossa subcelebridade favorita. Algumas mentes criativas são mais seguras sendo classe C e D. Classe A seria perigoso demais pra nossa estrelinha cheia de potencial, mas tão, tão peculiar. Personalidades assim oferecem muito mais entretenimento se nascem e morrem como subcelebs

Tem sempre espaço pra mais um nesse mundinho composto por mim & mais 4 gatos pingados (todas grandes amigas). 

E o melhor é que eu nem falei tudo. 

Ainda tem espaço pra parte II. 

Juliette, cultura de fandom e a incessante busca por uma heroína

 

De novo, Denise? Falando da Juliette de novo? Obcecada pela Juliette mais que os próprios cactos? 

Quer saber? Talvez. Talvez eu esteja admitindo aqui, de primeira mão, o meu claro interesse pelo assunto Juliette. Mas isso me faz especial? Dificilmente. No ano do BBB21, basta ter dados móveis pra ser puxado pro meio do redemoinho que virou a paraibana com chapéu de cangaço. A história da mulher que entrou como gente e saiu sendo marca. 

Não sou a pessoa mais qualificada da internet pra comentar ou recapitular a [jornada] da Juliette no Big Brother ("que jornada?", eu teria perguntado, em algum comentário nos últimos dias de programa). De perseguida a...? O que mais teve? O que mais aconteceu pra, no meio de grandes participantes do jogo, da mesma edição, a Juliette virar um fenômeno? 

Não foi uma conclusão só minha, mas foi na qual eu cheguei: Juliette foi ela mesma.  

Não se enganem, ser "você mesmo" num programa com câmeras que não desligam nunca não é um espectro ilimitado do exercício do ser - têm incontáveis estudos por aí que mostram que, ao estarmos cientes de que somos observados, a autenticidade genuína é quase impossível. Só de saber que está sendo gravado, você já se condiciona a reprimir comportamentos que não te valorizam e intensificar aqueles que o fazem. E tudo bem. Imagina que loucura seria ser você mesmo, sem filtros e sem ressalvas, por meses pra toda Rede Globo ver. Imagina andar só de calcinha e deitar de bunda pra cima pro Boninho ficar analisando na sala de direção (vocês não?). Mesmo com as ressalvas, os filtro e a falta deles, a Juliette chegou o mais perto que chegaria se fosse um quarta-feira de carnaval numa casa alugada com 12 amigos e mais 9 agregados. Quem diz isso não sou, mas a própria terapeuta dela: segundo Juliette, a psicóloga que a acompanhou por anos assistia o BBB com o prontuário na mão, dando um check em todos os pontos que ela analisou e previu que Juliette faria e falaria em diversas situações do programa. E ela acertou a grande maioria. (Façam terapia, é sério.)

Mas justifica? O que você precisa ser pra ganhar o amor - e fanatismo - de milhões (quase 30, pra ser mais específica)? Quem você precisa ser? Quais os atributos necessários, as características? O que o público tá esperando de alguém pra que, ao visualizar os requisitos, entregue toda uma devoção fervorosa pra quem nem conhece? E, cá pra nós, o mais importante: a Juliette tem tudo isso mesmo? 

Pelo histórico, vocês tão provavelmente esperando que esse seja minha diss track (diss post) pra Juliette. A Mariah Carey escrevendo Obsessed pro Eminem ("é o contrário!", vocês vão dizer), ou a Katy Perry mandando Swish Swish pra Taylor Swift. Sinto muito desapontar os hates no Curious Cat que estavam já escritos pra serem enviados, mas hoje não vai ser isso. Na verdade, desde que o Big Brother acabou, eu não senti nada além de solidariedade pela Juliette - muitas vezes até pena. 

