Relatos do meu Gênesis

Frequento a igreja evangélica desde que me entendo por gente. Não foi necessariamente desde que nasci - minha mãe se converteu (ou: "migrou do catolicismo pro protestantismo", pra quem não entende o dialeto chaotic good dos termos da igreja) quando eu era criança, pequena demais pra lembrar exatamente como ou quando foi. Meu pai continuou sendo servo de deus nenhum, numa religião onde a única igreja dele aos domingos é a cerveja enquanto assiste futebol - e isso, sem surpreender a ninguém, resultou na óbvia e esperada separação dos dois. 

Sempre que eu perguntava a alguém por que os meus pais haviam se separado, a resposta era a mesma: "sua mãe é crente, seu pai não é". Eu não entendia muito bem o que isso queria dizer, mas já tinha aprendido desde cedo a não perguntar demais quando o assunto era religião. Meus questionamentos oscilavam entre irritar e intrigar as pessoas a quem eu os direcionava, querendo saber pra quem exatamente a gente orava ("é pra Deus, pra Jesus ou pro Espírito Santo? Qual deles tá me ouvindo?") ou "se Deus sabe de tudo, por que ele criou a terra e colocou a maçã no jardim se ele já sabia que Adão ia comer?". Até hoje não sei a resposta concreta dessas perguntas. "Não tem explicação pros mistérios de Deus, Denise", todos eles respondiam. Pra uma criança curiosa, era uma resposta horrorosa.

Sempre gosto de relatar minha primeira experiência com a ansiedade, no auge dos meus pouquíssimos cinco, seis anos de idade, quando comecei a entrar em pânico pensando que, quando eu morresse, eu provavelmente iria pro inferno, porque eu não era uma criança boa (nota da autora: a auto-sabotagem e auto-depreciação chegaram cedo pra essa que vos fala). Era um desespero assustador toda vez que eu soltava uma mentirinha dizendo que não, não fui eu que comi o biscoito guardado no armário - e, do nada, BOOM, meu nome já marcado no livro do inferno. Demorei anos, e anos, e anos, tentando me desvencilhar dessa agonia de achar que eu não podia errar de forma alguma porque, em algum momento no fim dos tempos, da maneira sobrenatural mais produção baixo orçamento da CW possível, eu iria pagar com minha alma.

É verdade quando falam que o que já tá ruim tende a piorar - porque daí foi só ladeira abaixo. Pra alguém que cresceu dento da igreja evangélica, com pastores que tanto pregaram a liberdade e alegria infinita dos chamados filhos de Deus, eu, por muito tempo, só sentia uma coisa: medo. Eu tinha medo do barulho que o pessoal fazia na Igreja. Medo de quem pulava, gritava, desmaiava estirado no chão (eles chamavam de arrebatamento, eu chamava de "meu Deus do céu alguém liga pro médico que a mulher morreu"). Medo de quando eles falavam "deixa o Senhor falar com você", e eu pedia, em silêncio, sozinha em casa, pra que Deus não falasse comigo porque eu iria chorar com uma voz do além querendo se comunicar de noite. São incontáveis as vezes que eu chorei e tive ataque de ansiedade quando minha mãe não atendia o telefone, porque eu achei que Jesus tinha voltado, levado a igreja (nunca houve dúvida nenhuma na minha cabeça que minha mãe seria uma das pessoas salvas) e eu tinha ficado. O famigerado filme Ultimato me trouxe war flashbacks dessa época, quando minha vida e saúde mental eram a imagem perfeita da galera que ficou na terra com traumas psicológicos. Deus era o Thanos e o arrebatamento era o estalo. Os que viraram pó eram os arrebatados. Na primeira sessão que assisti, lembro de virar pra alguém e comentar "nossa, muito apocalíptico esse filme né kkkkk....". O kkkk... eram risos nervosos.

Cresci sentindo tanto medo da experiência espiritual e de um Deus supremo que até esqueci de sentir medo do diabo e seus afins. 

Depois de crescer o suficiente pra entender que ninguém poderia me explicar o que não entendia, meu medo já não era mais o sobrenatural ou o inexplicável. Meu medo eram as próprias pessoas, a aversão aos meus princípios, a crueldade em palavras com quem tanto diziam amar, a pregação baseada em se colocar como superior e condenar todo mundo que parece ser diferente. Hoje, parando pra pensar, não foi meu medo atrelado ao desenvolvimento da minha precoce ansiedade que me tirou da igreja - foi o próprio comportamento humano. Mas, por mais que eu sempre seja a primeira na fila pra criticar a hipocrisia e a falta de caráter do cristão que se escora no cristianismo, hoje não é sobre isso. 

