bitch i'm back by popular demand

tive uma época que caso vazasse meu histórico do youtube, ele seria só uma lista infinita de todos os lives de crazy in love da beyoncé disponíveis na plataforma, ao ponto que hoje, ouvindo o live do i am... world tour, sei exatamente os passos e momentos da coreografia. depois o fenômeno absurdo que foi single ladies (o marco pra mim da mudança "cantora pop americana comum" pra "Ícone Artístico" - lembrando que sou de uma leva mais nova dessa geração e nem peguei a febre sandy & jr porque era criancinha demais), a figura Beyoncé (com B maiúsculo mesmo, representando santidade) se tornou uma figura canonizada mesmo, alguém que basicamente não existia além da personalidade artística, alguém que era tão intocável que a gente não sabia exatamente quem ela era além da artista que, inevitavelmente, todo mundo conhecia. 

era estranho pra mim que uma das mulheres mais conhecidas e populares do mundo tivesse sido construída quase que com o objetivo de ser inalcançável, moldada numa perspectiva completamente distante da realidade. me pergunto quanto disso foi escolha dela, quanto disso foi resultado da mídia e quanto foi construção alheia em cima de alguém que é simplesmente isso - alguém. é uma enredo conhecido demais, esse de artistas/performers se distanciando da figura real pra deixar à amostra só a personalidade construída especificamente pro entretenimento. a lady gaga fez no começo da carreira, quando todo mundo sabia quem era a doida que usava vestido de carne crua e passava dias presa dentro de um ovo, sendo carregada dentro dele em eventos; a taylor swift faz agora, depois que abraçou a narrativa que tanto a chamou de cobra, falsa e egocêntrica, quase que dizendo um "não me chamaram tanto disso? agora me vejam ser" no último álbum, depois de se retirar quase que completamente do ambiente midiático (são raras ou quase escassas as entrevistas que ela deu ou pronunciamentos pessoais que fez nesse período). 

entre elas e muitas outras, no entanto, a beyoncé me parecia a menos humana. não de um jeito ruim, nunca senti que faltasse autenticidade ou conexão pessoal no trabalho dela, pelo contrário. eu só achava que ela era perfeita demais pra existir no mundo real, no nosso mundo - assim como um dia já achei que a lady gaga era excêntrica demais pra ser um ser humano comum. o que documentários como homecoming e five foot two me trouxeram foi a afirmação do óbvio: elas eram, sim, reais. mostrar isso só ficava mais difícil quando todo um público global esperava de você certo comportamento, ou certa perfeição que, na prática, elas suavam e choravam e sentiam dor e iam a extremos inimagináveis pra conseguir atingir. 


vendo as performances do beychella, meu cérebro explodia pensando em como uma mulher de carne e osso como eu tinha a capacidade de mover o corpo daquele jeito, ao mesmo tempo que alcançava todas as notas e mantinha uma atitude no palco que era quase obviamente superior à todos os outros seres viventes - isso sem falar, é claro, de lembrar todas as letras, acertar as marcas no palco pra filmagem ficar certa, interagir com o público e com os dançarinos. vendo o produto final, é muito fácil a gente se deixar levar pra uma fantasia irreal de que aquilo é um nível de perfeição que só Ela tem, e só Ela, a Intocável e Inalcançável, faz. e talvez seja só ela que faça mesmo, na nossa indústria atual, mas ela não faz por ser absolutamente perfeita ou ter super poderes. é brabo engolir a ficha de que a beyoncé não é uma super humana.

não que eu merecesse que a bey me provasse alguma coisa, mas os bastidores de homecoming me provaram, sim, que ela é gente. acredite ou não, ela não nasceu sabendo a rotina de formation e, chocante!, durante os ensaios ela reclamava dos passos complicados, olhava pro dançarino do lado quando esquecia algo, fazia cara feia pro que ela não conseguia fazer e, apesar de tudo, tentava de novo. encontrei também a beyoncé sorridente dos dentes curtinhos, que se faz presente quando conversa com outra pessoa, que faz oração sincera oferecendo toda honra e glória à Deus, que fica feliz demais ao conseguir vestir um figurino antigo ao ponto de ligar pro marido só pra mostrar e depois fazer piada porque "homens não se animam com essas coisas". parecia haver um universo de diferença entre a beyoncé que quebra janelas de carros com um bastão de baiseball e a beyoncé que, de maneira tão vulnerável, compartilha ter chegado aos 99 quilos numa gravidez extremamente de risco que mudou toda a conexão dela com o próprio corpo. 

não é que eu não tenha visto essa beyoncé antes (eu já vi outros documentários e outras raras entrevistas em que ela fala de um ponto de vista pessoal e não o roteiro decorado que o PR oferece pra todos os artistas) - é que eu sentia falta dela. e era muito fácil esquecer que ela existia quando a figura com que eu tinha me acostumado era a personalidade dos palcos, a mulher que responde "obrigada" quando falam "você é a Beyoncé". quase como se a Beyoncé fosse a figura que ela passou anos construindo, e a verdadeira beyoncé estivesse agradecendo por ser vista nEla. 