Perguntar o que a Juliette tem de especial pra virar Jesus Cristo mulher dessa geração não é mais uma afronta pessoal à Juliette - até porque é meio f*da-se vocês ligarem tanto pro que eu penso sobre uma mulher milionária. Pergunto porque realmente tenho curiosidade de saber se vocês sequer refletiram sobre a Juliette ter ou não todos esses atributos - simplesmente porque vocês só decidiram que ela tinha. Eu sei o que é ser fã, eu sou fã de coisas desde que me entendo por gente, eu expresso minha personalidade sendo fã de coisas e pessoas. Mas essa obsessão por pessoas reais justificada em "ela é super verdadeira!", e ainda assim perpetuando uma cobrança de comportamento e pensamento que simplesmente não é e nunca foi o que o objeto da obsessão tem a oferecer, é doentio. Não, é literalmente doentio. Vocês adoeceram a Juliette. 

"Eu tenho dormido pouquíssimo. No dia em que consegui descansar melhor, foram cinco horas de sono. Nos outros, duas ou três, ou não dormi. Também não tenho conseguido me alimentar direito, por causa da ansiedade — detalha Ju, de 31 anos, que tem circulado na companhia de um segurança acostumado a proteger artistas: — Esta fase está sendo a mais crítica da minha carreira. Chique eu, né, falando em carreira? Além disso, o meu psicológico não está 100%. Comecei a ter problema de ansiedade no início da pandemia, mas não era algo patológico, a se tratar. Agora, está muito intenso, chego a me tremer toda. Tenho medo de tudo. Quando tem muita gente junta, temo que as pessoas se machuquem. Quando falo, temo machucar alguém. Tenho receio de usar uma palavra errada. Eu me assusto com o poder da minha opinião e as consequências dela." (Fonte)

Que a cultura de fandom é doida assim a gente já sabia, não precisa ir muito longe no Twitter pra saber. Mas vocês sequer balancearam, na cabeça de vocês, a diferença do endeusamento de uma pessoa pública, já treinada pra isso, pro endeusamento de uma pessoa "normal"? Eu nem consigo imaginar quão grande deve ser o choque de entrar como uma anônima e sair como alguém que precisa se esconder pra conseguir respirar. A própria Juliette fala sobre isso na entrevista com o Hugo Gloss, sobre como é injusto colocá-la num pódio que ela não se preparou e nem pediu pra estar. E se você reclama disso, você é mal agradecida. E se você abraça e celebra isso, você é oportunista. Ela já tá ciente de que nada que ela faça vai ser o suficiente, que nada que ela escolha vai agradar em totalidade o público que entregou pra ela o que ela tem hoje. E é por isso que é tão delicado: o público da Juliette - ela chama de cactos, eu chamo de máfia - sempre vai sentir que ela é uma subordinada. Que ela deve isso a eles. "Você não sabe o quanto a gente votou. A gente te deu um milhão, e você não vai aparecer nos stories pra dar oi?"

A cultura de fandom, com a Juliette, chegou em níveis impensáveis de controle e chantagem. Tenho pena dela, na maior parte do tempo. São +30 milhões de pessoas que se acham responsáveis pelo seu presente, e que querem pedaços de você de volta. Mas ela nunca prometeu esses pedaços pra vocês. Ao cobrar tanto a autenticidade que ela mostrava em confinamento, vocês a assustam tanto que o único resultado é uma Juliette retraída, mecânica, de roteiros. Mas isso não é literalmente o contrário do que vocês, cactos, tanto celebravam nela? Vocês cobram a autenticidade de volta, mas como, se nada é igual pra ela? Como, se ela tá ciente que o que vocês estão esperando que ela seja ela nem é de verdade? E um fandom obcecado tá pronto pra receber essa notícia? Claro que não. 

Os heróis brasileiro de fato morreram - de overdose, de tiro, de covid. E o Brasil, sempre o Brasil!, esse que é sempre tão passional quando é fã de algo, que se vangloria de cantar mais alto em todos os shows, que se orgulha da gritaria em aeroporto e de seus acampamentos de meses na frente de hotel e estádio. Esse Brasil tá sempre pronto pra encontrar um novo herói, sempre. Talvez porque a gente nunca teve um de verdade - exceto o Lula, que não morreu, mas foi preso. Esse povo que tanto sofre tá sempre atento pra uma nova figura imaculada, uma nova salvadora, uma nova pessoa que é superior e que vai curar onde dói. A Juliette ganhou o título de heroína que ela nunca quis ou procurou ter - e agora é ela mesma que sofre das consequências disso. Mas tudo bem, porque o Brasil agora tem uma namoradinha, uma mulher divertida, com classe, que sabe se colocar bem - ao mesmo tempo que oferece alívio cômico ao tropeçar em letras e trocar palavras no meio de discursos tão bem pensados. 

