Bolo à beira do oceano com pássaros e abelhas

ATENÇÃO!!!

Essa newsletter é aquele ponto na carreira que toda artista tem ou é forçada a ter. Aquele ponto Britney pós anos 90, depois de Baby One More Time e aparecendo no palco com uma cobra nos ombros pra dançar Slave 4 U. Quando a máscara de boa moça fica meio turva pela ideia de "Good Girl Gone Bad" que é um prato cheio pra mídia lucrar em cima. Hoje a gente vai ter um assunto peculiar ("você não entenderia"), tentando tirar os tons de cinza do meio porque eu não aguento mais ficar no cinza e quero, finalmente, preto no branco.

  

Uma vez, no meio de um debate entre amigos sobre certa situação com sexo no meio, me falaram que eu não tinha como debater ou expressar meu ponto porque eu era da "geração Disney" e que automaticamente eu iria falar com meu modo ingênuo de ver mundo ou romantizaria o que não era pra ser romantizado. Na hora não me abalei muito, já que não conseguia calcular a relação entre comentar um caso público que estava em todos os jornais da época e o fato de que eu via Boa Sorte, Charlie todo dia, 22:30, na antiga programação do Disney Channel, antes de dormir.

Foi só muito tempo depois desse acontecimento que eu parei de fato pra refletir o que significava ser "geração Disney". A gente - eu e meus amigos, nesse contexto - cresceu acompanhando o mundo pop adolescente (que hoje é só mundo pop mesmo, porque ninguém é sensação teen pra sempre), onde estávamos mais interessados em debater o episódio novo de iCarly (que não era da Disney, mas vocês entendem que Disney aqui é um estado de espírito e não uma empresa, certo?) e se o Nick Jonas tava com a Miley ou a Selena. A gente também tinha que acompanhar o maior bafo da época: a gravidez adolescente da irmã da Britney Spears, que basicamente nos obrigava a comprar revistas Capricho. Revistas essas que, posteriormente, nos dariam detalhes sobre a Demi Lovato surtando e indo pra rehab.

Conforme fui crescendo e fui me inserindo em outros ambientes, o foco das conversas foram mudando. Não reclamo, era normal e natural ter uma mudança de perspectiva com o passar do tempo e o envelhecimento das pessoas em questão. Mas como é normal num grupo grande com meninas e meninos que cresceram juntos e estão entrando na juventude juntos, a conversa gradativamente foi mudando de Hannah Montana pra Gossip Girl pra beijo na boca pra namoro sério pra sexo.

Eu sempre tive uma relação muito aberta e tranquila com meus amigos mais próximos, daquelas que a gente não tem papas na língua pra falar o que a gente tá pensando por mais aleatório ou idiota que parecesse. Mas sempre notei que a gente não sentia essa liberdade toda pra falar sobre sexo, ou qualquer outra coisa envolvendo sexualidade: um comentário raramente sobre situação x, um anúncio rápido de "não sou mais virgem!!11!" ou um "vou chamar a fulana lá pra casa na sexta e vai dar certo" - esse último sempre saindo da boca de um menino, que nunca se incomodava de mencionar a própria rotina sexual, enquanto minhas amigas se seguravam tanto pra dar a menor quantidade de detalhes possíveis.

 

A relação que eu achei com a geração DisneyTM e isso, foi que a gente cresceu condicionada a debater o fato de que, MEU DEUS, Jamie Lynn Spears tava grávida aos 16 anos e isso era um choque!!!! Mas nunca passou por nossa cabeça reconhecer que sim, meninas de 16 anos fazem sexo em qualquer lugar do mundo, ou debater as consequências da falta de preservativo numa relação. A gente também aprendeu que todos os nossos ídolos, no auge de sua glória (e controle de imagem por empresários e agentes, coisa que adolescentes de 12/13 anos não pensam sobre) usaram um anel de pureza (o famoso!), rezando de pé junto que sexo só depois do casamento, numa vibe Eu Escolhi Esperar americano, que fazia nossas mães darem graças a Deus e nossos pais ficarem silenciosamente satisfeitos. Aconteceu de termos perdido a construção de um espaço confortável pra debater sobre enquanto estávamos crescendo e, depois de grande, fica difícil estabelecer um safe space que te passe a confiança necessária pra compartilhar algo que tu nunca nem reconheceu que acontecia com os outros, imagine contigo, pra começar.

Em uma conversa que tive esses dias com uma amiga, a gente falou sobre esse medo e tabu que rodeia o assunto sexo, que te faz abaixar o tom de voz sempre que tu vai falar sobre isso com outra pessoa e que te obriga a soletrar s-e-x-o pra tentar dar um eufemismo na palavra. Falam mais do fato de ser um tabu do que do próprio assunto, pra que ele deixe de ser tabu. ("Putzzz a gente tem que quebrar esse tabu!!!" - e continuamos não falando sobre.) A gente foi regido nessa ideia que entrelaçava sexo com religião, vide o anel de pureza abençoado pelo pai dos Jonas Brothers que era um pastor de igreja, o que colocava um receio inicial em qualquer um que tentasse ter coragem o suficiente de iniciar o assunto. E isso foi sempre mais visível nas meninas, embora eu não saiba muito bem como se dá uma conversa só de caras que estão reunidos juntos numa roda (e Deus me livre, nem quero).