 

o engraçado disso tudo, dessa personalidade criada pro nosso entretenimento, que a mídia gosta tanto de alimentar (e, sejamos honestos, nós também) é que ela não tem um padrão pra todo mundo. enquanto a beyoncé foi se aproximando cada vez mais desse recurso - ao mesmo tempo que quanto maior o nome dela ficava mais ela se distanciava da visão de ser humano real, a lady gaga por exemplo pegou o caminho inverso e resolveu se distanciar de toda a armadura performática que ela criou por anos, escolhendo um representação mais crua e real dela mesma (vide: joanne, a star is born, o já citado 5 foot 2). no final das contas, é só mais uma forma de expressão e como essas artistas escolhem usá-la. o ponto interessante nem é toda essa questão, muito embora ela seja, sim, interessante demais. o ponto interessante é como a gente é completamente viciado nesse material, e quanto mais enigmático mais sedento a gente fica.

dia desses vi um vídeo da billie eilish (uma dessas personalidades que no momento tá no auge da sua popularidade) em que ela refez a mesma entrevista com 1 ano de diferença, e o vídeo era editado pra mostrar exatamente as diferenças entre esses dois momentos. não era preciso ler os comentários do vídeo pra deduzir sozinha que a mudança nela nesse intervalo de 1 ano era visível: ela já não tinha a mesma inocência, ou a mesma pureza real de uma menina de 16 anos que escolheu compartilhar a própria arte. ela aparentava estar mais cansada, não sorria mais com a mesma facilidade de um ano atrás, e se mostrava claramente emocionada ao se comparar com as filmagens antigas, ao ponto de chegar a perguntar "eu falei mesmo isso? se você ao menos soubesse..."

não tenho propriedade nenhuma pra falar sobre a indústria, ou sobre o que ela pode e faz com pessoas reais - mas, numa visão geral, se ela não fosse completamente controladora, ela não seria tão lucrativa. a própria billie eilish já disse, e eu quoto, que "artistas são os seres mais tristes do mundo". é quase insensível que a gente se divirta tanto em cima disso, e mesmo que inconscientemente trate seres humanos como máquinas que só existem pra nos entreter.

a cultura pop sempre me fascinou porque amo ver pessoas indo além de seus extremos pra fazerem o que mais ninguém está fazendo - e amarem isso. sempre gostei porque era bonito e inspirador demais ver o processo de produção, por exemplo, do homecoming, e ouvir a beyoncé dizendo que deixou a coroa de flores de lado pra colocar cultura negra naquele palco, e todo o cuidado e estudo que ela teve pra executar isso. sempre gostei porque beirava ao absurdo ver a lady gaga fazendo performances com o quadril já quebrado e gritando de dor durante a música, sem falar pra ninguém, porque ela simplesmente se obrigava a terminar a turnê. ainda é intrigante pra mim ver gente que ama tanto exercer a própria arte que se entrega físico e mentalmente pra isso. 

como mencionei antes, não sei até que ponto a culpa é completamente nossa ou da cultura que nos obrigaram a ter - por que, em pleno 2019, como ousas não se divertir ou se importar com o celebridades classe A? como ASSIM você não sabe quem é a kim kardashian? é um comportamento que adoece pessoas reais, a quem a gente passa toda uma vida projetando uma perfeição e heroísmo que não existe. chega a ser uma parada meio epicurista - um tipo de prazer não necessário que a gente gosta de ter mesmo sem precisar, e o tipo de prazer que pra eles vem na forma de fama, prestígio e dinheiro, que no final das contas não leva à liberdade espiritual plena (palavras de epicuro, não minhas - eu queria, sim, dinheiro agora). mas como a gente é humano e humano geralmente é meio otário, toda essa reflexão vai continuar me rondando até eu me ocupar o suficiente pensando em que era a lady gaga vai seguir no novo álbum, ou como a beyoncé parece deus.

no mais, eu já perdi completamente o raciocínio, então meu último objetivo aqui é mandar vocês verem homecoming e absorverem a mensagem feminista e de excelência negra que beyoncé nos deu de graça (ou por 29 reais de assinatura na netflix) em forma de expressão artística. de nada.




*in other news: fiquei tão inspirada que voltei pra cá. esta merda é poderosa.

 



do you slay?
cause i slay.
- d

Sobre ser medíocre em coisas que amo


Eu não consigo ser boa em nada que de fato me importa.

Nada me dói mais do que saber que eu tenho tanto a oferecer, que eu poderia ser tão mais, mas simplesmente não saber como. É o sentimento de abrir uma página e querer vomitar todos os pensamentos que claramente estão ali, mas que não sabem como sair. Pra ser completamente sincera, minha vida parece uma coletânea de páginas e mais páginas abertas no Word, com o contador do número de palavras marcando zero, formado incontáveis capítulos sem conteúdo nenhum, sem nada a oferecer.

Não sei em que ponto da minha formação eu coloquei na cabeça que não bastava ser uma simples admiradora ou que eu não podia só olhar de longe - eu precisava me incluir. Eu precisava me expressar nas formas que eu gostava de ver as coisas sendo expressadas. Minha maior desilusão foi perceber que eu não era boa fazendo isso, em forma nenhuma.

A arte na minha vida sempre foi um divisor de águas muito grande. Era tudo que eu tinha quando criança, desde pequena sempre a mais sujeita à ficar sozinha. Era minha base de estudo quando adolescente, foi o que moldou todos os meus gostos e desejos e o que sempre aumentava minha vontade de conhecer mais e achar que esse mais ainda não era o suficiente. Até então, já era o suficiente pra mim assistir, acompanhar e explorar de longe. Algo mudou ao decorrer desses anos todos, algo que não deixava mais isso funcionar como sempre veio funcionando. Faltava algo - algo que precisava ser feito, não visto. Eu queria produzir e não mais ser apenas a consumidora do produzido.

Tentei me achar de tantas formas que é até vergonhoso listar. A coisa mais dolorosa do mundo, pra mim, é ter consciência de tudo que já tentei começar e concluir que não consegui nada. Esporadicamente algo finaliza ok. Esporadicamente algo que eu fiz, pra minha surpresa, toca alguém. Não é sempre, e eu não me iludo prendendo-me a esses pequenos momentos, porque minha balança sempre vai pesar muito mais pro lado que não deu certo. O que quase deu certo. O que teria dado certo caso eu fosse outra pessoa, ou estivesse em outro momento, ou tivesse outra oportunidade.