Assistindo Good Omens (ironicamente num domingo, o dia de Deus), ri com uma satisfação absurda ao perceber que eu sou, de fato, o anjo da história. Sem grandes spoilers, posso te dizer que o Aziraphale tá tão preocupado em fazer o certo, em obedecer os ordenamentos divinos, e com tanto medo de errar nisso, que ele é uma grande bolha de ansiedade, implorando em voz baixa "por favor, não briguem, a gente pode resolver isso na conversa - pra que um anti-cristo?". Eu fui (e sou?) essa persona. Cresci condicionada a agir e pensar com pureza, a representar poder divino, a buscar pela minha salvação e negar o que tentaria me desviar desse caminho - mas às vezes eu só queria comer sushi sem essas preocupações na minha cabeça. 



Hoje em dia, não tenho mais medo. O cristianismo é parte de mim - foi o que eu aprendi, foi com o que eu cresci. Demorou muito pra que fizéssemos as pazes, pra que eu parasse de culpá-lo pelas minhas próprias ansiedades, para que eu parasse de condená-lo pelo discurso humano. Gostando ou não, eu tive de aceitar que sou uma pessoa espiritual, pois toda minha concepção de existência e propósito foi moldado nessa ideia desde que eu aprendi a falar. E, como ser espiritual, eu preciso acreditar em algo. Eu preciso me confiar que alguém, alguma coisa, num plano superior, tá com tudo anotado num bloquinho. É exaustivo ser, sozinha, a pessoa que tenta organizar o bloquinho sozinha.

Numa reviravolta satisfatória dos fatos, como o bom Aziraphale que sou, encontrei um lugar que posso exercer minha espiritualidade sendo eu mesma, de um modo que foge do tradicional maçante e da hipocrisia que tanto condeno. Hoje em dia, pra mim, é mais real. É mais humano. É mais sobre o aqui e agora, tentando fazer o que a gente pode pra ter uma essência boa. É raro que eu esbarre hoje com a manifestação sobrenatural do divino, aquelas que envolvem rodopios e línguas estranhas. Longe de mim falar que existe um modo certo e um modo errado - o que existe é algo que funciona melhor pra mim, que me faz bem. E o que me faz bem, hoje, é poder me ver feliz vendo outras pessoas felizes, buscando uma energia que simplesmente não é daqui. 

É um processo lento que ainda tenho que me esforçar pra acostumar. Minhas incontáveis (i n c o n t á v e i s!) críticas ao papel do cristianismo hoje e à igreja como instituição às vezes falam bem mais alto do que minha vontade de fazer parte disso tudo. Mas as coisas acontecem de formas doidas.  

Em algum momento da semana passava eu tive outra crise de ansiedade. Meu quadro já tá estável faz tempo, graças à intervenção da psiquiatria (adendo: Deus não é psiquiatra nem terapeuta, procurem profissionais), o que significa que qualquer pequena crise é fácil de ser lembrada - porque ela é rara e única. Nessa em específico, lembro de já estar deitada quando uma nuvem negra de pavor se dissipou em cima de mim, e eu só conseguia pensar que um dia eu iria morrer, e nada disso faria sentido algum, e que todo mundo ia deixar de existir, e eu iria deixar de existir e, meu Deus, depois o que acontece?céu ou inferno e qualquer um a gente vai viver pra semore?praSEMPRE ETERNIDADE?nao cosnigo respirar? 

fim.

Foi assim até eu conseguir normalizar minha respiração. Ao relatar isso pra minha mãe no outro dia, a resposta dela eu já sabia: "você tem que entregar essas ansiedades pra Deus". Não sei se entreguei (respondi "aff mãe" e fiquei quieta), mas alguém pegou. Hoje fui à igreja, uma que não tem absolutamente nenhuma semelhança às nuances relatadas na igreja que eu cresci, e imaginem minha surpresa ao abrir a bíblia e encontrar um texto que dizia mais ou menos assim (tradução minha, pois minha bíblia é em inglês - mas aí é outra história):
 
24 Vou lhes dizer a verdade: se um grão de trigo não cair no chão e não morrer, ele vai continuar sendo só um grão de trigo. Mas, se ele morrer, dará muito mais trigo. 25 Quem ama demais a própria vida vai perdê-la, enquanto o homem que odeia sua vida nesse mundo vai continuar com ela pro resto da vida. 