Meu ponto, porém, é que as pessoas tem um receio absurdo de falar das próprias experiências e isso priva outras pessoas de terem uma noção inicial sobre uma situação que provavelmente elas vão passar também. Não sei se é meu modo sem remorso nenhum de falar que sou virgem, casado com meu discurso (que não será reproduzido aqui, mas que eu sempre faço questão de mencionar) de que sexo é superestimado sim e que vocês deviam prestar mais atenção em assexuais, mas seja o que for: eu não tenho problema em ouvir histórias e fazer parte delas. Pelo contrário, foram diversas as situações que amigas minhas chegaram pra falar que tinham perdido a virgindade e ficou só por isso. Eu entendo os limites da privacidade de qualquer pessoa, mas veja bem, vai além disso: eu não quero que as pessoas se sintam inseguras ou impossibilidades de compartilhar algo que elas querem falar, simplesmente porque elas não sabem como falar.
 

Só ajuda a corroborar as ideias errôneas que a gente cultiva a vida inteira. A ideia de que "virgindade" é algo relacionado a pureza que é tirada por um pênis, a ideia de que ser virgem depois dos 20 é um atraso que não pode ser aceitado ou mencionado JAMAIS, julgamentos errôneos relacionados a quem simplesmente não se atrai por sexo do jeito convencional e até zoação demais com quem escolhe esperar até o casamento... O anel da pureza dos Jonas hoje em dia é mais falso que nota de 3 reais, mas conheço incontáveis pessoas que convivem comigo que gostam da ideia de se guardar pra alguém e não merecem o walk of shame ou os questionamentos de "não pode ser verdade". Respeitem o tempo e a decisão das pessoas, nem todo mundo funciona como você.

Eu não mudaria meus debates sobre artistas da Disney enquanto crescia de jeito nenhum. Mas, se as coisas fossem um pouco mais leves e levadas de maneira simples, eu provavelmente teria crescido com uma visão diferente. As fotos nuas da Vanessa Hudgens não teriam sido motivo de tanto slut-shaming da minha parte, os boatos de um possível vídeo da Miley e do Nick transando não teriam me traumatizado e, no geral, os ícones teens crescendo não teriam causado tanta comoção. (Lembrar: Miley Cyrus lançando o clipe de Can't Be Tamed, Demi Lovato saindo descabelada da casa do Wilmer de manhã cedo, Taylor Swift insinuando que transava {meu Deus!!!} com determinado namorado em música x, Zac Efron derrubando uma camisinha do bolso no tapete vermelho de uma premiere, Britney Spears não sendo mais a garota santa que dizia esperar até o casamento pra transar com o Justin Timberlake. Todos esses fatos citados foram manchete de revista.)

Eu sou fã demais de lidar com as coisas da forma mais natural possível e de ouvir o que quer que seja que as pessoas se sintam confortáveis pra compartilhar, porque eu gosto de aprender, e do ponto de vista de outra pessoa, melhor ainda. Eu ficava desconfortável não com meu amigo falando que só tinha tido relações com outro cara fazendo papel de passivo, mas sim com o clima pesado que isso gerava na roda de amigos em que estávamos, o que levava a alguém ser obrigado a falar "enfimmmmmm........" pra conversa tomar outro rumo, como se o garoto tivesse que se sentir culpado ou envergonhado por querer compartilhar algo que no momento ele se sentiu confortável o suficiente pra compartilhar.

 

O novo bar da Mia (Swier? Von Glitz?) e do Darren, pelos artigos que li antes da inauguração, tem essa premissa de ser o lugar em homenagem àquela sua avó ou tia boca suja que se sustentava em piadas infames e no que sua mãe gostava de dizer que era "imoralidade". Com um aviso neon na entrada dizendo "come inside me" e nomes de drinks sugestivos, muita gente sentiu uma ofensa pessoal a existência de um bar sustentado na natureza de insinuações. É quase a mesma coisa que acontece durante Contact em Rent, cena que representa a intimidade de todos os casais da peça e *spoiler* a morte precoce da Angel, que vai resultar na separação e frustração de todos eles. Ver essa cena ao vivo pode ser completamente desconfortável. Felizmente, as melhores artes são desconfortáveis mesmo. É um sentimento de estranheza e algo que te dá vontade de não olhar diretamente, porque parece que não deveria-se estar vendo ou ouvindo aquilo por ser uma invasão de privacidade terrível. Gosto como eles cutucam e estão cientes do desconforto que vão causar, porque o objetivo é esse mesmo. E às vezes é gratificante passar por cima do nosso próprio desconforto e pensar "mano, normal, tá tudo bem". A gente tem umas coisas mais pesadas pra se envergonhar.

Eu acho que as crianças de hoje com seu Sou Luna e novelas do SBT com Larissa Manoela não vão entender o estresse que era viver numa época que a gente tinha que saber tudo que tava acontecendo com a golden era da Disney, quando a internet era discada e qualquer fake news era real demais. Namoro de Maisa nenhum vai anular o choque que era sair foto de todos eles juntos em algum Teen Choice, sendo que os tabloides estavam escorrendo tretas silenciosas envolvendo os mesmos nomes que eram só sorrisos em noite de premiação. Ahhh, a simples vida do jovem que só se preocupava em saber se a Demi e o Joe iam namorar ou não, mesmo o Joe tendo a imagem de babaca que terminava um namoro via ligação de 27 segundos (pobre Taylor Swift, eu acho sinceramente que os traumas dela do passado refletem na pessoa que ela é hoje).