Já falei algumas vezes sobre não ser boa nem ruim, só mediana. É algo que eu tomo como verdade, e não seria tão difícil de aceitar de maneira tranquila se eu não fosse eu. No final das contas, tudo se resume nisso: sou eu sendo eu. Ser eu significa sempre querer ser algo a mais, sempre almejar pro mais alto e construir expectativas próprias que jamais seriam alcançadas. Sempre sonhei grande demais pra ações muito pequenas. Foram muitas ideias incríveis mas porcamente realizadas - ou nem isso. Muita vontade de ser algo grandioso mas pouca força de vontade para tal. 

Foram muitos choros desesperados gritando comigo mesma na frustração de não entender porque eu amo tanto e não sou boa em nada daquilo que amo. De sentir demais e não deixar transparecer esse sentir das formas que realmente me importam. Horas e horas seguidas de comparações, me perguntando porque as coisas não eram simples pra mim como era para outros e porque as oportunidades e elogios não caiam no meu prato. E eu nem tenho um prato. O prato que eu tenho é na verdade uma bandeja, servida de textos acadêmicos e doutrinas e legislações que nada tem a ver com o que eu de fato queria estar produzindo. Olhar pra isso e notar que minha realidade é totalmente diferente do que eu passei a vida inteira planejando, mesmo sem rumo, é a pior parte. 

Não é como se eu estivesse implorando por atenção ou pedindo pelo amor de Deus que valorizem meu trabalho. É sobre simplesmente desejar que existisse um trabalho. Que me importasse. Que fosse além de petições genéricas e nome de reclamante contra nome de reclamado. Que fosse sobre fazer algo que vem do sentimento, e que parte pra outro sentimento, e que pode tocar outras pessoas em sentimentos totalmente diferentes do inicial. É um processo muito difícil aceitar que o que você faz de melhor é o genérico que funciona na rotina do escritório que cheira a café e que tem todos os dias iguais entre si - e que o que você realmente gostaria de estar fazendo talvez não seja pra você. 

Sair dessa bolha da mania de fuga, de querer ser outra pessoa com outros talentos e outras oportunidades, é um processo difícil. Não é fácil colocar em perspectiva, pela primeira vez na vida adulta, o que é pra você e o que não é, o que funciona e não funciona. Ver que as respostas são totalmente diferentes daquelas que você tomou como verdade te faz repensar todos os questionamentos que você mesma criou. 

A ideia do que seria talento é uma coisa engraçada. Alguns dizem que se nasce com ele, outros falam que é puro processo e aprendizagem. Nesse meu tempo de vida eu não consegui desenvolver em nenhuma das duas formas, então talvez simplesmente não seja pra mim. Não esse, não do jeito que eu queria que fosse. E nós (como diria Elis Regina: que somos jovens) temos um problema sério em não saber lidar com as situações quando descobrimos que elas não estão seguindo do jeito que pensamos que elas seguiriam. Mas tá tudo bem. Tá tudo bem aceitar isso e se procurar em outro lugar, começar de novo e definir outras prioridades - só é outro longo, tumultuado processo. Mas tá tudo bem. Se eu repetir mais uma vez, talvez eu e você consigamos acreditar nisso.

O que eu sei (ou espero) é que tem mais coisa nesse mundo afora. Admiro tanto todo mundo que já se descobriu. Mas ainda choro ao pensar que as certezas que eu tinha sobre o que era certo pra mim já não existem mais. Talvez seja a mesma história da felicidade: é sobre o processo, o caminho, e não sobre um lugar para se chegar. Não é o que dizem? A gente só precisa descobrir antes qual realmente é o nosso caminho.

Sigo na procura do processo.

 




 



Nota, de mim pra mim mesma, com palavras que eu gostaria de ouvir numa atitude dramática de ser meu próprio Sebastian: tá tudo bem ser uma dessas pessoas. Que tem sonhos gigantes e de repente percebe que simplesmente são gigantes demais pra alguém tão pequeno quanto você. Tá tudo bem mesmo. As coisas se dão de maneiras diferentes. O que nos espera ou o que nos convém nem sempre podem ou devem ser nossos sonhos mais doidos. Se fosse fácil assim, a gente não chamaria de sonho. Só não esqueça de sonhar. Ainda pode ser algo seu. Ainda pode ser algo que funciona pra você, mas não do jeito que você quer que seja.

Mas ainda é seu. 

 


 
com amor - e dor. mas sempre com amor,
d🌻 

O mundo é vasto e eu quero criar memórias

Desde o dia que saí da maternidade até por volta dos meus 9, 10 anos de idade, eu tinha uma casa. Não simplesmente uma casa, uma casa, daquelas que tem mais história que cômodos e mais lembranças que espaço. Quando minha avó morreu e a casa pareceu grande demais pra só (naquela época) uma mulher e uma menina, o processo todo de mudança não me pareceu tão importante. Estava mais preocupada em saber se nos possíveis apartamentos que agora eu moraria tinha piscina e/ou playground, e se meu quarto ia ser grande o suficiente - não tão grande quanto o último, pois é o que acontece em mudanças de casa pra apartamento. Tudo numa versão em miniatura de algo que você já teve em tamanho real. 

Não sei ao certo em que ponto da minha vida eu achei que qualquer lugar seria melhor que esse. "Mas você quer ir pra onde, quais seus planos?", já me perguntaram diversas vezes. Não sei, não tenho. Só sei que quero sair.