Talvez não signifique nada pra ninguém - talvez as outras pessoas na igreja hoje nem tenha absorvido esse pedaço do texto do mesmo jeito que eu absorvi. Mas a gente é subjetivo mesmo, então isso não me assusta. Na minha cabeça isso funcionou como uma resposta de que eu não sei de nada com nada, e que, se existe morte, é pra existir vida. Religião não é terapia, mas pode ser terapêutico. 

Como o belo emaranhado de energia espiritual que sou, já me acostumei com a ideia de que eu sou quem sou - e o que eu acredito (e não acredito) também é parte disso. Uma das coisas mais bonitas do cristianismo, pra mim, sempre foi Cristo em si. Tenho pra mim que Jesus, o maior socialista e precursor dos Direitos Humanos de seu tempo, ficaria feliz com a imagem que tenho dele hoje.
 




(P.S.: não sofram tanto de culpa, crianças. Ninguém é 100% bom. Até o Aziraphale, que é um anjo, tem um melhor amigo que é um demônio. Nós, seres humanos, geralmente somos metade/metade de cada um.)

 



ainda completamente contra a bancada evangélica
- D.

bitch i'm back by popular demand

tive uma época que caso vazasse meu histórico do youtube, ele seria só uma lista infinita de todos os lives de crazy in love da beyoncé disponíveis na plataforma, ao ponto que hoje, ouvindo o live do i am... world tour, sei exatamente os passos e momentos da coreografia. depois o fenômeno absurdo que foi single ladies (o marco pra mim da mudança "cantora pop americana comum" pra "Ícone Artístico" - lembrando que sou de uma leva mais nova dessa geração e nem peguei a febre sandy & jr porque era criancinha demais), a figura Beyoncé (com B maiúsculo mesmo, representando santidade) se tornou uma figura canonizada mesmo, alguém que basicamente não existia além da personalidade artística, alguém que era tão intocável que a gente não sabia exatamente quem ela era além da artista que, inevitavelmente, todo mundo conhecia. 

era estranho pra mim que uma das mulheres mais conhecidas e populares do mundo tivesse sido construída quase que com o objetivo de ser inalcançável, moldada numa perspectiva completamente distante da realidade. me pergunto quanto disso foi escolha dela, quanto disso foi resultado da mídia e quanto foi construção alheia em cima de alguém que é simplesmente isso - alguém. é uma enredo conhecido demais, esse de artistas/performers se distanciando da figura real pra deixar à amostra só a personalidade construída especificamente pro entretenimento. a lady gaga fez no começo da carreira, quando todo mundo sabia quem era a doida que usava vestido de carne crua e passava dias presa dentro de um ovo, sendo carregada dentro dele em eventos; a taylor swift faz agora, depois que abraçou a narrativa que tanto a chamou de cobra, falsa e egocêntrica, quase que dizendo um "não me chamaram tanto disso? agora me vejam ser" no último álbum, depois de se retirar quase que completamente do ambiente midiático (são raras ou quase escassas as entrevistas que ela deu ou pronunciamentos pessoais que fez nesse período). 

entre elas e muitas outras, no entanto, a beyoncé me parecia a menos humana. não de um jeito ruim, nunca senti que faltasse autenticidade ou conexão pessoal no trabalho dela, pelo contrário. eu só achava que ela era perfeita demais pra existir no mundo real, no nosso mundo - assim como um dia já achei que a lady gaga era excêntrica demais pra ser um ser humano comum. o que documentários como homecoming e five foot two me trouxeram foi a afirmação do óbvio: elas eram, sim, reais. mostrar isso só ficava mais difícil quando todo um público global esperava de você certo comportamento, ou certa perfeição que, na prática, elas suavam e choravam e sentiam dor e iam a extremos inimagináveis pra conseguir atingir. 


vendo as performances do beychella, meu cérebro explodia pensando em como uma mulher de carne e osso como eu tinha a capacidade de mover o corpo daquele jeito, ao mesmo tempo que alcançava todas as notas e mantinha uma atitude no palco que era quase obviamente superior à todos os outros seres viventes - isso sem falar, é claro, de lembrar todas as letras, acertar as marcas no palco pra filmagem ficar certa, interagir com o público e com os dançarinos. vendo o produto final, é muito fácil a gente se deixar levar pra uma fantasia irreal de que aquilo é um nível de perfeição que só Ela tem, e só Ela, a Intocável e Inalcançável, faz. e talvez seja só ela que faça mesmo, na nossa indústria atual, mas ela não faz por ser absolutamente perfeita ou ter super poderes. é brabo engolir a ficha de que a beyoncé não é uma super humana.