Hoje em dia as polêmicas envolvendo a Bella Thorne simplesmente não são boas o suficiente.

Fiz essa newsletter (vocês notaram?? o intervalo pequeno entre letters??) com o simples e único objetivo de colocar em perspectiva que a gente ainda é muito besta lidando com coisas que na nossa cabeça são segredos de estado mas que na realidade fazem muita falta pela ignorância que o não-falar pode resultar.

No mais, fiquem com gifs icônicos da Miley cantando 7 Things com a Selena, música comprovadamente feita pra criticar o Nick que meteu as duas nesse triângulo amoroso que a gente tanto amava acompanhar.


até a próxima, deni out. 🌻

Finalmente eu quero falar sobre amor romântico

Disclaimer: esse texto pode conter altos níveis de drama que o Ted Mosby provavelmente teria. 

Eu nunca tive o famigerado saco pra romance. 

É até engraçado falar isso levando em consideração a quantidade de casais que me fizeram sofrer ao longo dos anos - mas ninguém tá debatendo as características dos casais. E deveríamos. Os meus sempre foram os desfuncionais, os que ninguém gostava, os que quase nunca se encontravam e tinham provavelmente 4 cenas românticas juntos, os que tinha pining ou que uma das partes era completamente idiota de não notar que o outro tava apaixonado e, por fim, e dessa vez eu salvei o melhor pro final: os que tinham angst. A parte da dor e daquele sofrimento clichê de chorar na cama agarrada num travesseiro sempre foi minha parte favorita porque era a mais próxima da casinha em todas as minhas (poucas) experiências. A diferença é que angst fictício geralmente tem um final feliz. Eu não sei nem se meu angst real teve um ponto final, pra começar. 

Não me levem a mal, a minha falta de saco pra romance nunca foi daquele tipo pré-adolescente que usa preto e vive com um livro na mão (que não é livro de romance) julgando todo mundo que tá procurando namorado aos 12 anos e odiando ouvir falar das festa que tinham um roda-a-roda de beijo na boca pra tirar BV. Eu tenho um ✅ em todas essas características, inclusive na parte de usar preto com muito, muito lápis de olho, mas nunca foi por ser mal amada e sim por querer ser amada. Percebe?

Sempre fui a pessoa mais carente que já conheci na minha vida inteira, daquelas que a amiga não pode arrumar meu cabelo bagunçado pra colocar atrás da orelha que já tô planejando nosso casamento e a cor do nosso jogo de cama. Então nunca foi sobre não querer ter contato com o amor romântico e sim não querer >daquele jeito: o largado, de fazer por fazer, sem ter sentido ou razão. O que é normal pra qualquer pessoa de 12 anos que tá tendo as primeiras experiências e vontades. Mas nunca foi o normal pra mim. Eu não queria o festival perde BV escondido no meio do mato na pizzaria durante o aniversário de alguém da sala, eu queria que alguém me notasse. Que falasse comigo porque queria me conhecer e não porque queria chegar na segunda-feira na escola falando que ficou comigo. (Felizmente eu não tive muito esse problema? Eu ia pra zero festas e tinha zero menininhos interessados em mim. A psicologia provavelmente explica que eu sou quem eu sou hoje por causa do modo como eu cresci.)

Acho que meu erro foi não querer viver a vida real e esperar pela vida dos filmes. Não fazia muito sentido pra mim beijar alguém na boca simplesmente por beijar (e ainda não faz; o nome é demissexualidade: it's a thing, google it). Eu queria o romance, o chamar pro date de fato ter o date. Eu sempre quis todos os clichês do descobrimento e apreciação mútua, que resultasse no tipo de momento Blaine-descobrindo-que-é-apaixonado-pelo-Kurt. Nunca foi sobre não querer e sim sobre querer do meu jeito, o que, parando pra pensar, é uma problemática que me assombra em vários campos da minha vida. 

Me pergunto o quanto meu lado sonhador/idealizador me tirou de experiências reais que eu poderia ter tido durante todo esse tempo. É literalmente aquela cena de Love, Simon quando a Leah tá desabafando que não gosta de ser do jeito que é porque ela sente que perde muito ao involuntariamente se reprimir de fazer coisas que sente que não combinam com ela. Foi muito revelador ouvir alguém falando na minha frente que não consegue ser espontânea e que é do tipo que poderia amar tanto alguém que chegaria a sufocar. Porque esse sentimento é muito meu. 

"Eu não consigo."
"Não consegue o que?"
"Ser casual."
 
É isso.

E vem sido isso por bastante tempo agora. Eu não sei simplesmente ser casual e fazer o que as pessoas normalmente fazem sem esforço nenhum. A Leah falou completamente por mim ao dizer que achava que o problema era nela mesmo, porque a festa tava boa, ela tava se divertindo, mas não conseguia parar de sentir que tava lá observando tudo de canto, sem conseguir se envolver por completo. Todas os meus envolvimentos românticos em algum momento acabam se tornando exatamente isso. 