E como num relacionamento tóxico, se a namorada do Brasil não aparece pra dar bom dia nos stories, ela rapidamente se torna indigna, ingrata, controlada por toda uma equipe que provavelmente é culpada pelo seu sumiço - porque nunca que nossa Juliette estaria reclusa por escolha própria, por medo. 

Fã sempre vai tentar preencher um buraco com alguém que é só isso mesmo - alguém. Pessoas reais não preenchem buracos pessoais. 

A Juliette é uma pessoa normal. É engraçada como uma pessoa normal, mas também fala merda como uma pessoa normal (várias vezes eu fui pessoalmente atacada com coisas que ela falou sem pensar dentro da casa). É resiliente como uma pessoa normal, mas também quebra como uma pessoa normal. Quanto mais rápido o fandom culture compreender que pessoas são só pessoas - subjetivas pessoas, seres pensantes que erram todo dia e que sentem e que choram e que tem as mesmas 24h/por dia que todo mundo tem -, mais fácil vai ser pra todo mundo. 

E é por isso que nunca acaba essa busca por um herói ou heroína - aquela pessoa que vai salvar a gente, que vai tirar nossa tristeza, que vai ser tudo de bom concentrado numa pessoa só. Porque se tem um povo que sente a necessidade de ser salvo, esse povo é o brasileiro. É o que explica tamanha dedicação em louvar quem ousa oferecer um carinho mais genuíno, um abraço mais longo - quem ousa simplesmente ser. Mas é aquilo: calma Juliette, ele só foi educado.

Calma, Brasil. Ela só foi educada. 

das vezes que vivi na sua sombra

há uma garota - vamos chamá-la de diana. diana tentava ser a melhor em tudo mas só produzia mediocridade (ou assim me dizia). não aceitava, porém, que o resto do mundo concordasse com ela. exceto em todos os outros momentos em que exigia ser a única a receber totalidade de concordância. de regra: tinha que estar certa todo o tempo, mas não quando sabia estar certa sobre si mesma. "tá tudo bem com a auto depreciação desde que ninguém concorde comigo", ela dizia. e ai de quem não concordasse com diana. nessa dança foram um, três, talvez cinco amigos e conhecidos que desistiram de tentar entendê-la - sem saber que, na desistência de tentar entender, foram os que mais chegaram perto de fazê-lo.  

ensaiava toda fala, calculava todo tato, escrevia diversas rimas, fazia tudo na exata perfeição exigida a uma figura pública sem de fato ser uma. na verdade, era reservada. demasiadamente reservada. numa dessas, como uma de suas contradições, chamou isso de seu privilégio e sua sina. tudo era para um público, mas não havia público. e que bom que não havia. mas que droga que não havia. alguns dias acordava sendo sol, alguns dias acordava sendo lua, e assim ia, de dia em dia e de humor em humor, variando como o céu variava de laranja a azul, da manhã ao anoitecer, ou como a água troca de forma conforme o ambiente. se moldava com muita destreza ao ambiente que era inserida, quase que maquiavelicamente, esperando ser exatamente o que queriam que ela fosse e, ao mesmo tempo, nada do que esperavam. era rio para os doces e mar para os ácidos, fria para os invernos e quente para os ensolarados. não fazia de propósito, simplesmente era. se moldava aos requisitos ao seu redor de forma a ser sempre aceita, sempre apreciada.

e então passava. aquela autenticidade calculada cansava. se entediava muito fácil, a diana. e quando acontecia, e sempre acontecia, formava um casulo em volta de si ao passo que já planejava, em silêncio, qual seria sua próxima pele. e aí surgia outra. e outra. e outra. e outra. e não paravam de surgir, porque pessoas não param de aparecer e situações novas não param de se formalizar. até que abusava do seu próprio eu, das pessoas, dos ambientes, e fazia de novo.

não diria que diana tinha múltiplas personalidades, muito menos que manipulava todos ao seu redor por bel prazer. todas essas metamorfoses eram, de fato, ela mesma. nunca algo inventado. ela. e eram vários, diversos, infinitos pedaços dela. consigo ver como uma dádiva o que muitas vezes viam como maldição, essa mudança constante dela. mas toda dádiva tem um preço, um porém, uma ressalva. a dela se materializava na queixa que sempre fazia, não importa em que fase estivesse: não me conhecem de verdade. não entendem. ninguém, nunca.