A sensação de se sentir presa e incapacitada de atingir seu real potencial e culpar o ambiente ao redor sempre foi muito palpável pra mim. Mesmo ciente de que mudar geograficamente não é mudar espiritualmente, e que traumas, medos e ansiedades me acompanhariam daqui até outro continente - mesmo compreendendo tudo isso, sair sempre me passou uma ideia de nirvana, de (re)começo, de "finalmente ser quem eu quero ser". No lugar onde nasci e me criei, onde minhas raízes continuam fortes demais para que eu consiga me livrar delas sem sentir dor, ser feliz e ser livre não parece uma possibilidade pra mim. Só parece uma contínua e infinita repetição do que sempre foi minha rotina, composta de medíocres ações que são resultado de escolhas que não foram minhas, e de dedicação meia boca, e da pura e bruta necessidade de sobrevivência em uma realidade que não sinto que é a minha. 

Já me disseram incontáveis vezes que essa ideia que construí - a de necessitar sair por aí pra finalmente me encontrar - é fadada ao fracasso. Que quem faz minha própria felicidade sou eu, não o lugar que estou inserida. Que isso é fugir dos próprios conflitos e dar as costas pra algo que pode (e precisa) ser lidado diretamente. Talvez. Talvez eu só sou medrosa demais pra admitir que na verdade estou fugindo de tudo isso e justificando numa ideia abstrata, numa fé cega em algo tão fácil de evaporar, depois se tornando em planos esquecíveis. Como o pensamento que te sonda durante todo o ensino médio te fazendo acreditar que o ensino superior vai ser bem melhor, uma vez que estaria focada somente nas coisas que de fato gosta. Ou morre-se de desgosto no caminho ou se vive o suficiente pra saber que tudo isso é uma grande mentira contada por quem foi abraçado pela sorte, beijado pelo destino ou cobrido de privilégios.

Mas talvez - e esse é o pedacinho a que me agarro, o pedacinho da possibilidade, que nos permite e muitas vezes nos obriga a planejar e a sonhar coisas que racionalmente não fazem o menor sentido, mas que emocionalmente são perfeitas - talvez, seja isso. A parte que falta. Tal qual aquele livro d'a parte que falta em mim, na incansável procura de algo que fechasse a solidão própria e que completasse toda a existência de um ser que não sabia para que ou por que existia. Dramaticamente eu me comparo ao círculo daquela história - roda, roda, caí, gira, roda mais um pouco, tenta e tenta e não encontra propósito ou possibilidade nenhuma. Sei que a história tem um final feliz e lembro vagamente de terminar com uma descoberta própria, algo na reflexão moral de ele mesmo ser a parte que faltava em si, mas, se estou sendo sincera, não foi o final esperançoso e moralista que me chamou atenção. Eu nem lembro do final. Mas eu lembro do enredo. E do processo. E da incessante procura por algo que parecia óbvio pra quem olhasse de fora. E na teimosia de tentar achar esse algo.

Quando a Greta representou a própria vontade (parece que não estamos tão sozinhos assim na nossa miséria after all) de largar a cidade pequena, de largar a atitude controladora da mãe e os dramas que pareciam tão frívolos e pequenos para um mundo inteiro que a esperava lá fora, como dizem os jovens do twitter: i felt that. Senti na necessidade de Christine de largar Sacramento, na aversão que ela mostrava ter pela cidade e pelos seus costumes e comportamentos, mas senti mais ainda no exato momento em que ela consegue sair. Sair de Sacramento representava sonhos, e se achar no mundo, e conhecer esse mesmo mundo; estar perto da cultura e de pessoas que não são as suas pessoas mas sim outras pessoas. E mesmo assim, por algum motivo, algo parecia faltar.

Você ficou emotivo na primeira vez que dirigiu pela sua Sacramento? Eu sim. Em meio a tremores de nervosismo por estar dirigindo um carro sozinha pela primeira vez, lá no fundo ainda conseguia se fazer perceptível a minúscula gota de confiança. Porque é um caminho que você conhece. São as ruas do bairro que você estudou. São os prédios que você viu sendo construídos, e derrubados, e construídos de novo, mas agora com uma farmácia no lugar. São as árvores que nunca morreram e as pessoas que naturalmente você não suporta, mas que, olhando de longe, parecem tão inofensivas e frágeis, esperando o momento certo para atravessar a faixa de pedestre. 

Talvez não tenha tido outro momento tão significativo quanto esse - quanto minha própria experiência de dirigir pela minha Sacramento e pensar que, meu Deus, mesmo com tanta vontade de sair daqui, é inegável que sentirei falta. O que não diminui minha vontade de ir embora, mas é até surpreendente a realização pessoal de que, de fato, a gente consegue guardar um pedaço que é especial, mesmo em experiências que, de modo geral, não foram. 

Como todo filme da Disney/Pixar, Moana tem um significado mais forte pra gente que é (jovem) adulto do que para as próprias crianças, que preferem prestar atenção na mitologia e nos tons saturados das cores em tela quando na verdade a obra toda é uma metáfora pra sociologia, meio ambiente, e as relações humanas dentro de um sistema capitalista. Mesmo sabendo e apreciando isso, pra mim foi sobre ter uma personagem que amava o lugar e mesmo assim queria sair dali. Que fazia seu papel feliz da vida, que tinha tarefas e obrigações e um mérito próprio na realização dessas. Não existia, nesse caso, o drama de querer partir para se livrar de nada, ou para querer se descobrir. Moana já se conhecia, Moana não tinha que fugir pra se tornar alguém, pois ela já era esse alguém. Em meio a cenas visualmente bonitas, poeticamente inspiradoras e músicas queridas, me cativou a ideia que alguém que já pertencia também queria sair. 

Então talvez esteja na nossa essência. A gente nunca quer o que tem. E quando a gente consegue o que quer, a gente quer mais, ou a gente quer de maneira diferente. Talvez estejamos condicionados a nunca aceitar o real e sempre aspirar à possibilidades.