não que eu merecesse que a bey me provasse alguma coisa, mas os bastidores de homecoming me provaram, sim, que ela é gente. acredite ou não, ela não nasceu sabendo a rotina de formation e, chocante!, durante os ensaios ela reclamava dos passos complicados, olhava pro dançarino do lado quando esquecia algo, fazia cara feia pro que ela não conseguia fazer e, apesar de tudo, tentava de novo. encontrei também a beyoncé sorridente dos dentes curtinhos, que se faz presente quando conversa com outra pessoa, que faz oração sincera oferecendo toda honra e glória à Deus, que fica feliz demais ao conseguir vestir um figurino antigo ao ponto de ligar pro marido só pra mostrar e depois fazer piada porque "homens não se animam com essas coisas". parecia haver um universo de diferença entre a beyoncé que quebra janelas de carros com um bastão de baiseball e a beyoncé que, de maneira tão vulnerável, compartilha ter chegado aos 99 quilos numa gravidez extremamente de risco que mudou toda a conexão dela com o próprio corpo. 

não é que eu não tenha visto essa beyoncé antes (eu já vi outros documentários e outras raras entrevistas em que ela fala de um ponto de vista pessoal e não o roteiro decorado que o PR oferece pra todos os artistas) - é que eu sentia falta dela. e era muito fácil esquecer que ela existia quando a figura com que eu tinha me acostumado era a personalidade dos palcos, a mulher que responde "obrigada" quando falam "você é a Beyoncé". quase como se a Beyoncé fosse a figura que ela passou anos construindo, e a verdadeira beyoncé estivesse agradecendo por ser vista nEla. 


 

o engraçado disso tudo, dessa personalidade criada pro nosso entretenimento, que a mídia gosta tanto de alimentar (e, sejamos honestos, nós também) é que ela não tem um padrão pra todo mundo. enquanto a beyoncé foi se aproximando cada vez mais desse recurso - ao mesmo tempo que quanto maior o nome dela ficava mais ela se distanciava da visão de ser humano real, a lady gaga por exemplo pegou o caminho inverso e resolveu se distanciar de toda a armadura performática que ela criou por anos, escolhendo um representação mais crua e real dela mesma (vide: joanne, a star is born, o já citado 5 foot 2). no final das contas, é só mais uma forma de expressão e como essas artistas escolhem usá-la. o ponto interessante nem é toda essa questão, muito embora ela seja, sim, interessante demais. o ponto interessante é como a gente é completamente viciado nesse material, e quanto mais enigmático mais sedento a gente fica.

dia desses vi um vídeo da billie eilish (uma dessas personalidades que no momento tá no auge da sua popularidade) em que ela refez a mesma entrevista com 1 ano de diferença, e o vídeo era editado pra mostrar exatamente as diferenças entre esses dois momentos. não era preciso ler os comentários do vídeo pra deduzir sozinha que a mudança nela nesse intervalo de 1 ano era visível: ela já não tinha a mesma inocência, ou a mesma pureza real de uma menina de 16 anos que escolheu compartilhar a própria arte. ela aparentava estar mais cansada, não sorria mais com a mesma facilidade de um ano atrás, e se mostrava claramente emocionada ao se comparar com as filmagens antigas, ao ponto de chegar a perguntar "eu falei mesmo isso? se você ao menos soubesse..."

não tenho propriedade nenhuma pra falar sobre a indústria, ou sobre o que ela pode e faz com pessoas reais - mas, numa visão geral, se ela não fosse completamente controladora, ela não seria tão lucrativa. a própria billie eilish já disse, e eu quoto, que "artistas são os seres mais tristes do mundo". é quase insensível que a gente se divirta tanto em cima disso, e mesmo que inconscientemente trate seres humanos como máquinas que só existem pra nos entreter.