"como, diana?" cheguei a perguntar uma vez, esperando que me explicasse, como sempre fez. esperando que me olhasse nos olhos com afeto e compreensão, aquele afeto que marcava o começo dos seus vínculos com qualquer pessoa disposta a encará-la, e me falasse o que eu não havia entendido e ela, como de praxe, sim. 

vi o olhar, o afeto e a compressão. mas não falou. tempos depois entendi que era parte do processo. eu deveria entender sozinha, pois, caso houvesse me explicado antes, teria provado seu ponto. "não entendem".

pensando nos motivos pelos quais eu não poderia entender, ironicamente, entendi. entendi que diana sentia não a conhecerem porque, ao se mutilar tantas vezes em partes tão pequenas para se recriar de novo e de novo, não conseguia oferecer pedaços grandes de si. eram todos ela, sim, toda vez  - sempre pedaços dela e dela somente -, mas era só isso que eram. pedaços. pedacinhos que ela criava de si, analisava, escolhia pessoas, vidas, vivências para se encaixar. mas quando encaixava, sempre entristecia com a dúvida se celebrava por ter sido aceita ou se sofria por ter sido só um pedaço aceita. 

adaptava-se a tudo e todos e, ao final do dia, sentia remorso por não ser o suficiente como inteira. ou talvez por ser demais como inteira. picotava-se para estar em todos os lugares mas, como descobri tempos depois, não estava completa em lugar algum. 

nesse dia entendi que talvez todos os outros estivessem certos. talvez não fosse uma dádiva, no final das contas. 

não consegui contar minha conclusão à diana. não consegui dizer que havia entendido. que havia a entendido. 

a perdi de vista e, tanto tempo depois, a perdi também de memória. sua presença foi diminuindo, e diminuindo, e diminuindo. nesse processo - o que eu desconfiava ser seu processo casulo -, vi diana duas vezes: a primeira num jantar com champagne demasiado, grandes vestidos, ternos caros e luzes brilhosas; a segunda, num banco à sombra, com uma revista qualquer no colo, acompanhada apenas de um copo descartável vazio. diana, que eu conheci como sendo mais brilhante que as luzes e mais alta que o champagne, parecia morta na primeira e extremamente viva na segunda. 

quando tive minha conclusão, diana já nem era mais minha diana que longos vestidos verdes e morangos mergulhados na champagne.

mas eu a vi. a compreendi. me pergunto se mudaria algo, caso ela soubesse disso. me pergunto se ela pensaria diferente sobre si se soubesse que eu entendi. 

até hoje me pergunto que forma diana está exercendo agora. que vida, que personalidade, que vivências, que peculiaridades... surpresa, me dou conta de que sei de todas. conheço todas que assumiu até então. tenho teorias sobre quais deve estar assumindo. 

com o tempo, percebi que foquei-me tanto em entender diana que esqueci de mim. relevei que talvez ela não me entendesse. no fim, eu não seria nada mais que uma história antiga pra ela, uma vez que nem a deixou curiosa, nem a instigou a desvendar.

descobri que, no final das contas, eu também não sabia quem eu era. mas sabia quem era diana.

como um mantra, repeti as palavras que me trouxeram até aqui: não me conhecem. não entendem. ninguém. nunca.

e bem assim, bem aí, me senti partir em mil pedacinhos, prestes a entregar o primeiro deles a quem primeiro conseguisse-me encaixar.
 