Talvez, talvez. Muitos talvezes.

De alguma forma, pode ser que a vida não seja sobre se achar. Pode ser que ela seja sobre todo o processo da procura.

Eu não só tinha uma casa como ainda tenho. Não a possuo, não a detenho - ela continua no mesmo bairro onde me criei, longe demais para que não seja uma ideia interessante dirigir até lá para passar a tarde. Por ironia do destino ou não, minha universidade fica no mesmo bairro, o que me obriga a estar lá pertinho dela todos os dias, de segunda a sábado. Mesmo assim, não paro pra ver ou entrar. É minha casa - minha diferente, reformada e agora-um-restaurante casa, onde sei que o buraco na parede se formou durante minhas tentativas de aprender a andar de bicicleta, onde sempre vai cair manga no quintal e onde o espaço que ficava meu antigo quarto até hoje guarda as marcas do meu nome, profissionalmente escrito na parede por um pintor que já morreu. 

Minha casa onde eu pertencia, e de certa forma ainda pertenço. E, mesmo assim, pesquisar apartamentos que tinham piscina me parecia tão mais animador e me oferecia tantas outras oportunidades...

Hoje em dia, continuo no apartamento com piscina. Eu nunca tomo banho nela. Sinto muita falta da minha casa.

Mas não quero voltar. Que minha casa descanse em paz, que minhas memórias nela (e dela) continuem vivas. A parte da minha vida que ela representa foi uma ótima parte, mas sair dela me deu uma nova. E o que é nossa vida além de diversas partes, desorganizadas em vários capítulos, esperando para serem finalizados e, por fim, dar espaço a um novo? O que é nossa experiência na terra se não uma incansável busca por algo que nem nós mesmos sabendo o que é, com um desejo gigante de descobrir o que seria o mais longe possível - bem longe do ambiente do capítulo anterior, só por precaução, só pra garantir que o capítulo novo seja exatamente isso: novo.

Na semana antes de viajar pra São Paulo, comentei com algumas pessoas o quão mal estava me sentindo de sair de casa. O vazio de saber que não teria meu ambiente, minha família, meu já decorado conforto. De sentir falta de onde você pertence mesmo. Lembro que alguém virou pra mim e me respondeu "isso significa que você vem de um lugar feliz".  

Talvez - só talvez - seja sobre se dar conta disso.



 



até a próxima, 
d🌻

Uma análise sobre millennials; por Shawn Mendes


O que sempre me atraiu na música pop, e na cultura pop como um todo, foi o jeito como as pessoas dentro dela se expressavam e o modo como elas escolhiam contar histórias. Cada caso, obviamente, sempre é um caso, mas o conteúdo popular leva esse nome por um motivo: é popular porque faz sentido pra massa e conversa com pessoas de maneiras completamente diferentes. Como alguém que cresceu ouvindo Pink Floyd e Hannah Montana ao mesmo tempo, isso sempre foi algo que me fazia sentir falta nos outros estilos - os solo de guitarra que duravam 5 minutos e que meu pai adorava simplesmente não falavam tanto comigo quanto uma música com narrativa, que eu podia usar qualquer frase pra definir minha vida - e, naquela época, copiar tudo na minha agenda do ano. Como se as letras fossem algo que eu deveria ter falado sobre em situação x e não disse, mas naquele momento, finalmente, alguém tinha falado por mim.

Ainda sou uma das pessoas mais ecléticas que conheço pra música, mas tudo relacionado ao universo pop (e sua subcategoria: pop farofa) me tem de um jeito muito mais fácil e natural. "Nem só de indie viverá o homem", teria dito Jesus em alguma versão atualizada da Bíblia atual. A gente ainda vai conversar sobre como o indie é superestimado, em contraponto ao pop que é subestimado simplesmente por ser pop - "não é minha culpa ser tão popular" -, nos dando abertura pra discutir sobre como boybands são desvalorizadas simplesmente por terem foco num público feminino; e a gente aprendeu que tudo que é feito pra mulheres ou que é adotado por um público majoritariamente de mulheres é inferior, não é mesmo? Muito tempo atrás li um texto super válido sobre isso, que analisava essa aversão que a gente tem com kpop, ao mesmo tempo que falava de toda a trajetória de boybands na história mundial das boybands, desde os Beatles (que não seguiu sendo considerada boyband e sim apenas band, já que eles se tornaram cool o suficiente e passaram a ter homens participando do seu público, que originalmente era construído por meninas gritando enlouquecidas tanto pelo Ringo quanto pelo Paul) até a famigerada One Direction. Não dá pra negar a nuvem negra que boybands - e qualquer cantor solo com um público majoritariamente feminino - carregam nas costas, tendo que se provar constantemente porque o meio social parece não validar seu papel como artista, porque Deus me livre produções que chamam atenção de meninas em massa ser algo com qualidade. Foi como falou a Heidi Samuelson nesse texto, que lembra muito o primeiro já citado, mas com uma visão mais abrangente sobre as implicações sociais em rebaixar boybands:

Pop music is also frequently chided for its kitschiness or lack of integrity or meaning, which is fair. Let’s be honest, most pop songs are about love, sex, or having a good time. But that’s true of music across all genres. Music doesn’t have to be introspective or deep to be good or enjoyable. 95% of Led Zeppelin’s discography is probably about blow jobs and the other 5% is about Lord of the Rings, and I say that as someone who unapologetically loves Led Zeppelin. But we seem to judge pop music more for this.

Dito isso, entre acontecimentos que envolveram o lançamento de um álbum péssimos do Arctic Monkeys e o Harry Styles chegando na cidade maravilhosa, quebrando a expectativa de que a falta de gasolina iria lhe impedir disso, eis que surge um álbum pra ser meu amor e me tirar da solidão: Shawn Mendes (by Shawn Mendes).