Deus abençoe a Jout Jout, que fez um vídeo debatendo questões amorosas justamente quando eu tava com o mesmo questionamento, e também a amiga que disse não ter um corpo feio pra montanha-russa que é paixão porque ela precisa de 100% de estabilidade pra que as coisas funcionem pra ela. Eu literalmente sou essa amiga. Eu não quero e nunca quis a montanha-russa do "ter que fazer pra saber no que vai dar", da incerta, do "será" e do "se". Será que eu falo pra pessoa x que a vejo como mais que amiga? E se eu falar, vai mudar alguma coisa além de me dar um papel de idiota por nunca ser recíproco? E se for recíproco e eu pegar abuso como todas as outras vezes? Será que daríamos certo? Será que eu sei fazer isso, tanto na parte física (que eu perdi a chance de praticar anos atrás) quanto na parte psicológica? No exato segundo que eu termino de pensar esses questionamentos iniciais (veja bem: iniciais. Têm outros.), eu já penso comigo mesma "aff kkk muito trabalho cansei nevermind k bye".

Débora, amiga com quem eu tenho o mesmo número de semelhanças e diferenças, em uma das várias conversas que tivemos sobre a vida, falou que não aguentava a parte do flerte, da conquista, de se apaixonar, do namoro e derivados. "Eu quero casar, eu quero aquele amor do casamento." Não sou tão adepta à casamento, mas entendi o que ela quis dizer. O amor seguro, aquele que fica na linha tênue entre monótono e familiar porque toda a parte da paixão e de descobrimento já foi. Aquele que tem rotina e você sabe exatamente como vai se desenrolar seu dia em relação àquela outra pessoa porque vocês já vêm construindo essa coreografia por um tempo. Com ou sem casamento, era isso que eu queria também. Infelizmente Débora e eu concluímos que não dá pra chegar na fase 2 sem passar primeiro pela fase 1 com zero conhecimento de jogo. Acho que foi por isso que a gente preferiu ficar empacada no menu. 

Os meus sentimentos tem uma discrepância tão grande com o que acontece ao meu redor que parece que eu tô procurando me enquadrar numa trope old married couple enquanto todo o resto do mundo tá em plot what plot. Sem querer mencionar tanto o Ted Mosby numa letter só, mas tomando liberdade pra isso, a cena da última temporada no restaurante com a Tracy sempre foi algo que fez muito sentido pra mim. Quando os dois se dão conta que já contaram tudo o que tinham de contar um pro outro e que nenhuma história seria novidade ou descobrimento - tirando as que eles ainda iriam viver juntos -, e ficam felizes por isso!!!!! Porque eles queriam se conhecer ao ponto de não ter mais nada restando pra conhecer!!!! Sério: GOALS. 

Relacionamento pra mim é aquele eterno "Deus me livre mas quem me dera". Mas eu quero do meu jeito, e eu acho que, nesse aspecto, deve-me ser permitido um pouquinho de egocentrismo. Minhas tias que nunca casaram geralmente olham pra mim falando que quem muito escolhe sem nada fica. Se for o caso, até prefiro. Já abri mão de muita coisa pra prosseguir em outras que faço/vivo simplesmente por fazer/viver. Eu não quero que >tudo pra mim seja sem sentido ou significado. Basta o que já é. Então eu continuo não tendo vontade de entrar na montanha-russa que é construir algo novo com alguém, porque simplesmente não é pra mim. No entanto, se o Simon não estiver usando a estabilidade e calmaria da roda-gigante hoje esperando o início da great love story dele enquanto todo o resto do mundo fica lá embaixo, por que eu não subiria? 



Um texto inteiro que eu posso resumir com uma música só.  ¯\_(ツ)_/¯ 

 



Depois de uma não-tão-leve crise comigo e minha escrita, onde eu comecei a me questionar se realmente conseguia produzir algo que não fosse medíocre em qualquer área de criação, decidi um negócio: fooooodaaa-seeeeee. Nem sempre eu vou conseguir usar as palavras que eu quero com a profundidade que eu quero e achar que tá bom. E nem deveria. Isso não é uma coletânea de trabalhos do Shakeaspeare, sabe? Sou só eu. E, pra melhorar ou piorar: sou só eu conversando comigo mesma em vossos e-mails.

E vocês vão notar que, infelizmente, minhas conversas comigo mesma tem zero nexo e nunca viram o significado da palavra "conclusão". 

O único resultado que veio com essa crise foi que a partir de agora tô incapacitada de reler qualquer coisa escrita por mim, pra evitar desistência. O que significa que não tem mais revisão ou uma consertada posterior. Mas tá tudo bem, não criemos pânico. Ironicamente eu já escrevi sobre ser uma pessoa nível 7.

Em outras notícias, eu não tenho novas notícias. Não quando 100% das pessoas que estão me lendo agora tem acesso ao meu Twitter, meu lugar favorito de expor minha própria vida. Mas isso é bom também. Vide tudo que eu falei acima, não ter nada fora do comum, pra mim, não é tão ruim assim.

 



até a próxima, 
deni out. 🌻 

happy fucking new year

É incrível o que pode mudar em 1 ano. 

(Esse é mais um texto clichê/reflexivo de fim de ano, porque é o que acontece e aparece nessa época, e eu sou sensível demais pra me deixar levar. Fico um pouco mal pensando "poxa, lá vou eu escrever sobre minha vida de novo, absolutamente ninguém quer saber". Mas aqui eu troco meu constante papel de ouvinte pro de oradora. E as minhas experiências e situações são as únicas que eu conheço. E é isso que eu tenho pra oferecer.) 