01/? dos escritos jamais publicados.

oi, de novo. :)

com todo o amor de sempre, 
deni

une eau s'il vous plaît



*Os nomes citados nesse texto foram modificados para a preservação de identidade dos personagens, não pela possibilidade que isso sequer caia em suas mãos, mas sim pela grande paranoia de não querer responder um processo por danos morais. 

Rodrigo* sempre foi a áurea mais brilhante do ambiente de trabalho. Chegava depois de todo mundo, com pasta na mão e copo vazio pronto pra ser enchido com café quente e doce toda manhã - mas sua chegava já trazia a certeza de que ganharias um beijo na testa e um abraço. Caso não tenhas costume de trabalhar num escritório, te confirmo que nada é tão The Office. Poucas vezes existe algo além do bom dia e uma pergunta solta, às 10:30 da manhã, pra saber se o arquivo da semana passava já foi assinado. Mesmo assim, Rodrigo parecia fazer diferente. 

Ontem sentei com Rodrigo - não pela primeira vez, mas pela primeira vez que realmente importou. Reclamamos do chefe, seu Leonidas, e sua insuportável mania de cobrar demais e fazer de menos. Discutimos sobre doença mental, sobre medicação psiquiátrica, sobre nossos pais que não falam mais com a gente, sobre passar o dia dos pais sem pai. Sobre depender da mãe (pra mim, aos 21, algo natural - pra ele, já com cabelos grisalhos, algo mais vergonhoso). Rodrigo conta sobre estar noivo, sem um centavo no bolso, e sobre a conversa que teve com sua noiva dias atrás. "Minha vida é assim. Ela é disfuncional. Se isso é demais pra você, sugiro e aconselho que você termine comigo, passe 3 meses sofrendo muito, e no quarto encontre alguém numa situação melhor que vai lhe fazer feliz pro resto da vida". Ela não quis. Disse que só seria feliz com ele. Ele disse que não era verdade, mas não foi contra a escolha dela - também não queria se separar. Me confidenciou que, em todos os tópicos de sua própria vida, o relacionamento era o único que ia bem.

Disse isso pra mim, que havia passado a noite anterior inteira chorando por um antigo relacionamento que já não ia mais para lugar nenhum. Não consegui dizer isso pra ele. Não consegui confidenciar de volta que, enquanto ele contava a própria história, eu estava de olhos marejados por ele mas também por mim. 

Rodrigo perguntou se eu manjava de matemática. Disse que não. "Ótimo", ele respondeu. Pegou um pedaço pequeno de papel branco, rascunho, cuja parte de trás estava coberta de restos de processos trabalhistas já perdidos no tempo. Rodrigo fez um gráfico representando uma função negativa: a linha descia, descia, descia, mas, pelo pouco que aprendi de matemática (com ele, ali mesmo), descobri que nunca parava no zero. "Nunca vai dar zero. 1/0 não existe." Rodrigo disse que via aquela função como uma representação de tudo que a gente faz na vida. As coisas mais importantes e mais valiosas demoravam mais pra entrar em declínio - mas eventualmente entrariam, porque não é uma constante. Nada é uma constante pra sempre. Ele me deu um tapa no braço, sem avisar, e perguntou se doeu. Falei que não. Ele respondeu: "é porque não teve importância. O valor desse tapa foi menor, então, no teu gráfico, o tempo de vida dele, o quanto ele te afeta, já passou. É insignificante. Mas às vezes o tempo de vida útil do tapa pode levar meses, anos, pra desaparecer." 

Me disse que, obviamente, a perda de um ente querido demoraria bem mais pra estabilizar no gráfico da função negativa do que uma caneca quebrada. (Perdi minha tia menos de um mês atrás. Não sei se ele sabe, não sei se foi uma referência.) Minha vida não pareceria estar acabando porque quebrei uma das minhas canecas favoritas - mas talvez perder alguém parecesse que sim. Até não parecer mais. "A gente aprende a modificar o gráfico do jeito que a gente quer." 