a cultura pop sempre me fascinou porque amo ver pessoas indo além de seus extremos pra fazerem o que mais ninguém está fazendo - e amarem isso. sempre gostei porque era bonito e inspirador demais ver o processo de produção, por exemplo, do homecoming, e ouvir a beyoncé dizendo que deixou a coroa de flores de lado pra colocar cultura negra naquele palco, e todo o cuidado e estudo que ela teve pra executar isso. sempre gostei porque beirava ao absurdo ver a lady gaga fazendo performances com o quadril já quebrado e gritando de dor durante a música, sem falar pra ninguém, porque ela simplesmente se obrigava a terminar a turnê. ainda é intrigante pra mim ver gente que ama tanto exercer a própria arte que se entrega físico e mentalmente pra isso. 

como mencionei antes, não sei até que ponto a culpa é completamente nossa ou da cultura que nos obrigaram a ter - por que, em pleno 2019, como ousas não se divertir ou se importar com o celebridades classe A? como ASSIM você não sabe quem é a kim kardashian? é um comportamento que adoece pessoas reais, a quem a gente passa toda uma vida projetando uma perfeição e heroísmo que não existe. chega a ser uma parada meio epicurista - um tipo de prazer não necessário que a gente gosta de ter mesmo sem precisar, e o tipo de prazer que pra eles vem na forma de fama, prestígio e dinheiro, que no final das contas não leva à liberdade espiritual plena (palavras de epicuro, não minhas - eu queria, sim, dinheiro agora). mas como a gente é humano e humano geralmente é meio otário, toda essa reflexão vai continuar me rondando até eu me ocupar o suficiente pensando em que era a lady gaga vai seguir no novo álbum, ou como a beyoncé parece deus.

no mais, eu já perdi completamente o raciocínio, então meu último objetivo aqui é mandar vocês verem homecoming e absorverem a mensagem feminista e de excelência negra que beyoncé nos deu de graça (ou por 29 reais de assinatura na netflix) em forma de expressão artística. de nada.




*in other news: fiquei tão inspirada que voltei pra cá. esta merda é poderosa.

 



do you slay?
cause i slay.
- d

Sobre ser medíocre em coisas que amo


Eu não consigo ser boa em nada que de fato me importa.

Nada me dói mais do que saber que eu tenho tanto a oferecer, que eu poderia ser tão mais, mas simplesmente não saber como. É o sentimento de abrir uma página e querer vomitar todos os pensamentos que claramente estão ali, mas que não sabem como sair. Pra ser completamente sincera, minha vida parece uma coletânea de páginas e mais páginas abertas no Word, com o contador do número de palavras marcando zero, formado incontáveis capítulos sem conteúdo nenhum, sem nada a oferecer.

Não sei em que ponto da minha formação eu coloquei na cabeça que não bastava ser uma simples admiradora ou que eu não podia só olhar de longe - eu precisava me incluir. Eu precisava me expressar nas formas que eu gostava de ver as coisas sendo expressadas. Minha maior desilusão foi perceber que eu não era boa fazendo isso, em forma nenhuma.

A arte na minha vida sempre foi um divisor de águas muito grande. Era tudo que eu tinha quando criança, desde pequena sempre a mais sujeita à ficar sozinha. Era minha base de estudo quando adolescente, foi o que moldou todos os meus gostos e desejos e o que sempre aumentava minha vontade de conhecer mais e achar que esse mais ainda não era o suficiente. Até então, já era o suficiente pra mim assistir, acompanhar e explorar de longe. Algo mudou ao decorrer desses anos todos, algo que não deixava mais isso funcionar como sempre veio funcionando. Faltava algo - algo que precisava ser feito, não visto. Eu queria produzir e não mais ser apenas a consumidora do produzido.

Tentei me achar de tantas formas que é até vergonhoso listar. A coisa mais dolorosa do mundo, pra mim, é ter consciência de tudo que já tentei começar e concluir que não consegui nada. Esporadicamente algo finaliza ok. Esporadicamente algo que eu fiz, pra minha surpresa, toca alguém. Não é sempre, e eu não me iludo prendendo-me a esses pequenos momentos, porque minha balança sempre vai pesar muito mais pro lado que não deu certo. O que quase deu certo. O que teria dado certo caso eu fosse outra pessoa, ou estivesse em outro momento, ou tivesse outra oportunidade.

Já falei algumas vezes sobre não ser boa nem ruim, só mediana. É algo que eu tomo como verdade, e não seria tão difícil de aceitar de maneira tranquila se eu não fosse eu. No final das contas, tudo se resume nisso: sou eu sendo eu. Ser eu significa sempre querer ser algo a mais, sempre almejar pro mais alto e construir expectativas próprias que jamais seriam alcançadas. Sempre sonhei grande demais pra ações muito pequenas. Foram muitas ideias incríveis mas porcamente realizadas - ou nem isso. Muita vontade de ser algo grandioso mas pouca força de vontade para tal. 