Não sei exatamente como ou porque, mas do nada lembrei dessa pergunta no meu Curious Cat do dia 3 de Janeiro de 2017. O que eu sei é que a resposta nunca saiu da minha cabeça porque me assustou. Me assustou pensar, logo no começo, sobre o que esse ano me traria, mesmo que fosse baseado numa brincadeira inofensiva de abrir um livro às cegas pra definir isso. O engraçado de ter ficado com medo do que poderia vir a acontecer com base nessa resposta é que o que realmente aconteceu encaixou perfeitamente nela.

Os últimos 365 dias foram estupidamente intensos.

Eu viajei to where-the-culture-is (lugar que quero estar, assim como a Lady Bird), podendo dividir uma das melhores experiências da minha vida com uma pessoa que eu amo, num lugar que eu amo. Eu e Cecilia, quando vimos aquele episódio de Glee que Kurt e Rachel invadem o teatro de Wicked na Broadway pra cantar For Good, falamos que faríamos o mesmo um dia. Nossa viagem pra São Paulo é o equivalente a Kurt e Rachel em NYC e, muito embora não tenhamos invadido teatro algum, no meu coraçãozinho eu poderia começar um dueto espontâneo de For Good para e com ela a qualquer momento. Eu conheci gente que me devia um abraço há anos, tamanho o tempo que estavam na minha vida mas sem a possibilidade de olhar olho no olho. Também conheci gente que nunca tinha trocado mais que 3 palavras, mas hoje sei que, quando eu voltar, serão as primeiras que irei chamar. Conheci gente que eu queria, conheci quem eu não sabia que queria conhecer e conheci até quem eu definitivamente não queria. 

Eu respirei pura arte e fiquei em contato direto com artistas por dias. Eu andei museu após museu, analisei de Van Gogh à Tarsila do Amaral. Eu ouvi histórias de gente que hoje está onde eu só sonho em chegar nos meus devaneios. Eu vi musicais ao vivo depois de anos. Eu fiquei bêbada pela primeira vez mesmo dizendo que não estava. Eu ri bastante. 

A diversão é tudo. E, mesmo assim, continuei sentado ali, repetindo a mim mesmo: não estou feliz. Não estou feliz.  

Eu também chorei bastante. Foi um ano, como sempre quis a Kylie Jenner, de descobrir as coisas. Descobri que, mesmo com experiências incríveis que marcaram a minha vida, eu não estava feliz. Descobri que meus pensamentos poderiam ser tóxicos a mim mesma. Descobri que não tem nada poético (ou sexy, como diria uma canção de Crazy Ex-Girlfriend) em querer literalmente morrer, ou ter vontade de qualquer coisa próxima a sumir do universo sem sentir dor. Tive o pior aniversário da minha vida. Os piores períodos da faculdade, ao ponto de chorar todo dia depois da aula, como se a vida fosse um último ano do Ensino Médio de novo. Descobri que nada disso era normal e eu precisava de ajuda, e que o interessante sobre isso é que a ajuda que você precisa raramente vem de quem você um dia esperou que viesse, ou de quem você queria que estivesse ali pra te ajudar. Eu perdi muita coisa, mas muita coisa mesmo. Perdi coisas que eu achava que precisava ter por perto pra que eu funcionasse.




E parando pra olhar agora, tudo isso junto num pacote foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido num universo de 12 meses. Nunca aprendi tanto sobre a vida real, sobre mim mesma, sobre a importância de desabafar e compartilhar sua dor quando você não aguenta mais fazer isso sozinha do que nos últimos 365 dias. Eu consegui minha ajuda, e aceitei ela do jeito que ela veio e de quem me deu, porque não tinha mais como esperar isso de quem nunca iria me oferecer. Levei a sério meu tratamento, sem demonizar medicação. Eu fui pra um Congresso de Direito e fiquei realmente satisfeita de estar ali. Eu ganhei a tão desejada LIBERDADE™,  dentro dos limites. Eu ganhei um carro, ganhei um irmão mais novo, ganhei uma banda.

Em contraste às pessoas que perdi, eu conheci e ganhei muitas outras. Não que ninguém substitua ninguém, porque, pra quotar aquele filme, "todo mundo é feito de detalhes específicos", mas tem sido uma experiência incrível analisar tais detalhes que nunca tinha tido contato antes e juntar com os meus.

Infelizmente a gente aprende que a vida real não é uma série. Não dá pra querer medir nossos anos como se fosse uma temporada fechada de 13 ou 24 episódios, e analisar o que aconteceu em 12 meses só pelos específicos de situações boas ou ruins. Não tem showrunner nenhum escrevendo nossa história, mas se tivesse, eu preferiria um desenvolvimento de personalidade à uma trama previsível cheia de fan service. Por sorte, meu character development foi incrível. E fui eu mesma que escrevi.

Esse ano não foi sobre os momentos bons se sobrepondo aos momentos ruins ou vice versa. Foi sobre tudo que eu tirei do conjunto deles, e sobre a pessoa que me tornei. Em Janeiro, se alguém me colocasse de lado, eu só confirmaria meus próprios pensamentos sobre o quão inútil e substituível e não-o-suficiente eu sou. Hoje, se alguém me fala ou demonstra silenciosamente que sou necessária de alguma forma, minha reação é basicamente essa: 




Eu sempre admirei muito aquela frase "eu conheço o meu valor, a opinião dos outros não me importa" da Peggy Carter. E eu sempre reproduzi, mais como um mantra de algo que eu queria acreditar um dia do que algo que eu realmente sentia. E hoje, depois de tudo, eu acredito. Eu não só vivi os últimos 365 dias, eu literalmente sobrevivi os últimos 365 dias, e, com tudo que eu aprendi, sei que conseguiria fazer de novo.