Hoje sentei com Rodrigo de novo, e ele leu pra mim um parágrafo inteiro de O Fantasma da Ópera, versão original, em francês. Me ensinou a pronúncia de cada uma dessas palavras, me mostrou que o som do é é fechado e do ê é aberto, ao contrário da língua portuguesa. Falou "Christine Daaé" (Daaiê) em um sotaque francês perfeito. Falei que não fazia ideia de como reproduzir aqueles sons, e ele me disse que "se tu achar que não consegue, não vai conseguir mesmo". 

"E se eu tiver lá e quiser pedir uma água?"
"Une eau s'il vous plaît."

Aproveitando o momento, Rodrigo me disse que fazia parte de um grupo chamado "Colecionadores de Coisas Iguais". Descobri que colecionamos as mesmas coisas iguais: DVDs de Fantasma da Ópera versão filme, versão no palco, versão terror dos anos 50, o livro da história original, cover da música tema feita pela banda Nightwish. 

Perguntei o que ele achava da história. "Por exemplo," eu disse, "vi o filme pela primeira vez quando era criança e fiquei triste. Triste porque o fantasma continuou sofrendo, triste porque ele abriu mão da única pessoa que amava mesmo que significasse que ele continuaria sem amor, como sempre foi. Hoje em dia, vejo a história de novo e já acho completamente doentio. Ele é doente."

Rodrigo me respondeu que o fantasma, Erik, amou Christine da foma como ele conhecia ou entendia o amor: distorcido, exclusivo, obsessivo, egoísta. Achava que deveria ser um sentimento dele, e só pra ele, e que Christine só poderia viver em paz se significasse estar com ele - porque ele não estaria em paz sem ela. Nas cenas finais (alerta de spoiler), ele teve a única atitude de amor, o amor como ele é de verdade mesmo, para com Christine: deixou que ela fosse, mesmo que isso significasse sua própria solidão. Porque a felicidade e o bem-estar dela era mais importante que qualquer sentimento dele.

"Ele finalmente conseguiu ver que amor não era ter tudo dela pra si, mas deixar que ela fosse livre pra finalmente ser feliz."

Lembrei da noiva de Rodrigo. Lembrei que ele, sem sucesso, tentou deixá-la ir ao pensar que, longe dele, ela estaria melhor e eventualmente mais feliz. Lembrei de mim, e do que já deixei e ainda estou deixando ir, mesmo doendo, porque amo alguém ao ponto de colocar as vontades e necessidades dela acima das minhas próprias. 

Não sei se Rodrigo sabe o impacto que nossas últimas conversas me causou. Talvez não, porque eu não cheguei a mencionar, e já vivi o suficiente pra compreender que as pessoas não tem como adivinhar o que você não fala. Mas acho que ele tem uma ideia. Fui abraçada, ganhei um beijinho em demonstração de afeto, e ouvi depois que eu tenho um amigo. E que podemos estar em barquinhos parecidos, mas se eu quiser despejar um pouco da minha água pra tentar não me afogar, eu posso jogar - pois não vai prejudicar o barquinho dele. 


Queria dizer pra ele que entendo completamente o ponto de tudo isso, e a lição de moral foi entregue com sucesso - mas não significa que a dor de deixar ir seja menos pior. Honestamente, as últimas semanas, dias, e até meses, vêm sendo curvas altíssimas no meu gráfico, e provavelmente demorarão anos pra estabilizar. Nunca vai ser zero. O que não quer dizer que sempre ficarão no topo. Um dia, um belo dia, a curva vai descer, e a gente vai conseguir respirar de novo, e a dor da lembrança vai ter a mesma intensidade do tapa no ombro que Rodrigo me deu e não doeu. 

Perdi muitas coisas, deixei outras irem, mas seja lá o que aconteça no final desse período de desintoxicação emocional pelo qual estou passando, sigo feliz sabendo que sempre terá um Rodrigo. Uma Giovanna. Uma Vitória. Uma Gabriela. Uma Mariana. Um João. Uma Julia. Uma Isabelle e uma Nathalia. Sempre vai ter alguém. E mais alguém.





Este post de forma alguma apoia relacionamentos abusivos em que um Phantom justifica suas atitudes falando que "nunca conheceu amor pra saber como reproduzir de maneira correta". Se ele tenta matar seu namorado ou te mantem em cárcere privado, por favor denuncie.