Foram muitos choros desesperados gritando comigo mesma na frustração de não entender porque eu amo tanto e não sou boa em nada daquilo que amo. De sentir demais e não deixar transparecer esse sentir das formas que realmente me importam. Horas e horas seguidas de comparações, me perguntando porque as coisas não eram simples pra mim como era para outros e porque as oportunidades e elogios não caiam no meu prato. E eu nem tenho um prato. O prato que eu tenho é na verdade uma bandeja, servida de textos acadêmicos e doutrinas e legislações que nada tem a ver com o que eu de fato queria estar produzindo. Olhar pra isso e notar que minha realidade é totalmente diferente do que eu passei a vida inteira planejando, mesmo sem rumo, é a pior parte. 

Não é como se eu estivesse implorando por atenção ou pedindo pelo amor de Deus que valorizem meu trabalho. É sobre simplesmente desejar que existisse um trabalho. Que me importasse. Que fosse além de petições genéricas e nome de reclamante contra nome de reclamado. Que fosse sobre fazer algo que vem do sentimento, e que parte pra outro sentimento, e que pode tocar outras pessoas em sentimentos totalmente diferentes do inicial. É um processo muito difícil aceitar que o que você faz de melhor é o genérico que funciona na rotina do escritório que cheira a café e que tem todos os dias iguais entre si - e que o que você realmente gostaria de estar fazendo talvez não seja pra você. 

Sair dessa bolha da mania de fuga, de querer ser outra pessoa com outros talentos e outras oportunidades, é um processo difícil. Não é fácil colocar em perspectiva, pela primeira vez na vida adulta, o que é pra você e o que não é, o que funciona e não funciona. Ver que as respostas são totalmente diferentes daquelas que você tomou como verdade te faz repensar todos os questionamentos que você mesma criou. 

A ideia do que seria talento é uma coisa engraçada. Alguns dizem que se nasce com ele, outros falam que é puro processo e aprendizagem. Nesse meu tempo de vida eu não consegui desenvolver em nenhuma das duas formas, então talvez simplesmente não seja pra mim. Não esse, não do jeito que eu queria que fosse. E nós (como diria Elis Regina: que somos jovens) temos um problema sério em não saber lidar com as situações quando descobrimos que elas não estão seguindo do jeito que pensamos que elas seguiriam. Mas tá tudo bem. Tá tudo bem aceitar isso e se procurar em outro lugar, começar de novo e definir outras prioridades - só é outro longo, tumultuado processo. Mas tá tudo bem. Se eu repetir mais uma vez, talvez eu e você consigamos acreditar nisso.

O que eu sei (ou espero) é que tem mais coisa nesse mundo afora. Admiro tanto todo mundo que já se descobriu. Mas ainda choro ao pensar que as certezas que eu tinha sobre o que era certo pra mim já não existem mais. Talvez seja a mesma história da felicidade: é sobre o processo, o caminho, e não sobre um lugar para se chegar. Não é o que dizem? A gente só precisa descobrir antes qual realmente é o nosso caminho.

Sigo na procura do processo.

 




 



Nota, de mim pra mim mesma, com palavras que eu gostaria de ouvir numa atitude dramática de ser meu próprio Sebastian: tá tudo bem ser uma dessas pessoas. Que tem sonhos gigantes e de repente percebe que simplesmente são gigantes demais pra alguém tão pequeno quanto você. Tá tudo bem mesmo. As coisas se dão de maneiras diferentes. O que nos espera ou o que nos convém nem sempre podem ou devem ser nossos sonhos mais doidos. Se fosse fácil assim, a gente não chamaria de sonho. Só não esqueça de sonhar. Ainda pode ser algo seu. Ainda pode ser algo que funciona pra você, mas não do jeito que você quer que seja.

Mas ainda é seu. 

 


 
com amor - e dor. mas sempre com amor,
d🌻 

O mundo é vasto e eu quero criar memórias

Desde o dia que saí da maternidade até por volta dos meus 9, 10 anos de idade, eu tinha uma casa. Não simplesmente uma casa, uma casa, daquelas que tem mais história que cômodos e mais lembranças que espaço. Quando minha avó morreu e a casa pareceu grande demais pra só (naquela época) uma mulher e uma menina, o processo todo de mudança não me pareceu tão importante. Estava mais preocupada em saber se nos possíveis apartamentos que agora eu moraria tinha piscina e/ou playground, e se meu quarto ia ser grande o suficiente - não tão grande quanto o último, pois é o que acontece em mudanças de casa pra apartamento. Tudo numa versão em miniatura de algo que você já teve em tamanho real. 