Em outra pergunta no meu Curious Cat de Janeiro sobre "o que eu esperava de 2017", eu respondi "autoconhecimento". Além de um ano cheio de luz e feitos incríveis, é o que eu mais desejo pra todos vocês. Funciona, e é lindo. Conheçam seu valor, mesmo que os outros não reconheçam. E, se algum dia o Darren Criss chegar pra vocês falando o quão sortudo ele é de ter alguém assim na vida dele, a resposta é sempre a mesma: Sim, é verdade. 

 


Esse ano eu também criei uma newsletter, e sou grata demais por ter pessoas tão amáveis por perto, que tiraram um tempinho pra ler e elogiar minhas palavas, fizessem elas sentido ou não. Eu escrevo o que não consigo mais guardar pra mim, e se eu consigo tocar pelo menos uma pessoa no processo... já é mais do que eu poderia pedir. 

Feliz ano novo, chuchus!! Obrigada por terem chegado e me acompanhado até aqui. Que 2018 não seja apenas suave com vocês, porque a gente não aprende só com a calmaria. E boa sorte.



(P.S.: Mesmo sendo a cópia em personalidade de Kurt Hummel, minha ficha sobre como esse ano foi na verdade a pretty good year pra mim não caiu quando o Darren Criss finalmente disse que me amava. Mas nunca vou ter palavras pra agradecer pessoas de alma bonita que entraram na minha vida dando um pouquinho de amor todo dia e, consequentemente, me ajudando a ver que eu mereço, sim, amar e ser amada. Então, como de costume, Kurt: de certa forma, eu te entendo.)
 

 
até a próxima, 
deni out. 🌻 

a história que eu nunca contei (e o que tirar dela)

(esse texto pode conter gatilhos) 

É difícil falar ao certo quando eu comecei a me sentir infeliz.

Minha primeira memória de um ataque de ansiedade volta pra quando eu tinha 5 anos, talvez até menos, e comecei a chorar sozinha por toda a agonia, medo e aflição que eu tava sentindo. Quando minha mãe me achou do lado de fora de casa e perguntou o que tava acontecendo, lembro de responder que tava com medo de ir pro inferno quando morresse. 

Minha mãe sempre foi muito religiosa e sempre me incentivou a fazer o mesmo. Faltar igreja em dia de domingo era inadmissível e só acontecia em casos graves de doença ou viagem (e olha que mesmo assim ela procurava outra igreja pra ir na cidade em que estávamos). É no mínimo interessante pensar que algo que supostamente deveria me ajudar espiritualmente é a primeira coisa que tenho memória de me causar um medo irracional e de me fazer sentir que, se eu errasse nessa vida, nem Deus iria me perdoar. E o inferno nunca me pareceu um bom lugar pra se estar. 

Eu fui crescendo e passei de medo irracional a medo generalizado. Não podia decepcionar minha mãe, ela era o único companheirismo real que eu conhecia. Não podia decepcionar minha avó, que iria culpar minha mãe por não ter me educado direito, porque na época dela "as coisas eram diferentes". Não podia decepcionar meu pai, com quem eu nem tinha um contato tão grande na época, só o encontrando em aniversário e dia dos pais. Nem o resto da minha família, nem os poucos três amigos que eu tinha (as outras crianças diziam que eu era "gorda demais" pra andar com elas), e nem Deus. Eu fui me construindo num pensamento absurdo de que não podia errar de jeito nenhum. Errar decepcionaria pessoas com quem eu me importava e que esperavam de mim o melhor. Errar me fazia sentir pequena demais. Errar levava pro inferno. 

Era quase impossível não ter desenvolvido ansiedade crescendo como eu cresci, e eu não culpo ninguém por isso. De certa forma eu mesma construí o caminho que me trouxe até aqui, eu mesma me prejudiquei. E olhando pra trás, não lembro de nenhum momento da minha vida que me senti tranquila ou em paz, ou que a resposta pra "você é feliz?" fosse instantaneamente sim. Foram anos me escondendo com medo de ouvir humilhações públicas pelo meu peso, pelo meu cabelo que era bagunçado demais, pelos meus dentes que não tinham alinhamento nenhum. Noites sem dormir direito porque alguma criança com muito ódio no coração dizia na escola que ia me matar e matar minha mãe também. Anos ouvido que meu pai nunca se importaria comigo como minha mãe se importava. Que eu não podia comer isso, nem aquilo, nem colocar ketchup naquela pizza porque já tava "gordinha demais". Que alisar o cabelo era necessário a cada 6 meses se eu quisesse que ele ficasse bonito. Foram anos ouvindo demais, e sentindo demais, e sem saber o que fazer com tudo isso, só deixando pra lá. 