A primeira vez que eu ouvi falar do Shawn Mendes ele tinha acabado de lançar uma música com a Camila Cabello, e eu não podia me importar menos com os dois. É provável que eu nunca nem tenha escutado o tal do dueto (que eu só sei o nome porque lembro do filme de mesmo título, suspense que eu morria de medo quando criança), mas isso já é comum pra mim, que só vim escutar I Don't Wanna Live Forever (dueto da Taylor Swift com o ZAYN) literalmente mês passado. A segunda vez que eu ouvi falar do Shawn Mends, ele tava no Brasil fazendo show e todo mundo estava obcecado porque aparentemente ele era legal demais. Quando eu digo todo mundo, eu quero dizer que até a Ingred me falou sobre uma crush aleatória no garoto simplesmente porque ele era alto. A terceira vez que eu ouvi falar do Shawn Mendes, TALVEZ ele tenha transado com o Nick Jonas. Mas em nenhuma das vezes que eu ouvi falar do Shawn Mendes foi me informado o tipo de artista que ele era, ou que ele tinha o método narrativo na letra da música, ou que a melodia dele tinha violão e piano do jeito que eu gosto, ou que ele era bom. Eu mesma reproduzia um pensamento errôneo - resultado de todo esse processo de "isso é coisa de menina obcecada por cara bonito" (sim, eu também sou vítima, ninguém é imune ao reflexo de misoginia da sociedade) - de que o menino canadense, alto e bonito, que parecia ter saído de uma turma de publicidade da PUC, não tinha nenhum conteúdo a me oferecer.

Felizmente eu não me impedi de ouvir Shawn Mendes, o álbum. E meus amigos, que bom que eu ouvi.

Sabe em 2008, quando a gente ficava sozinha no quarto pra ouvir Taylor Swift na era country e ler e reler todas as letras do álbum Fearless no vagalume (ou letras terra, meu favorito), absorvendo todas as narrativas que ela compartilhava com a gente e tentando encaixar nas nossas próprias histórias? Foi esse sentimento que eu tive ouvindo esse álbum.

Na faixa de abertura, In My Blood, Shawn abre o álbum falando de um sentimento que todo e qualquer millennial conhece muito bem: ansiedade. Como um bom representante da geração Y que é, Shawn descreve tudo que eu e você sentimentos durante um breakdown - a música literalmente começa com um "help me", e ele segue o resto da letra inteira pedindo silenciosamente por ajuda e passando o sentimento que é geral, mas muitas vezes incapacitante, de que ele só conseguiria sair daquilo com a ação de outro alguém, o que fica mais visível ainda durante a ponte em que ele repete "I need somebody now, someone to help me out", frase que também encerra a música como um todo. No final das contas, essa música é sobre aquele momento durante a crise em que você tá chorando água suficiente pra encher dois rios no chão do banheiro, ouvindo te mandarem fazer isso e aquilo pra sentir melhor, mas não obtendo sucesso em nada - "Keep telling me that it gets better. Does it ever?". É aquele momento de querer desistir de tudo, mas, num impulso, simplesmente desiste de desistir, porque não é do teu feitio fazer isso. Mesmo pedindo por alguém e implorando por alguma intervenção a música inteira, ele sabia que a resposta tava nele mesmo. Nas palavras do próprio Shawn:
It was kind of something that hit me last year. Growing up, I was a pretty calm kid. I knew people who suffered from anxiety, found it kind of hard to understand, and then when it hits you, you’re like, Oh my god, this is crazy. When I play that song, I go ‘Just so you know I’m okay. The best thing about it is that it’s not all down. The whole reason I wrote the song was to be like, at the very end, ‘It’s not in my blood to do that.’

Nervous é a segunda música do álbum, e logo no primeiro verso ele repete algo que já tinha feito em In My Blood - pegar partes da letra e jogar num ritmo que lembra fala, não canto. Parece que ele tá conversando contigo e te contando a história dele, como se fosse aqueles pequenos momentos durante um musical em que o personagem tá no meio de uma música mas começa um diálogo falado, mesmo com a melodia ao fundo. O resultado disso é a pessoalidade que o começo "I saw you on a Sunday in a café and all you did was look my way" aparenta, como se ele tivesse falando diretamente contigo, sobre aquele domingo que te viu no café. Também é sobre algo que todo millennial sabe muito bem: ter aquela crush em alguém e simplesmente não saber como proceder ao esbarrar com ela. Lost in Japan começa igualzinha às melodias japonesas que o Zeth sempre me manda escutar, daquelas que o piano te faz viajar pra outra dimensão, alguns séculos atrás, numa cidade de concreto iluminada demais pelas janelas dos prédios e vento frio no rosto. Infelizmente a música não fica assim durante os 3 minutos em que é reproduzida, recebendo uma atmosfera claramente inspirada pelo Justin Timberlake até o final. É sobre estar tão interessado em alguém que o fato de estar do outro lado do mundo não diminui o sentimento. Só que uma batida R&B, o que faz tudo parecer muito mais sexy e glamoroso do que realmente é.