Não sei ao certo em que ponto da minha vida eu achei que qualquer lugar seria melhor que esse. "Mas você quer ir pra onde, quais seus planos?", já me perguntaram diversas vezes. Não sei, não tenho. Só sei que quero sair.

A sensação de se sentir presa e incapacitada de atingir seu real potencial e culpar o ambiente ao redor sempre foi muito palpável pra mim. Mesmo ciente de que mudar geograficamente não é mudar espiritualmente, e que traumas, medos e ansiedades me acompanhariam daqui até outro continente - mesmo compreendendo tudo isso, sair sempre me passou uma ideia de nirvana, de (re)começo, de "finalmente ser quem eu quero ser". No lugar onde nasci e me criei, onde minhas raízes continuam fortes demais para que eu consiga me livrar delas sem sentir dor, ser feliz e ser livre não parece uma possibilidade pra mim. Só parece uma contínua e infinita repetição do que sempre foi minha rotina, composta de medíocres ações que são resultado de escolhas que não foram minhas, e de dedicação meia boca, e da pura e bruta necessidade de sobrevivência em uma realidade que não sinto que é a minha. 

Já me disseram incontáveis vezes que essa ideia que construí - a de necessitar sair por aí pra finalmente me encontrar - é fadada ao fracasso. Que quem faz minha própria felicidade sou eu, não o lugar que estou inserida. Que isso é fugir dos próprios conflitos e dar as costas pra algo que pode (e precisa) ser lidado diretamente. Talvez. Talvez eu só sou medrosa demais pra admitir que na verdade estou fugindo de tudo isso e justificando numa ideia abstrata, numa fé cega em algo tão fácil de evaporar, depois se tornando em planos esquecíveis. Como o pensamento que te sonda durante todo o ensino médio te fazendo acreditar que o ensino superior vai ser bem melhor, uma vez que estaria focada somente nas coisas que de fato gosta. Ou morre-se de desgosto no caminho ou se vive o suficiente pra saber que tudo isso é uma grande mentira contada por quem foi abraçado pela sorte, beijado pelo destino ou cobrido de privilégios.

Mas talvez - e esse é o pedacinho a que me agarro, o pedacinho da possibilidade, que nos permite e muitas vezes nos obriga a planejar e a sonhar coisas que racionalmente não fazem o menor sentido, mas que emocionalmente são perfeitas - talvez, seja isso. A parte que falta. Tal qual aquele livro d'a parte que falta em mim, na incansável procura de algo que fechasse a solidão própria e que completasse toda a existência de um ser que não sabia para que ou por que existia. Dramaticamente eu me comparo ao círculo daquela história - roda, roda, caí, gira, roda mais um pouco, tenta e tenta e não encontra propósito ou possibilidade nenhuma. Sei que a história tem um final feliz e lembro vagamente de terminar com uma descoberta própria, algo na reflexão moral de ele mesmo ser a parte que faltava em si, mas, se estou sendo sincera, não foi o final esperançoso e moralista que me chamou atenção. Eu nem lembro do final. Mas eu lembro do enredo. E do processo. E da incessante procura por algo que parecia óbvio pra quem olhasse de fora. E na teimosia de tentar achar esse algo.

Quando a Greta representou a própria vontade (parece que não estamos tão sozinhos assim na nossa miséria after all) de largar a cidade pequena, de largar a atitude controladora da mãe e os dramas que pareciam tão frívolos e pequenos para um mundo inteiro que a esperava lá fora, como dizem os jovens do twitter: i felt that. Senti na necessidade de Christine de largar Sacramento, na aversão que ela mostrava ter pela cidade e pelos seus costumes e comportamentos, mas senti mais ainda no exato momento em que ela consegue sair. Sair de Sacramento representava sonhos, e se achar no mundo, e conhecer esse mesmo mundo; estar perto da cultura e de pessoas que não são as suas pessoas mas sim outras pessoas. E mesmo assim, por algum motivo, algo parecia faltar.