Deixar pra lá sempre foi minha reação #1, uma vez que eu não sabia muito como falar sobre as preocupações de tirar o ar que eu tinha em relação a tudo, porque ninguém entendia ou veria isso como uma criança tendo que lidar com ansiedade logo cedo. Ou era drama infantil ou era algo que diziam "é assim mesmo", como se fosse normal ter que lidar com isso porque "faz parte" da experiência social de qualquer pessoa que tá crescendo e conhecendo o mundo. Isso me deixou tão ruim em lidar com minhas próprias emoções que quando minha avó morreu, avó essa que morava comigo e com quem tive contato todos os dias até os 7 anos de idade, minha primeira reação foi rir. Eu ri porque achei engraçado todo mundo começando a chorar automaticamente, porque até então eu não conhecia o choro dolorido. Eu só conhecia a dor, que enfiaram na minha cabeça como sendo algo "necessário" ou que "não dava pra fazer nada a respeito". Quando você reprime muita coisa, você desconhece o choro de desespero que quer deixar os sentimentos saírem. Então eu ri, e meu primo mais velho virou pra mim com uma cara incrédula, e mesmo não lembrando as exatas palavras dele, eu lembro exatamente a cara de indignação. "Por que tu tá rindo? A vovó morreu." Fiquei tão envergonhada que não respondi, só fui pro quarto fazer dever de casa. O funeral da minha avó foi na nossa casa. Foram horas com muita gente entrando e saindo numa casa que antes eram apenas três mulheres, avó, mãe e filha. Vi minha avó sendo velada e enterrada e não derramei uma lágrima. 

O que eu não chorei quando criança eu chorei na pré-adolescência. Ao ponto de chorar durante as aulas e amigos virarem pra mim e perguntarem, meio sem paciência: "É serio? De novo?". Provavelmente foi resultado daquele ditado que fala que guardar muita coisa uma hora te faz explodir porque não tem mais espaço. Eu ainda não tinha consciência da minha própria ansiedade na época, e no quão incapacitante ela era. Na minha cabeça eu só era estranha e fracassada demais porque não conseguia nem queria fazer o que todo mundo da minha idade perto de mim tava fazendo. Eu não queria ir pras festinhas e dar o primeiro beijo com um menino aleatório e falar sobre isso com todo mundo segunda de manhã. Acho que nem era muita questão de "não querer", e mais de sentir que não me encaixava ali, ou em lugar nenhum, e não conseguir nem tentar. Eu era o típico cliché americano que vivia com a cara enfiada num livro young-adult durante as aulas e intervalos, tinha um grupinho de 2 amigos que ninguém entendia também, e, ao contrário de todos os filmes com essa premissa, nunca teve nenhum acontecimento ao longo da minha vida que me transferisse de awkward pra cool

Quando minha mãe engravidou, o drama da filha única pré-adolescente passou disso pra ansiedade descontrolada. Eu tinha raiva da minha mãe por ter engravidado, eu tinha raiva da minha irmã (que eu inclusive chamei de feto por meses já que não me referia à ela como um ser com vida), eu egoistamente tinha raiva do universo inteiro que me deu uma mudança gigantesca dessas pra lidar quando eu mal conseguia digerir a mínima mudança de rotina nos meus dias sem surtar completamente. Escrevi uma carta de 5 folhas frente e verso pra minha mãe, explicando que não me sentia feliz, não fazia ideia de como era felicidade, e em como ela não me dava mais atenção ou carinho e isso me fazia sentir mais sozinha e incompreendida do que sempre fui. Nunca entreguei a carta. Foi nesse período que lembro de pensar pela primeira vez que eu era infeliz e que nunca conheceria a tal da felicidade de verdade, porque não conseguia sentir nada além de frustração. Descontei tudo isso em comida, e entrei num ciclo de comer bem mais que o necessário pra me sentir melhor (ou sentir qualquer outra coisa que não fosse o que eu sentia), sabendo que horas depois isso só ia me deixar mais miserável ao olhar no espelho e lembrar que ninguém se enturmava comigo ou me permitia brincar pelo pátio da escola porque eu era gorda. 

Quando minha irmã nasceu, nem tudo mudou, mas minhas perspectiva era outra. Éramos de novo três em casa, mãe, filha e filha, e eu já não tinha problema em dividir minha figura materna ou brincar de ser uma eu mesma. Mas o sentimento de não conseguir me encaixar em lugar nenhum, de não acompanhar o que agora quase-que-propriamente-dito-adolescentes faziam, e de nunca entender nada disso, sempre ficou. Lembro de fazer um post gigantesco num Tumblr privado por senha sobre tudo que tava acontecendo, e sobre me sentir assim, e sobre tratar as pessoas mal porque não sabia lidar com isso e depois ficar pior ainda por ter descontado em alguém. Foi um post quase que como esse, só que aos 13 anos de idade, quando eu achei que minha vida inteira tava desmoronando depois de me apaixonar desesperadamente pela primeira vez e ver tudo dando errado e ter sofrimento que nenhuma pessoa aos 13 anos deveria ter tanto pela falta de maturidade e nível de peso emocional envolvido. Era um desabafo escrito tão grande que hoje eu só lembro de uma frase. Provando as voltas que o mundo dá, a frase dizia: "eu só me sinto feliz de verdade quando chego em casa e vejo minha irmã". Eu só mandei o link desse Tumblr junto com a senha pra uma pessoa. Uma. A gente só falou sobre isso, e em como meu texto deixava claro que eu não queria continuar vivendo, não por um só aspecto da minha vida mas por ela como um todo, uma única vez.

Eu lidei com essa entrada genial na adolescência (uma desilusão não só amorosa como pessoal, sem padrasto, vendo um divórcio de perto, e com uma irmã menor pra ajudar a cuidar) da única forma que meu eu de 2011 saberia lidar: ouvindo o álbum Unbroken da Demi Lovato. Foi quando eu comecei a prestar atenção na existência de depressão, e transtornos psicológicos em geral, só porque tinha alguém que eu gostava falando sobre. Mas nunca achei que fosse meu caso, ou que eu me enquadrasse em algo, já que sempre pareceu ser uma situação séria demais e eu me considerava um nada que nem direito de estar mentalmente doente tinha. 