Where Were You In The Morning? segue exemplificando minha tese de que o Shawn presta atenção o suficiente em letras iniciais de cancões - e é assim que ele te cativa. Assim como um texto qualquer, que escolhe começar de modo instigante, as letras do Shawn seguem a mesma premissa: começam a contar algo que tu automaticamente quer ficar lá pra saber no que vai dar no final. "You said: I wanna get to know ya; Why you gotta get my hopes up?" de novo focando em nós, pobres millennials, fazendo confusão onde não deveria ter, porque esperamos demais de algo que nunca existiu. É sobre aquele sentimento de ter perdido algo que nem começou de fato, de sofrer por uma desilusão que a outra pessoa nunca planejou te dar ou de esperar profundidade de algo que nasceu pra durar apenas por um período limitado de tempo. Like To Be You é um dueto, e particularmente uma das minhas letras favoritas do álbum. Parece uma discussão de casal que tu foi possibilitado de assistir de camarote, e o que eles falam um pro outro te dá vontade de intervir fazendo papel de mediador. Seguindo minha teoria sobre a força de frases de abertura, Shawn começa com "don't cry - or do, whatever makes you comfortable, i'm tired too", num tiro certeiro sobre todos aqueles momentos intensos que já tivemos com alguém e queríamos falar "não chora, mas se quiser chorar pode - não sei o que está passando na sua cabeça então não posso te cobrar nada". A Julia Michaels pergunta na estrofe dela se pode beijá-lo, porque a essa altura eles estão tão desconhecidos um para o outro que ela não consegue ter certeza do que pode fazer ou não. O refrão é aquele momento assustador que você se toca que já não conhece mais aquela pessoa o suficiente, mas que "ainda morre de vontade de conhecer", porque entender o que se passa na cabeça dela significa intimidade e intimidade é convívio e convívio é amor. "Tell me what's inside of your head, no matter what you say I won't love you less", vibe que o John Legend já tinha feito antes naquela frase da famosa All Of Me - de longe minha parte favorita da música: "what's going on in that beautiful mind?". Eu sempre tive um fascínio por pessoas que se importam o suficiente com as outras pra tentarem entrar na cabeça delas - porque elas são that important, e conhecê-las de modo tão profundo seria um privilégio.

Fallin' All In You também é uma narrativa - daquelas clichês, tão clichê que tem a frase "if I'm dreaming, please don't wake me up" no meio; sobre se apaixonar, e sobre se dar conta disso enquanto a pessoa tá entrelaçada a ti assistindo o pôr do sol. Não sou mais uma fã do Ed Sheeran como antes, mas quem disser que o + e o x são álbuns ruins tá totalmente equivocado - e essa música parece que saiu de um deles. Até os vocais são parecidos. Fiquei tão assustada com isso que fui pesquisar e descobri que o Ed Sheeran de fato faz o backing vocal dessa música e ajudou a escrever. Explicado. Particular Taste, por outro lado, é outra narrativa, mas dessa vez colocando em perspectiva uma mulher que não tá interessada em nada e se diverte mais iludindo homens do que se relacionando com eles. É tudo sobre o jogo e sobre a personalidade da personagem principal da música, que não permite que ela leve romance nenhum a sério. Parece uma música que teria entrado no álbum Harry Styles (by Harry Styles), uma vez que todas as mulheres mencionadas pelo Harry em música seguem exatamente esse tipo, independente e doesn't care for none of it (pesquisar: Carolina, Kiwi, Only Angel). O Shawn passa a música inteira falando sobre o quanto tá obcecado por ela garota, mesmo sabendo de tudo isso, e toda a narrativa que ele cria pra te apresentar a personagem é o que te prende.

Se Fallin' All In You parece uma música do Ed Sheeran, Why parece uma música do Sam Smith. Tem o R&B, tem o peso do ritmo e da melodia e tem o modo sofrido de cantar, daqueles que te faz achar que uma dor de cotovelo não vai ser curada nunca. Essa música em especial é o exemplo perfeito pra tudo que eu falei sobre frases iniciais, e a estratégia que esse álbum mostrou em te obrigar a permanecer ali acompanhando aquela história cantada - porque tu tem que saber como vai acabar. Why começa com "I know a girl, she's like a curse", te deixando curioso pra saber quem é a garota e o que exatamente ela faz pra ser uma maldição. Conforme tu vai acompanhando a narrativa que dá base a música, descobre-se que a situação inteira descreve uma atração mútua em que as duas pessoas não conseguem falar sobre isso, e ficam sofrendo em silêncio quando podiam simplesmente expor os próprios sentimentos. Ahhh, os millennials e essa mania de sofrer por algo que seria tão mais fácil de lidar. Essa música em especial ilustra bem demais sentimentos que todo mundo tem, e como a música pop casa com o ato de contar histórias - coisa que a Taylor Swift amava fazer (vide Enchanted, música feita pra falar sobre a situação de conhecer alguém e ir pra casa implorando pra todos os deuses que esse alguém já não tenha outro alguém; e a minha favorita, All Too Well, em que você literalmente entra numa história alheia e vive os pequenos detalhes do relacionamento junto com eles, e termina sabendo que o Jake Gyllenhaal ficou com o lenço da Taylor e usa até hoje) - como nessa parte totalmente #relatable da música que diz "and you say 'hi' like you just met me; why do we put each other through hell?".

Because I Had You também parece uma música do Ed Sheeran misturada com Love Yourself (tecnicamente do Justin Bieber, mas escrita pelo Ed). Outro clichê sobre deixar aquela pessoa ir embora e sofrer por ser idiota. Jovens, né? A próxima música, chamada Queen, me surpreendeu quando me dei conta de que também era uma das minhas favoritas. Parece uma música que, caso a vida fosse um musical, tu começaria a cantar pra garota babaca-e-popular-demais da escola, ou pra qualquer outro personagem que se acha muito mais do que é. Como eu disse, situações reais, que todo mundo passa, narradas com ritmo. Tenho ranço de quem tem ego suficiente pra duas pessoas e que se orgulha disso, então eu total gravaria essa música caso me fosse dada a oportunidade. Nas palavras do Shawn:

[…] I just hate people who think they’re better than other people. There’s no reason to. It just bugs me, man. My least favorite trait in somebody is when you can feel them acting like they’re more important than you, and I just had to write a song about it. I thought the best way to talk about it was to be like, ‘You’re not the queen of a country.’