Você ficou emotivo na primeira vez que dirigiu pela sua Sacramento? Eu sim. Em meio a tremores de nervosismo por estar dirigindo um carro sozinha pela primeira vez, lá no fundo ainda conseguia se fazer perceptível a minúscula gota de confiança. Porque é um caminho que você conhece. São as ruas do bairro que você estudou. São os prédios que você viu sendo construídos, e derrubados, e construídos de novo, mas agora com uma farmácia no lugar. São as árvores que nunca morreram e as pessoas que naturalmente você não suporta, mas que, olhando de longe, parecem tão inofensivas e frágeis, esperando o momento certo para atravessar a faixa de pedestre. 

Talvez não tenha tido outro momento tão significativo quanto esse - quanto minha própria experiência de dirigir pela minha Sacramento e pensar que, meu Deus, mesmo com tanta vontade de sair daqui, é inegável que sentirei falta. O que não diminui minha vontade de ir embora, mas é até surpreendente a realização pessoal de que, de fato, a gente consegue guardar um pedaço que é especial, mesmo em experiências que, de modo geral, não foram. 

Como todo filme da Disney/Pixar, Moana tem um significado mais forte pra gente que é (jovem) adulto do que para as próprias crianças, que preferem prestar atenção na mitologia e nos tons saturados das cores em tela quando na verdade a obra toda é uma metáfora pra sociologia, meio ambiente, e as relações humanas dentro de um sistema capitalista. Mesmo sabendo e apreciando isso, pra mim foi sobre ter uma personagem que amava o lugar e mesmo assim queria sair dali. Que fazia seu papel feliz da vida, que tinha tarefas e obrigações e um mérito próprio na realização dessas. Não existia, nesse caso, o drama de querer partir para se livrar de nada, ou para querer se descobrir. Moana já se conhecia, Moana não tinha que fugir pra se tornar alguém, pois ela já era esse alguém. Em meio a cenas visualmente bonitas, poeticamente inspiradoras e músicas queridas, me cativou a ideia que alguém que já pertencia também queria sair. 

Então talvez esteja na nossa essência. A gente nunca quer o que tem. E quando a gente consegue o que quer, a gente quer mais, ou a gente quer de maneira diferente. Talvez estejamos condicionados a nunca aceitar o real e sempre aspirar à possibilidades.

Talvez, talvez. Muitos talvezes.

De alguma forma, pode ser que a vida não seja sobre se achar. Pode ser que ela seja sobre todo o processo da procura.

Eu não só tinha uma casa como ainda tenho. Não a possuo, não a detenho - ela continua no mesmo bairro onde me criei, longe demais para que não seja uma ideia interessante dirigir até lá para passar a tarde. Por ironia do destino ou não, minha universidade fica no mesmo bairro, o que me obriga a estar lá pertinho dela todos os dias, de segunda a sábado. Mesmo assim, não paro pra ver ou entrar. É minha casa - minha diferente, reformada e agora-um-restaurante casa, onde sei que o buraco na parede se formou durante minhas tentativas de aprender a andar de bicicleta, onde sempre vai cair manga no quintal e onde o espaço que ficava meu antigo quarto até hoje guarda as marcas do meu nome, profissionalmente escrito na parede por um pintor que já morreu. 

Minha casa onde eu pertencia, e de certa forma ainda pertenço. E, mesmo assim, pesquisar apartamentos que tinham piscina me parecia tão mais animador e me oferecia tantas outras oportunidades...

Hoje em dia, continuo no apartamento com piscina. Eu nunca tomo banho nela. Sinto muita falta da minha casa.

Mas não quero voltar. Que minha casa descanse em paz, que minhas memórias nela (e dela) continuem vivas. A parte da minha vida que ela representa foi uma ótima parte, mas sair dela me deu uma nova. E o que é nossa vida além de diversas partes, desorganizadas em vários capítulos, esperando para serem finalizados e, por fim, dar espaço a um novo? O que é nossa experiência na terra se não uma incansável busca por algo que nem nós mesmos sabendo o que é, com um desejo gigante de descobrir o que seria o mais longe possível - bem longe do ambiente do capítulo anterior, só por precaução, só pra garantir que o capítulo novo seja exatamente isso: novo.

Na semana antes de viajar pra São Paulo, comentei com algumas pessoas o quão mal estava me sentindo de sair de casa. O vazio de saber que não teria meu ambiente, minha família, meu já decorado conforto. De sentir falta de onde você pertence mesmo. Lembro que alguém virou pra mim e me respondeu "isso significa que você vem de um lugar feliz".  

Talvez - só talvez - seja sobre se dar conta disso.



 



até a próxima, 
d🌻