Hoje, depois de ter chegado no fundo do poço ao ponto que tiveram que fazer uma intervenção e me ajudar porque eu já não conseguia mais pedir ajuda, eu tenho não só um diagnóstico, mas dois. Tenho que lidar com uma ansiedade incapacitante e um quadro depressivo que esteve comigo por tanto tempo que já não sei quem eu sou sem as duas brigando pra saber quem vai me foder mais. A nível de curiosidade, depressão e ansiedade às vezes aparecem juntas mas em mundo nenhum as duas são amigonas que cooperam uma com a outra, muito pelo contrário. Não tem nada de cooperação ou amizade nisso. Eu sempre tive uma ideia do que eu tinha, depois de aceitar que não era normal se sentir como eu me sentia todos os dias da minha vida, mesmo com amigos me cobrando um diagnóstico porque aparentemente eu precisava de um pra provar que meu sofrimento era real e não frescura ou drama meu. 

Então tá aqui pra quem sempre me cobrou um diagnóstico propriamente dito, que nunca me entendeu, que achava que eu era a própria personificação de uma drama queen quando chorava na escola todos os dias: meu nome é Denise Aquino, eu tenho ansiedade generalizada e depressão. E aqui é um pouco da minha história tendo que lidar com elas. Foram anos moldando quem eu sou hoje, e me dando experiência pra aguentar o trampo até não conseguir mais, mas isso tudo tá bem, bem longe de definir quem eu sou, porque eu sou muito mais que isso. 

Meu ponto aqui não é procurar escancarar meus conflitos numa tentativa de obrigar alguém a refletir "meu Deus, quanto sofrimento essa menina". É só relatar mesmo; e tentar mostrar na prática que às vezes parece que acabou e você não tem mais de onde tirar forças e parece que não tem ninguém contigo. E você continua. E vai de novo, e de novo, e de novo. Empurrar tudo com a barriga é útil até que dói porque o peso tá demais e já faz tempo que você se esforça. Meu ponto é mostrar que mesmo com um total de 19 anos só conseguindo lembrar de coisas ruins e traumáticas pra ilustrar a própria história, ainda tem outros incontáveis anos pela frente em que não precisa ser assim. Eu tô me medicando, mas anti-depressivo não é milagre. É um trabalho muito mais difícil do que lembrar de tomar um comprimido toda noite. É tentar se encontrar todos os dias mesmo que o seu eu controlado e moldado por uma doença pareça maior. É enfrentar os próprios medos todo dia. É treinar se lembrar a cada minuto que não, você não é um fardo e nem um desperdício de matéria no universo. 



Eu quis escrever essa letter porque tive que falar meu diagnóstico em voz alta várias vezes esse último mês: pros meus pais, pra médicos, pra amigos mais chegados. E sempre pareceu que eu tinha que sentir vergonha por isso. E eu realmente sentia, ao ter que tomar remédio em público e me perguntarem pra que era, ou tendo que falar sobre minha consulta na psiquiatra em voz alta em público por estar no telefone, ou não conseguindo explicar pra fisioterapeuta que não podia ir pro pilates naquele dia porque tinha terapia. Eu nunca consegui, sempre tinha algo me prendendo. E eu comecei a pensar, por que? Do que exatamente eu tenho que ter vergonha? Eu não tenho algo vergonhoso, eu tenho uma doença. E eu tô recebendo ajuda por ela. Não tem nada de feio aí. Feio foram as mãos que não me estenderam, os olhares que não viraram pra mim, e as cabeças que não entenderam. 

Eu tenho 19 anos e nunca senti que me conheciam de verdade. Porque nem eu me conheço de verdade ainda. Eu sou um trabalho em progresso. Eu sei quem eu sou hoje, mas não tenho ideia de quem eu posso vir a ser num futuro próximo quando eu voltar a ter controle de mim mesma, e das minhas emoções, e da minha personalidade e força de vontade. E sinceramente? Meu medo irracional de ir pro inferno por ser uma pessoa ruim já não me assusta tanto. Eu passei pelo meu próprio inferno pessoal em vida mesmo, e me senti presa nele por muito tempo, mas agora finalmente parece que eu posso dar o primeiro passo pra sair e encontrar quem eu posso ser fora disso tudo. 

E eu mal posso esperar pra conhecê-la. 

E se essa é uma verdade que eu consigo aceitar, por terem me oferecido outro ponto de vista pra essa situação toda, é algo que você também consegue. Então um girassol pra todos que já se sentiram uma aberração, que não conseguem se entender, que sofrem com pensamentos negativos sem controle, que se autodepreciam, que lutam com síndrome do impostor, não aceitam o próprio corpo, lutam com ansiedade, depressão, que sentem que não podem amar outra pessoa sem sentir medo do que vão falar, de serem ridicularizados, expulsos de casa, ou que não vão ser aceitos por isso. Que ouviram na escola que deveriam morrer só por serem quem são. Aos que nunca se sentiram amados na mesma intensidade que amaram. Aos que não se sentem prioridade de ninguém. Aos que sofrem em silêncio. E aos que sofrem alto também. 

Don't give up hope. Ever. Hoje pelo menos você é você, e isso é o suficiente. 💛


até a próxima, 
🌻