Youth foi escrita após o ataque terrorista em Manchester que aconteceu no show da Ariana Grande, em 2017. A canção é descrita como um hino de esperança pra todos nós, e diz que se tem uma coisa que não vão conseguir tirar da gente, é a nossa juventude. Baque após baque nossa alma fica aqui, mesmo despedaçada, mas é só acordar um dia após o outro pra que ela comece a curar. Pra mim essa música resume todo o sentimento Geração Y que eu senti com o álbum inteiro: nós estamos aqui e estamos todos unidos pela força dos sentimentos que temos como um conjunto.

feel devastion again,
my heart is broken,
but i keep going.

Mutual é uma versão mais suave de "Do I Wanna Know" dos Macacos do Ártico, no mesmo questionamento desesperado que quer saber se esse sentimento é tanto meu quanto seu, se eu deveria desistir ou continuar tentando. O que exatamente você quer? Sério, não dá pra ficar mais #relatableteenagedrama que isso. "I want you bad. Can you reciprocate? No, I don't want to have to leave. But half of you is not enough for me." Eu disse que era uma versão mais leve, mas, no final das contas, é um tapa na cara emocional tanto quanto. A penúltima música do álbum, Perfectly Wrong, já começa com uma referência a Romeu e Julieta: "taste the poison from your lips; lately, we're as good as gone". Percebe a importância de estabelecer um começo que prenda quem tá escutando? Me admira demais a criatividade da música pop. A melodia é tão poética quanto o começo escrito, e repete várias vezes que aquela pessoa é perfeitamente errada e é exatamente por isso que ele não consegue largar. O maior vício do millennial, mesmo aqueles que são obcecados em fazer tudo certo e surtam só com a ideia de quebrar regras (cof cof quem?), é permanecer em algo que sabe que é errado ou que simplesmente não tem jeito. A gente é completamente desfuncional, sabemos disso e desejamos continuar.

E finalmente, When You're Ready. A última música do álbum, que finaliza com o sabor doce de esperança de amar tanto alguém que esperar por ela é tudo que você pode oferecer, uma vez que, como já aprendemos em How I Met Your Mother: timing is a bitch. Essa premissa a Demi Lovato também usou em Only Forever, do seu último álbum, música que todo mundo diz que é pro Nick Jonas - o mesmo Nick que também dizem que ficou com o Shawn. E vocês achando que só a cidade de vocês que era um ovo.


Only Forever, da Demi, é uma música que dolorosamente fala sobre saber que está destinado a ficar com aquela pessoa mas saber também que o custo a ser pago por isso é muito alto. Esperar o momento mais propício, então, parece a melhor opção. Ambas as músicas me lembram muito o método que eu uso pra escrever narrativas românticas, e o plot que eu escolho pra ambientar isso - aquele amor paciente que não pareceu servir em determinado momento, mas que é tão puro e tão certo que esperar por ele não parece nenhum sacrifício. Me faz lembrar paixões inocentes da pré-adolescência, crushes em amizades que tu prefere não estragar, misturado com aquele sentimento de conhecer a pessoa mais do que ela mesma se conhece, algo que foi bem explorado pelo Shawn no álbum todo. É a música perfeita pra fechar uma coletânea perfeita de experiências de jovens millennials que sofrem por paixões rápidas, amores duradouros, ansiedade, ranço e orgulho de ser jovem. É a música perfeita pra fazer a gente sair dessa experiência musical esperançoso com o romantismo que ainda existe no mundo.

O álbum inteiro do Shawn Mendes é uma coletânea de narrativas sobre o que é sentir, sobre errar e querer permanecer no erro, sobre querer o que você sabe que não é pra você e querer o que você sabe que é, mas não consegue fazer nada a respeito. É um álbum literalmente sobre ser humano, e sobre ser humano e jovem. É sobre ter de novo aquele sentimento da pré-adolescência, que ouvia histórias sobre acontecimentos que pareciam narrativas saídas de filme - mas agora é ouvir sabendo que essas narrativas existem sim, e conseguir se ver dentro delas.

Graças a Deus não me privei de ouvir Shawn Mendes por achar "conteúdo pra menininha". E mesmo que seja, nós menininhas merecemos mesmo músicas pop que falem por nós. O fato de não ter macho chato na platéia é só um bônus.

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Eu não planejei fazer uma newsletter destrinchando todas as músicas novas do Shawn Mendes, isso simplesmente aconteceu. Mas quem pode me culpar? Não precisa ouvir as músicas (tô só sendo educada, precisa sim!!!), mas vocês já viram A CAPA??? Apreciamos a arte. De fato não é nada original - vide o Marcelo Monreal, artista brasileiro conhecido pelo trabalho seguindo o mesmo estilo - mas é visualmente linda, e é disso que o Brasil gosta. O álbum tá aqui pra quem é de Spotify, e em outras plataformas pra quem é de outras plataformas. Não estou sendo paga pela promo.

O que a música pop me deu durante todos esse anos foram narrativas que podiam muito bem fazer parte de uma história - seja num musical (bandas com musicais: Queen, Green Day, ABBA), seja numa cena como trilha sonora de um filme, seja complementando minha própria história enquanto escuto tudo nos fones de ouvido durante uma viagem e repenso todas minhas escassas, porém importantes, experiências.

E as melhores ainda me ajudam a criar histórias que nunca vivi de fato, mas que minha cabeça toma como verdade. E aí é todo um universo paralelo (no qual eu adoro viver).

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(a Juzinha fez essa foto pra mim quando eu ainda nem sabia que o Shawn Mendes tava lançando álbum novo, muito menos que a capa era assim. só achei lindíssimo. e ela achou que era cabível meter minha cara no meio. não reclamo.)

até a próxima,
deni out. 🌻